Sem consenso sobre guerra, Brics não consegue fechar declaração final de cúpula

Situação no Irã divide membros do bloco e revela obstáculos da expansão do grupo
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Os países do Brics não chegam a um acordo sobre uma declaração final e a guerra no Irã revela os limites do bloco. Nesta sexta-feira, os chanceleres do grupo de países emergentes encerraram dois dias de negociações. Mas, ao contrário de outros eventos, não houve uma declaração conjunta.

Coube apenas aos anfitriões indianos apresentar um resumo do encontro, declarando abertamente que existem diferenças entre os membros sobre a crise no Oriente Médio.

O bloco conta tanto com o Irã como com a Arábia Saudita e Emirados Árabes, países que estão em lados opostos no conflito.

Durante os encontros, a delegação iraniana chegou a acusar os Emirados Árabes de fazer parte da ofensiva contra Teerã.

No texto final, apresentado apenas pela presidência indiana, foi contatado:

Havia opiniões divergentes entre alguns membros em relação à situação na região da Ásia Ocidental/Oriente Médio. Os membros do BRICS expressaram suas respectivas posições nacionais e compartilharam uma gama de perspectivas.

Entre os pontos de vista articulados, incluíram-se a necessidade de uma resolução rápida da crise atual, o valor do diálogo e da diplomacia, o respeito à soberania e à integridade territorial, a defesa do direito internacional, a importância do fluxo seguro e desimpedido do comércio marítimo pelas vias navegáveis ​​internacionais e a proteção da infraestrutura civil e das vidas civis.

O impacto dos recentes acontecimentos na situação econômica global foi enfatizado por muitos membros.

O Brasil foi representado pelo chanceler Mauro Vieira e parte dos diplomatas, que hoje culpam a expansão do bloco por sua fragilidade.

Originalmente com quatro membros, o bloco teve uma primeira expansão em 2009 com a adesão da África do Sul. Mas foi a partir de 2023 que a China passou a pressionar os demais membros para que uma nova expansão fosse realizada.

Brasil e Índia eram contrários à movimentação de Pequim. O temor era de que, diverso, o grupo pudesse perder sua força como ator internacional. O chanceler Mauro Vieira chegou a alertar que os ativos conquistados pelo Brics ao longo de mais de dez anos deveriam ser “preservados”.

Outro temor de Brasil e Índia era de que o bloco se transformasse em uma espécie de estrutura para legitimar as ambições de política externa da China.

Numa reunião a portas fechadas apenas com Luiz Inácio Lula da Silva, Xi Jinping, Narendra Modi, Vladimir Putin por videoconferência e Cyril Ramaphosa, foi negociado o destino do bloco, num retiro na África do Sul em 2023 e sob enorme pressão por parte de Pequim.

Aos poucos, a resistência indiana se desfez e o Brasil acabou ficando sozinho numa posição contrária à expansão. Sem alternativas, Brasília acabou cedendo.

O governo Lula tentou convencer aliados sul-americanos a aderir, numa esperança de equilibrar o jogo com a China. Brasília tentou costurar a entrada de Colômbia e Argentina. Bogotá optou por declinar o convite e, quando assumiu o governo, Javier Milei rejeitou a proposta de fazer parte do bloco dos emergentes.

Pequim tentou garantir que seu aliado na região latino-americana — a Venezuela — fosse aceito. Mas, neste caso, foi o veto do Brasil que fez implodir a adesão de Caracas.

Alguns critérios, ainda assim, foram mantidos no acordo final. O primeiro deles era a exigência de que qualquer decisão continuasse sendo tomada por consenso.

Outra reivindicação de Brasil, África do Sul e Índia era de que os novos membros se comprometeriam em apoiar o pleito dos três por uma vaga no Conselho de Segurança da ONU.

No momento da expansão, entre 2023 e 2024, o convite incluía sauditas e os Emirados. Uma proposta foi feita para a Indonésia, mas acabou sendo declinada por Jacarta, sob forte pressão dos EUA. E, como alternativa, o Irã foi convidado para fazer parte do bloco.

Naquele momento, a presença na mesma sala de atores rivais no Golfo foi vendida como uma sinalização de que o Brics poderia ser, até mesmo nesse caso, uma ponte entre autoridades de vários países. O Brasil tinha sérias dúvidas se esse seria o caso, enquanto negociadores alertavam sobre o risco de ter no Brics países que tinham entregue parte de sua soberania com a instalação de bases militares americanas.

O que poucos imaginavam é que, menos de dois anos depois, uma guerra eclodiria entre eles. Hoje, um dos legados do conflito é a demonstração das limitações de um bloco que representava a esperança para uma frente de países emergentes.

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