Por Leila Cangussu
Quando os oceanos atingem temperaturas recordes, eventos extremos se tornam mais frequentes e cientistas alertam para mudanças cada vez mais rápidas no sistema climático, alguns pesquisadores passam a ganhar destaque no debate público.
Um deles é Guy McPherson.
Professor emérito da Universidade do Arizona, nos Estados Unidos, McPherson dedicou décadas ao estudo da ecologia, dos recursos naturais e das transformações ambientais. Nos últimos anos, seu nome passou a circular muito além dos círculos acadêmicos por causa de suas análises sobre aquecimento global, pontos de inflexão climáticos, biodiversidade e os riscos associados a um planeta em rápida transformação.
Suas pesquisas buscam responder uma pergunta que se tornou importante no século XXI: até onde os sistemas naturais que sustentam a vida humana conseguem absorver a pressão causada pela atividade econômica, pelo consumo de combustíveis fósseis e pela degradação ambiental?
Essa discussão ganhou novo impulso em meio aos alertas sobre um possível Super El Niño e ao aquecimento recorde registrado nos oceanos nos últimos anos.
A trajetória acadêmica de Guy McPherson
Guy McPherson construiu sua carreira na área de Recursos Naturais e Ecologia Evolutiva.
Ao longo de décadas, atuou como pesquisador, professor universitário e autor de estudos relacionados ao funcionamento dos ecossistemas, biodiversidade e impactos ambientais.
Sua formação acadêmica ocorreu em um período em que as mudanças climáticas ainda eram tratadas como uma preocupação futura. Com o passar dos anos, porém, os sinais de aquecimento global se tornaram cada vez mais evidentes.
Foi nesse contexto que McPherson passou a concentrar suas pesquisas na velocidade das transformações ambientais e nos riscos associados à perda de estabilidade dos sistemas naturais.
O pesquisador que passou a estudar os limites do planeta
Ao contrário de abordagens que analisam separadamente clima, agricultura, energia ou biodiversidade, Guy McPherson passou a observar essas áreas como partes de um mesmo sistema.
Em suas análises, a crise climática não é apenas uma questão de temperatura. Ela envolve produção de alimentos, disponibilidade de água, estabilidade dos oceanos, geração de energia, preservação dos ecossistemas e capacidade de adaptação das sociedades humanas.
Essa visão sistêmica levou o pesquisador a investigar como diferentes problemas ambientais podem interagir entre si e produzir efeitos em cadeia.
A pergunta central passou a ser: o que acontece quando vários sistemas entram em pressão ao mesmo tempo?
Foi a partir dessa investigação que McPherson passou a dedicar atenção especial aos chamados loops de retroalimentação climática. Na visão do pesquisador, eles ajudam a explicar por que algumas mudanças ambientais não avançam de forma linear, mas podem ganhar velocidade à medida que o próprio sistema passa a reforçar os impactos já existentes.
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O que são os loops de retroalimentação climática?
Um dos conceitos mais importantes nas pesquisas de Guy McPherson é o de retroalimentação climática. Esses processos acontecem quando uma mudança ambiental desencadeia novas alterações que reforçam a própria mudança original.
O exemplo mais conhecido envolve o gelo do Ártico.
À medida que o gelo derrete, a superfície branca que refletia parte da radiação solar diminui e, em seu lugar, surge o oceano escuro, que absorve mais calor. Esse calor adicional contribui para acelerar ainda mais o derretimento.
Fenômenos semelhantes são observados em florestas, oceanos, solos congelados e outros componentes do sistema climático.
Para McPherson, compreender esses mecanismos é fundamental para entender por que alguns processos ambientais podem avançar mais rapidamente do que o esperado.
Por que o aquecimento dos oceanos preocupa tanto?
Os oceanos absorvem grande parte do calor produzido pelo aquecimento global. Durante décadas, eles funcionaram como um enorme amortecedor térmico do planeta.
Nos últimos anos, porém, cientistas registraram temperaturas oceânicas recordes em diferentes regiões do mundo. Esse fenômeno chamou a atenção de pesquisadores porque o oceano influencia diretamente o clima global. Quando acumula mais calor, ele afeta correntes marítimas, regimes de chuva, padrões atmosféricos e a frequência de eventos extremos.
É justamente por isso que Guy McPherson dedica atenção especial ao comportamento dos oceanos e aos possíveis impactos de fenômenos como o El Niño.

Como o Super El Niño entrou no centro das discussões?
O El Niño é um fenômeno natural associado ao aquecimento das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. Em eventos mais intensos, seus efeitos podem ser sentidos em diferentes continentes, alterando padrões de chuva, temperatura e circulação atmosférica.
Nas últimas décadas, episódios fortes de El Niño estiveram associados a secas severas, enchentes históricas, perdas agrícolas e recordes de temperatura em diversas partes do planeta.
Para pesquisadores como Guy McPherson, a preocupação atual vai além do fenômeno em si.
Ela está relacionada ao fato de que um novo episódio intenso ocorreria em um planeta muito mais quente do que aquele que existia durante os grandes eventos de 1982, 1997 ou 2015.
Essa combinação entre aquecimento global e aquecimento oceânico passou a ocupar o centro das discussões climáticas internacionais.
Para Guy McPherson, porém, existe outro elemento pouco conhecido pelo público que pode ajudar a explicar por que alguns pesquisadores enxergam riscos maiores do que aqueles normalmente retratados no debate climático. Trata-se do chamado mascaramento por aerossóis, uma hipótese que relaciona atividade industrial, poluição atmosférica e aquecimento global.
Leia mais: Pela primeira vez, estudo demonstra aceleração no aquecimento global
O que é o mascaramento por aerossóis?
Entre os temas mais conhecidos das pesquisas de McPherson está o chamado mascaramento por aerossóis.
O conceito parte da observação de que determinadas partículas emitidas pela atividade industrial refletem parte da radiação solar e produzem um efeito temporário de resfriamento na atmosfera.
Segundo essa linha de pesquisa, a redução dessas partículas poderia revelar uma parcela adicional do aquecimento já acumulado no sistema climático.
O tema desperta interesse porque conecta clima, indústria, energia, transporte marítimo e economia global. Também ajuda a explicar por que Guy McPherson frequentemente relaciona questões ambientais a debates sobre petróleo, fertilizantes, logística e produção de alimentos.
Biodiversidade, coextinções e risco ecológico
Outro eixo importante de suas pesquisas envolve a biodiversidade.
A natureza funciona como uma rede de interdependências. As espécies dependem umas das outras para alimentação, reprodução, dispersão de sementes e equilíbrio dos ecossistemas. Mas quando algumas desaparecem, outras podem ser afetadas.
Em alguns casos, isso desencadeia processos conhecidos como coextinções, nos quais a perda de um organismo afeta vários outros componentes da mesma rede ecológica.
Para McPherson, compreender essas conexões é fundamental para avaliar os impactos de mudanças ambientais aceleradas.
Por que suas pesquisas ganharam tanta atenção?
O crescimento do interesse por Guy McPherson acompanha uma transformação maior.
Nos últimos anos, a crise climática deixou de ser tratada apenas como uma questão ambiental e passou a envolver segurança alimentar, estabilidade econômica, produção agrícola, abastecimento de água, infraestrutura urbana e planejamento energético.
À medida que eventos extremos se tornaram mais frequentes, pesquisadores que estudam riscos sistêmicos passaram a receber mais atenção. É nesse espaço que as análises de McPherson ganharam visibilidade internacional.
Suas pesquisas buscam conectar fenômenos que normalmente são discutidos de forma separada, mostrando como clima, biodiversidade, energia e economia podem influenciar uns aos outros.
A crise climática ampliou as perguntas sobre o futuro
Independentemente das diferentes interpretações sobre o futuro climático, uma questão parece cada vez mais presente no debate científico: o planeta atravessa um período de transformação acelerada.
O aquecimento dos oceanos, a perda de biodiversidade, a intensificação de eventos extremos e a pressão crescente sobre recursos naturais passaram a ocupar o centro das discussões globais.
Nesse cenário, pesquisadores como Guy McPherson ajudam a ampliar o debate sobre os limites ecológicos do planeta e os desafios que a humanidade enfrentará nas próximas décadas.
Mais do que discutir previsões específicas, suas pesquisas chamam atenção para uma pergunta que ganha relevância a cada ano: estamos preparados para viver em um mundo cada vez mais quente, instável e ambientalmente pressionado?
Quer entender por que o Super El Niño preocupa pesquisadores como Guy McPherson?
O aquecimento recorde dos oceanos, os loops de retroalimentação climática, o mascaramento por aerossóis e os riscos para a produção global de alimentos estão no centro de um debate que vem mobilizando cientistas em diferentes partes do mundo.
No dia 9 de junho, às 20h, o Instituto Conhecimento Liberta promove a aula online e gratuita “Super El Niño e a Catástrofe Climática”, com participação do professor Guy McPherson e mediação de Eduardo Moreira.
Durante o encontro, serão discutidos os impactos do Super El Niño, os mecanismos que podem acelerar as mudanças climáticas e os desafios que um planeta cada vez mais quente impõe à economia, aos ecossistemas e à vida humana.
