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Em períodos eleitorais, o debate público tende a se reorganizar em torno de temas que mobilizam emoções. Entre esses elementos, o medo aparece de forma recorrente. Ele não se limita a uma reação individual diante de riscos concretos. No campo político, passa a ser utilizado como estratégia de comunicação, capaz de direcionar escolhas e redefinir prioridades.

Nesse contexto, a disputa eleitoral deixa de girar apenas em torno de propostas e programas. Em muitos casos, a narrativa central passa a ser a existência de uma ameaça. Essa ameaça pode assumir diferentes formas, desde crises econômicas até a presença de grupos apresentados como perigosos para a sociedade. O resultado é um ambiente em que o voto é orientado menos por projetos de futuro e mais pela tentativa de evitar um risco imediato.

É nesse cenário que o conceito de pânico moral se torna relevante para entender como o medo é construído, amplificado e utilizado como ferramenta política.

O que é pânico moral e como ele transforma o medo em pauta política?

O conceito de pânico moral foi desenvolvido pelo sociólogo Stanley Cohen para descrever situações em que determinados grupos ou comportamentos passam a ser apresentados como ameaça aos valores sociais. Esse processo envolve a amplificação de episódios, a simplificação de conflitos e a criação de figuras que concentram a ideia de perigo social.

De acordo com essa formulação, o pânico moral se estrutura em etapas. Um grupo ou tema é definido como problema, seus traços são apresentados de forma estereotipada e a cobertura midiática amplia essa percepção. Em seguida, agentes políticos e sociais passam a tratar o tema como questão central, propondo respostas que muitas vezes envolvem medidas de controle ou restrição de direitos.

Esse mecanismo, muitas vezes, se baseia em distorções ou exageros. Ao transformar uma questão específica em ameaça generalizada, o pânico moral reorganiza o debate público. Em vez de múltiplos temas, a atenção se concentra em um único risco percebido.

Em contextos políticos, essa dinâmica permite deslocar o foco das eleições. Propostas concretas perdem espaço para narrativas que apresentam o cenário como uma disputa entre segurança e ameaça.

Como o medo pode influenciar o comportamento eleitoral

O uso do medo na política não é recente, mas ganhou novas formas nas democracias contemporâneas. Em vez de atuar apenas como resposta a crises, ele passa a ser mobilizado como estratégia de comunicação e organização do voto.

No Brasil, a intensa polarização política, na esteira de eventos como a Operação Lava Jato e o impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff (PT), levou o uso do medo na política a um novo patamar. Esse fenômeno ficou evidente em 2018, durante o processo eleitoral que resultou na vitória do candidato de extrema direita, Jair Bolsonaro, à Presidência da República.

Em estudo realizado com eleitores em 2018, a cientista social Esther Solano identificou que o medo aparece associado a contextos de crise econômica, insegurança social e sensação de perda de estabilidade. Segundo a pesquisadora, campanhas políticas conseguem direcionar esse sentimento ao atribuir responsabilidades a grupos específicos, transformando insegurança difusa em posicionamento político.

Esse mecanismo altera a forma como o eleitor interpreta o cenário político. Em vez de organizar sua escolha a partir de propostas, o foco passa a ser a identificação de uma ameaça. A disputa eleitoral se desloca para narrativas que apresentam determinados grupos ou ideias como risco à ordem social, criando um ambiente em que a decisão de voto é orientada pela necessidade de contenção desse risco.

A lógica que se estabelece é a da proteção. O eleitor é levado a escolher candidatos que prometem neutralizar ameaças, muitas vezes apresentadas de forma simplificada ou ampliada. Nesse cenário, o conteúdo programático perde espaço para discursos que operam com a ideia de urgência, reorganizando o debate público em torno da percepção de perigo e não da comparação entre projetos políticos.

Como a criação de inimigos simplifica o debate e direciona os votos

A construção de inimigos é um dos elementos centrais na política do medo. Esse mecanismo consiste em associar problemas complexos a grupos específicos, criando uma relação direta entre a existência desses grupos e a ideia de ameaça.

No campo político, essa estratégia aparece na forma de discursos que atribuem crises econômicas, insegurança ou mudanças sociais a determinados segmentos. Esses grupos passam a ser vistos como responsáveis por riscos coletivos, mesmo quando não há evidência que sustente essa relação.

O conceito de pânico moral, desenvolvido pelo sociólogo Stanley Cohen, ajuda a entender esse processo. Em sua análise, determinados grupos passam a ser retratados como “demônios sociais”, ou seja, figuras construídas como ameaça aos valores e à ordem, a partir de representações distorcidas ou exageradas na mídia e no debate público . Essa construção concentra a percepção de perigo e contribui para justificar respostas mais duras por parte do Estado.

No Brasil, esse mecanismo também aparece em análises sobre comportamento eleitoral. Segundo a cientista social Esther Solano, campanhas políticas podem transformar o medo em rejeição a grupos específicos por meio da lógica do bode expiatório. Nesse caso, problemas estruturais são atribuídos a um alvo definido, simplificando a realidade e direcionando a insatisfação social.

A ideia de bode expiatório se refere justamente a esse processo: a transferência de responsabilidades complexas para um grupo ou indivíduo, apresentado como causa principal de uma crise, mesmo sem relação direta com sua origem.

Essa simplificação tem impacto direto no debate público. Questões estruturais, como desigualdade ou políticas públicas, perdem espaço para narrativas que reduzem o cenário político a uma disputa entre ameaça e proteção.

Por que a segurança pública se torna o principal gatilho da política do medo

Dois policiais militares das Unidades de Polícia Pacificadora (UPP) fortemente armados e com o rosto encoberto caminham em posição de patrulha, com viaturas policiais ao fundo, nas comunidades do Cantagalo e Pavão-Pavãozinho, no Rio de Janeiro, em 2016. A imagem ilustra como a segurança pública se torna um dos principais gatilhos da política do medo: a ostensividade da presença policial em territórios periféricos reflete o cenário em que o debate eleitoral é deslocado para narrativas de ameaça e repressão, em detrimento de propostas estruturais.
Policiais Militares das Unidades de Polícia Pacificadora (UPP), nas comunidades do Cantagalo e Pavão-Pavãozinho, no Rio de Janeiro em 2016. Foto Fernando Frazão

A segurança pública ocupa um lugar central na política do medo. Em contextos de violência urbana e insegurança, o tema se torna um dos principais pontos de mobilização eleitoral.

No entanto, há uma diferença entre o medo decorrente de situações reais e sua exploração política. O primeiro está relacionado a experiências concretas, como violência ou falta de acesso a serviços públicos. O segundo envolve a amplificação dessas situações para justificar propostas específicas ou direcionar o voto.

A cientista social Esther Solano aponta que, no Brasil, o tema da segurança é frequentemente utilizado como eixo de campanhas eleitorais. Segundo ela, a ausência de debate aprofundado sobre o tema abre espaço para discursos que associam segurança a medidas punitivas e simplificadas, ampliando a adesão a propostas baseadas em controle e repressão.

Nesse contexto, o medo deixa de ser apenas uma resposta a problemas concretos. Ele passa a ser organizado como narrativa política, capaz de direcionar o comportamento eleitoral e influenciar a escolha de candidatos.

Como fake news ampliam o pânico moral e distorcem o debate público

Mãos seguram um smartphone com a tela iluminada exibindo notificações em aplicativos. A imagem contextualiza o papel das plataformas digitais na amplificação do pânico moral e das fake news: algoritmos que priorizam o engajamento favorecem a circulação de conteúdos que exploram o medo e a indignação, contribuindo para distorcer o debate político e influenciar o comportamento eleitoral.
Com o fim da checagem de fatos nas redes sociais, as fake news encontram territórios para se multiplicarem através dos algoritmos. Foto: Tânia Rego/Agência Brasil

A circulação de desinformação desempenha um papel central na política do medo. Em ambientes digitais, conteúdos que despertam emoções intensas tendem a alcançar maior visibilidade, ampliando o alcance de narrativas baseadas em medo.

As plataformas digitais operam por meio de algoritmos que priorizam conteúdos com alto engajamento, como curtidas, compartilhamentos e comentários. Esse modelo favorece a circulação de informações que geram reações rápidas, incluindo medo e indignação.

Nesse cenário, as fake news não precisam necessariamente inventar fatos. Muitas vezes, basta distorcer informações ou retirar dados de contexto para construir uma narrativa de ameaça. Esse tipo de conteúdo se encaixa na lógica do pânico moral, ao apresentar situações específicas como riscos generalizados.

Mais do que conteúdos isolados, essas narrativas operam por repetição e circulação contínua. Ao serem reiteradas no ambiente digital, passam a organizar a percepção da realidade, mesmo quando não correspondem às normas ou aos dados disponíveis.

Esse processo está relacionado a uma reconfiguração do debate público, em que a circulação de discursos substitui a verificação factual como critério de validação.

O resultado é um ambiente em que a distinção entre informação e interpretação se torna menos evidente, favorecendo a consolidação de percepções baseadas em medo.

Alguns casos no Brasil mostram como a desinformação pode ser utilizada para influenciar o debate político. Em janeiro de 2026, um vídeo divulgado nas redes sociais do então deputado Níkolas Ferreira associou o Pix a um suposto sistema de “monitoramento” da população, sugerindo que transferências financeiras estariam sendo utilizadas para controle individual.

À época, o deputado Rogério Correa (PT), chegou a pedir que a Advocacia-Geral da União investigasse o parlamentar, sustentando que as normas citadas por Nikolas não criavam vigilância nem tributação sobre o uso do sistema .

Outro exemplo aparece no debate sobre a regulamentação do trabalho por aplicativos. Parlamentares passaram a associar a proposta a um suposto aumento de preços para consumidores, vinculando a medida a custos mais altos em serviços de entrega. A relação foi negada por integrantes do governo, que afirmaram que o projeto não previa esse repasse direto ao consumidor .

Nos dois casos, a construção da narrativa não depende da criação de um fato totalmente falso, mas da distorção de informações existentes. Ao apresentar políticas públicas como ameaça, essas mensagens reorganizam a percepção do debate e influenciam a forma como o tema é discutido.

Como plataformas digitais ampliam o medo em forma de conteúdo e definem o que circula

As plataformas digitais desempenham um papel central na organização da informação. Diferentemente da mídia tradicional, que opera com critérios editoriais explícitos, essas empresas utilizam sistemas automatizados para definir o que ganha visibilidade.

Esses sistemas classificam conteúdos com base em padrões de comportamento, priorizando aquilo que gera maior engajamento. Isso inclui conteúdos que provocam medo, indignação ou conflito.

Além disso, as plataformas tendem a reforçar conteúdos alinhados às preferências dos usuários. Esse processo contribui para a formação de bolhas informacionais, em que diferentes grupos têm acesso a versões distintas da realidade.

Nesse ambiente, o pânico moral encontra condições favoráveis para se expandir. Narrativas que apresentam ameaças ganham visibilidade, enquanto informações que exigem análise mais complexa tendem a circular menos.

Veja mais: Como as plataformas digitais controlam a opinião pública?

Como o medo abre espaço para medidas de controle e restrição de direitos

A relação entre medo e apoio a políticas mais duras aparece de forma recorrente no debate político. Em geral, a ampliação da sensação de insegurança tende a legitimar medidas de controle, vigilância e repressão. Nesse sentido, o uso do medo como argumento permite sustentar propostas de maior rigor penal, ampliação da vigilância e restrições a direitos, sempre associadas à promessa de segurança.

Esse movimento também aparece em análises sobre o funcionamento das democracias contemporâneas. Quando o medo passa a organizar o debate público, cresce a aceitação de respostas imediatas e centralizadas.

Nesse cenário, o debate sobre direitos e garantias perde espaço para a ideia de proteção, e a percepção de que a democracia não consegue lidar com crises abre caminho para propostas que priorizam controle e ordem.

Autoritarismo: como o medo e a desinformação reorganizam a política

Ex-presidente Jair Bolsonaro de terno e gravata em posição de continência ao lado de militares fardados com condecorações, durante cerimônia oficial. A imagem acompanha a seção sobre autoritarismo e desinformação, ilustrando o vínculo simbólico entre lideranças políticas e instituições militares como elemento recorrente em contextos em que o medo e a construção de ameaças reorganizam o debate democrático.
O ex-presidente Jair Bolsonaro ao lado de militares. Foto: Marcos Corrêa/PR

A combinação entre medo, desinformação e construção de inimigos cria um ambiente propício à expansão de discursos autoritários. Nesse contexto, o debate político se reorganiza em torno de ameaças, e não de propostas.

Esse processo aponta a atuação conjunta entre desinformação e discurso de ódio. Ao retirar simbolicamente a legitimidade de determinados grupos, essas narrativas tornam aceitável a restrição de direitos e a ampliação do controle social.

A dinâmica não depende necessariamente de rupturas institucionais. O avanço de discursos autoritários pode ocorrer dentro das próprias regras democráticas, a partir da forma como o debate público é organizado e como as informações circulam .

A política passa a ser estruturada em torno da ideia de conflito permanente. Em vez de espaço de negociação, torna-se um campo de disputa entre grupos apresentados como incompatíveis.

Veja mais: Autoritarismo e Pedagogia do Ódio: pilares do Bolsonarismo

Quando o medo deixa de mobilizar e passa a reduzir a participação política

Além de influenciar o voto, o medo também afeta a participação política. Em contextos de insegurança constante, cresce a tendência de afastamento do debate público.

O papel do medo nas democracias contemporâneas pode atuar como mecanismo de retração da participação cidadã. Em vez de estimular a ação coletiva, contribui para o isolamento e a desconfiança em relação às instituições.

Esse processo está relacionado à forma como o medo é organizado. Quando apresentado como ameaça difusa e constante, ele reduz a capacidade de ação coletiva e reforça a percepção de que decisões políticas devem ser centralizadas.

O resultado é um cenário em que a política perde seu caráter participativo. A cidadania passa a ser exercida de forma limitada, com menor engajamento e maior dependência de lideranças que prometem soluções imediatas.

Como diferenciar o medo real da exploração política desse sentimento?

A distinção entre medo legítimo e sua exploração política é central para entender o fenômeno. Situações de violência, crise econômica ou insegurança geram preocupações reais, que precisam ser consideradas no debate público.

No entanto, a política do medo se caracteriza pela amplificação dessas situações, muitas vezes associando problemas complexos a causas simplificadas. Esse processo permite direcionar o debate e influenciar decisões eleitorais.

O medo como ferramenta política mostra que ele pode ser mobilizado tanto para justificar políticas públicas quanto para reorganizar percepções sociais. A diferença está na forma como é utilizado.

Quando o medo é apresentado como base para reflexão e elaboração de políticas, pode contribuir para o debate. Quando é utilizado para simplificar conflitos e construir inimigos, passa a atuar como instrumento de controle.

O que muda na democracia quando o medo vira estratégia eleitoral

O uso do medo como ferramenta eleitoral produz efeitos que vão além do período de votação. Ao reorganizar o debate público em torno de ameaças, ele altera a forma como a política é percebida e praticada.

A construção de inimigos, a amplificação de riscos e a circulação de desinformação contribuem para a desumanização de grupos e para a redução do espaço de diálogo. A política passa a operar como disputa permanente.

Ao mesmo tempo, cresce a aceitação de medidas que restringem direitos em nome da segurança. Esse movimento impacta diretamente o funcionamento das instituições e a relação entre Estado e sociedade.

A longo prazo, o efeito é a transformação da política em um campo orientado por medo e reação. Nesse cenário, a construção de projetos coletivos perde espaço para respostas imediatas a ameaças percebidas.

Entender como o pânico moral opera nesse processo permite observar que o medo, longe de ser apenas uma emoção, atua como elemento estruturador da disputa política contemporânea.

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