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Por José Sócrates

Os Estados Unidos não perderam apenas a guerra, perderam também a negociação. Resta ainda saber qual a dimensão da derrota, mas os primeiros balanços são desastrosos. A operação começou com a decapitação do regime, objetivos grandiosos e ameaça de destruição total. Acabou com a súplica de um acordo que permitisse uma saída digna. Não há batom vermelho que possa disfarçar o fracasso e o estrago – os Estados Unidos saem desta guerra com menos capacidade de projetar poder no mundo, com menos poder para influenciar o comportamento dos outros países e com a credibilidade perante os aliados completamente comprometida. A campanha militar não foi uma fúria épica, mas uma derrota épica.

A melhor forma de avaliar a situação é ler o memorando de entendimento. O primeiro parágrafo tira imediatamente todas as dúvidas: “fim permanente das operações militares em todas as frentes, incluindo o Líbano”. O Líbano é referido três vezes nesse primeiro parágrafo, para que a humilhação de Israel seja impossível de disfarçar. Depois, no quarto parágrafo, vem a retirada: “os Estados Unidos comprometem-se a retirar as suas forças militares das proximidades da República Islâmica do Irã”. Não é a debandada de Saigão, nem o caos de Kabul, mas não anda longe.

Todavia, a humilhação completa, a meu ver, está no sexto parágrafo quando os Estados Unidos se comprometem “a desenvolver um plano (…) dotado de pelo menos 300 milhões de dólares para a reconstrução e o desenvolvimento económico da República do Irão”. Uma formulação que não esconde o que realmente significa este plano – reparações de guerra. Até aquilo que sempre foi visto como uma reivindicação simbólica, que não parecia ser para levar a sério, foi conseguido na negociação. Vitória total para os iranianos. Em troca de quê? Em troca da abertura do estreito de Ormuz e do medo americano das consequências para a economia mundial.

A cada dia as coisas vão ficando mais claras – embora a situação ainda esteja em desenvolvimento. As palavras do memorando, assinadas pelos dois Presidentes, são absolutamente taxativas. Elas representam a admissão de uma derrota estratégica dos Estados Unidos e, mais do que isso, elas representam a aceitação do Irã como potência regional. A solenidade da declaração do parágrafo 2 é particularmente elucidativa: “Os Estados Unidos da América e a República do Irã comprometem-se a respeitar a soberania territorial de ambas as partes e a abster-se de interferir nos assuntos internos um do outro”. Para quem tratava o Irã como estado terrorista ou como estado pária (rogue State) esta é uma mudança política muito significativa. Com este memorando os Estados Unidos conferem total respeitabilidade ao governo do Irã e oferecem-lhe a legitimidade de potência regional de primeira grandeza.

Esta guerra, para além de outras consequências, representou uma viragem na balança de poder na região do golfo – em favor do Irã. Assim se compreende a fúria israelita que fica numa situação muito delicada. E não é apenas Israel a ficar mal, mas também Netanyahu que luta agora pela sobrevivência política. Entendamo-nos bem: os dois presidentes têm agendas não apenas diferentes, mas antagónicas – Netanyahu precisa de continuar a guerra do Líbano para ganhar as eleições; Trump precisa do estreito de Ormuz aberto para não perder as eleições intercalares. Esta divergência é séria e grave – a partir daqui as coisas vão endurecer.

Todavia, o que é absolutamente paradoxal é que Trump não tenha outra alternativa que não seja defender com todas as forças o Memorando que assinou – cujo texto consagra uma das mais significativas derrotas estratégicas dos Estados Unidos. A história escreve-se com ironias inesperadas.

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