O governo federal lançou nesta semana o Novo Desenrola Brasil, segunda edição do programa de renegociação de dívidas, com a promessa de alcançar até 20 milhões de brasileiros e reestruturar cerca de R$ 58 bilhões em débitos. A iniciativa surge em um contexto de deterioração do orçamento familiar, que vem sendo pressionado pelo crédito caro e pelas apostas online, as chamadas bets.
Em abril, o endividamento das famílias chegou a 80,9%, o maior nível da série histórica da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). A inadimplência também permanece elevada, atingindo 29,6% dos lares brasileiros.
O avanço das dívidas ocorre apesar de indicadores macroeconômicos positivos. O desemprego recuou para 6,1% no trimestre encerrado em março, menor nível para o período, enquanto a renda média chegou a R$ 3.722, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O Produto Interno Bruto (PIB) também registra crescimento pelo quinto ano consecutivo.
Ainda assim, o quadro não se traduz em alívio financeiro. Para especialistas, a combinação de custo de vida elevado, crédito caro e dependência de financiamento explica o paradoxo entre renda e endividamento. Além disso, o fator bets também tem pressionado o orçamento das famílias.
O próprio ministro da Fazenda, Dario Durigan, chegou a dizer que o assunto estava no radar do governo, por ocasião do lançamento do Desenrola 2.0. “Estamos estudando como criar contrapartidas para os clientes que usarem o Desenrola. Porque não adianta resolver uma dívida e, logo em seguida, a pessoa se endividar novamente nas bets”, afirmou o ministro.
Ciclo de juros e herança da pandemia
Após a pandemia de Covid-19, a política monetária de juros baixos estimulou o consumo e facilitou o acesso ao crédito. A taxa Selic chegou a 2% em 2020, mas a escalada inflacionária levou a uma reversão rápida do ciclo.
Entre 2021 e 2022, a taxa subiu de forma acentuada, atingindo 13,75% em agosto de 2022. O aperto monetário encareceu o crédito e pressionou ainda mais o orçamento das famílias.
Inflação e renda pressionam consumo básico
Mesmo com algum controle inflacionário recente, itens essenciais continuam pesando no bolso. A inflação de alimentos acumulou 7,81% em abril de 2025, acima do índice geral de 5,53%.
A volatilidade de preços também contribui para a percepção de perda de poder de compra. Carnes, por exemplo, acumularam alta de 21,17% no início de 2025, enquanto itens básicos como arroz e feijão já haviam registrado picos superiores a 20% em anos anteriores.
Hoje, 41,8% do orçamento das famílias brasileiras é consumido por despesas essenciais, como moradia, alimentação, transporte e saúde, segundo o IBGE.
Educação financeira
Para economistas, o endividamento também está ligado a fatores comportamentais. A percepção de que parcelas cabem no orçamento imediato leva muitas famílias a subestimar o impacto total do crédito.
Uma pesquisa da Creditas em parceria com a Opinion Box aponta que 59% dos brasileiros começaram o ano sob algum nível de pressão financeira. Além disso, 84,9% dos endividados utilizam o cartão de crédito como principal modalidade de dívida.
A falta de planejamento, a limitação de renda e a imprevisibilidade econômica aparecem entre os principais obstáculos para o equilíbrio financeiro das famílias.
Bets entram no debate do endividamento
No centro das discussões mais recentes, as apostas online passaram a ser apontadas como um fator adicional de pressão sobre o orçamento das famílias.
Segundo estimativa da CNC, as chamadas bets movimentaram cerca de R$ 143 bilhões em dois anos, o equivalente a 2,5% do faturamento do varejo brasileiro no período. A entidade afirma que o avanço das apostas digitais teria impacto no aumento da inadimplência severa e no prolongamento das dívidas das famílias.
A análise, porém, é contestada pela Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL), que afirma não haver relação direta entre apostas e endividamento. Para a entidade, o problema é estrutural e está ligado ao custo do crédito, aos juros elevados e ao custo de vida.
Debate sobre impacto e regulação
A CNC defende maior restrição à publicidade das plataformas de apostas e inclusão do comportamento de consumo em bets nas análises de risco de crédito.
Já representantes do setor argumentam que os dados de gasto médio indicam impacto limitado no orçamento familiar e criticam interpretações que associam diretamente apostas à inadimplência.
Especialistas alertam ainda para a chamada “normalização do endividamento”, quando a alta disseminação do crédito e das dívidas reduz a percepção de risco.
Nesse ambiente, decisões financeiras passam a ser guiadas por urgência ou necessidade imediata, o que, segundo analistas, dificulta a reversão do ciclo de endividamento.