O vício como negócio: a lógica predatória por trás das bets

Brasil precisa dar um basta a essa insidiosa máquina de fazer dinheiro
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Por Pedro Uczai *

O avanço das bets no Brasil tem sido defendido por setores que tentam apresentá-las como atividade econômica moderna, regulada e benéfica ao país. No entanto, esse discurso se sustenta mais em estratégias retóricas e em falácias. O que a realidade mostra é um modelo predatório que drena renda, vicia, arruína famílias e agrava desigualdades.

O primeiro mito é o da geração de riqueza e empregos. As bets são digitais, automatizadas e altamente concentradas. Movimentam bilhões, mas não criam cadeias produtivas relevantes. Diferentemente da indústria, comércio e serviços, não estimulam inovação local nem geram empregos compatíveis com o volume de recursos capturados. Na prática, são um sistema de extração financeira, com boa parte do dinheiro escoado para o exterior.

Outro argumento falacioso é o da arrecadação tributária. Dizem que a proibição faria o país perder bilhões em impostos (cerca de R$ 15 bilhões em 2026). Essa lógica ignora o efeito de substituição: o dinheiro gasto em apostas não sumiria da economia — iria para consumo, educação, alimentação e serviços, setores que geram mais empregos e arrecadação real. Segundo estudo da CNC (Sesc/Senac), o varejo perdeu mais de R$ 100 bilhões em faturamento em 2024 devido ao desvio de consumo para as bets.

O vício como negócio: a lógica predatória por trás das Bets
O vício como negócio: a lógica predatória por trás das Bets

Os segmentos da economia tradicional, além de gerarem arrecadação tributária, são muito mais intensivos em mão de obra e têm impacto positivo na economia real. Ou seja, o argumento fiscal ignora o efeito de substituição: o problema não é quanto se arrecada com as apostas online, mas quanto se deixa de arrecadar e de gerar desenvolvimento ao permitir que elas capturem uma parcela crescente da renda popular.

As bets também são fator relevante de endividamento familiar, superando variáveis como juros e crédito. Entre os mais pobres, o impacto é brutal: recursos da subsistência viram apostas, induzidas por algoritmos que estimulam o comportamento compulsivo. Milhões de beneficiários de programas sociais apostando desmontam a narrativa do “entretenimento”. Pessoas humildes são enganadas 24 horas por dia por um tsunami de anúncios em todas as mídias, com ajuda de figuras públicas que vendem o milagre do enriquecimento fácil.

Defensores das bets recorrem a analogias frágeis, como comparar a proibição à Lei Seca nos EUA — contextos completamente distintos. É um recurso retórico para provocar medo, não um argumento sério.

A verdade é que defender a livre operação das bets, mesmo com o marco regulatório vigente, só tem uma razão real: ganhar dinheiro fácil às custas do suor de quem produz riqueza no setor produtivo. Qualquer outro argumento é falacioso. Como diz o ditado: nada pessoal, apenas negócios.

Quando o Estado precisa criar linhas de cuidado em saúde mental, plataformas de autoexclusão e políticas específicas para lidar com os efeitos de uma atividade econômica, isso já é um sinal de alerta. As bets deixaram de ser uma questão de liberdade individual para se tornarem um problema de saúde pública, de endividamento e de organização econômica.

No próprio Congresso Nacional, o tema das apostas online é complexo e divergente. O Projeto de Lei 1808/26, apresentado pela Bancada do Partido dos Trabalhadores, que pede o fim das operações das Bets no país foi subscrito por 68 parlamentares, o que dá a dimensão da importância e necessidade do debate sobre o assunto.

A questão central, portanto, não é ideológica, mas prática: faz sentido manter um modelo que concentra renda, fragiliza famílias e drena recursos da economia real? A resposta, à luz dos dados, é não. Enfrentar esse tema não é retrocesso. É uma medida necessária de proteção social e de defesa do desenvolvimento econômico sustentável. O Brasil precisa dar um basta a essa insidiosa máquina de fazer dinheiro.

*Deputado Federal (PT-SC) e líder da Bancada do Partido dos Trabalhadores na Câmara dos Deputados

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