Por Cleber Lourenço
O idoso Mauro Figueiredo Rocha Dias da Costa, de 69 anos, afirma ter sido agredido por três pessoas na noite de 11 de junho, em Copacabana, na Zona Sul do Rio de Janeiro, após ser identificado como apoiador do PT. Segundo ele, os agressores gritavam “Bolsonaro”, faziam ameaças de morte e o chamavam de “petista” enquanto desferiam socos e chutes.
Mauro voltava para casa depois de assistir a uma peça de teatro quando, segundo seu relato, percebeu que estava sendo seguido por um homem. Naquele momento, carregava uma mochila com adesivo da deputada federal Benedita da Silva (PT-RJ). Ao se aproximar do prédio onde mora, duas mulheres teriam se juntado ao homem e iniciado a agressão.
“Eles falavam: ‘Bolsonaro, Bolsonaro. Vai morrer, seu petista safado. Você já prejudicou muita gente’”, afirmou Mauro à reportagem.
O caso foi registrado inicialmente como lesão corporal, mas o relato do idoso abriu novas frentes de apuração. Além da agressão em si, Mauro afirma que o porteiro do prédio onde mora não abriu o portão enquanto ele era espancado e diz que só conseguiu realizar o exame de corpo de delito após recorrer à Corregedoria da Polícia Civil do Rio de Janeiro.
Segundo Mauro, o atendimento foi negado duas vezes no Instituto Médico-Legal (IML), mesmo depois de a delegacia responsável pelo caso emitir a guia para a perícia. O exame só teria sido realizado na terceira ida ao instituto, após intervenção da Corregedoria.
“Eu fui no IML por três vezes”, disse Mauro.
A agressão, segundo o idoso, começou de forma súbita. Ele afirma que, ao chegar perto do prédio vizinho ao seu, foi abordado pelas duas mulheres e pelo homem que o seguia desde a rua.
“Quando eu cheguei no prédio ao lado do meu, vieram duas mulheres muito fortes, aparentando ser lutadoras, e começaram a me agredir. E ele se juntou a elas, me agredindo também”, relatou.
Mauro diz que uma das mulheres o imobilizou com um golpe conhecido como “mata-leão”, enquanto os demais continuavam a agressão com socos e chutes. Ele afirma ter sido jogado contra o portão do edifício e diz ter ficado com dores no corpo, no rosto, na cabeça, nas costas e nos dentes.
“Eu fiquei sem ar. E continuei apanhando com chutes, socos. Fui jogado contra o portão. Eles iam me matar”, afirmou.
O idoso sustenta que o ataque teve características de emboscada. A afirmação é dele e ainda depende da apuração policial.
“Eu acredito que eles estavam juntos. Eu sofri uma emboscada. Eles estavam de tocaia esperando eu chegar em casa. Sabiam onde eu morava”, disse.
Um dos pontos mais sensíveis do relato envolve a conduta do porteiro do edifício. Mauro afirma que o funcionário estava em pé, próximo ao portão, viu a agressão e não abriu a entrada do prédio, apesar dos pedidos de socorro.
“O porteiro não abriu o portão. Se o porteiro abrisse o portão, diminuiria demais as agressões. Mas ele ficou parado, assistindo a tudo passivamente, sem abrir o portão para eu entrar e eu pedindo socorro”, declarou.
Segundo Mauro, o ataque só terminou após a intervenção de um homem que passava pelo local.
“Graças a Deus surgiu um homem alto, forte, que ficou entre mim e eles e falou: ‘Para, para, vocês vão matar o velho’. E aí eles foram embora, rindo”, contou.
Depois da agressão, Mauro diz que finalmente conseguiu entrar no prédio. Ele afirma que sentou em um banco na entrada do edifício e, em seguida, foi à delegacia para registrar a ocorrência. No local, segundo seu relato, foi orientado a procurar atendimento médico antes de formalizar o registro.
O idoso afirma que foi a um hospital particular em Botafogo, onde passou por atendimento, recebeu medicação e fez exames, incluindo tomografia. Depois, retornou à delegacia, registrou a ocorrência e recebeu a requisição para realizar exame de corpo de delito no IML.
Foi neste ponto que, segundo Mauro, começou uma nova sequência de dificuldades.
Ele afirma que chegou ao IML por volta de 4h da manhã. No local, diz ter abordado uma pessoa que aparentava ser o perito de plantão. Mauro afirma que mostrou estar ferido e informou que havia sido encaminhado pela delegacia para fazer o exame.
“Eu falei: ‘Doutor, o senhor pode me atender? Estou todo machucado. Fui encaminhado pela delegacia para fazer o corpo de delito’. Ele virou para mim, de forma fria, curto e grosso, e falou: ‘Não vou te atender’”, relatou.
Mauro diz que voltou para casa sem conseguir fazer a perícia. Horas depois, retornou ao IML. Desta vez, afirma que o atendimento foi negado porque ele não estava com o documento original de identidade, mas com uma cópia autenticada em cartório.
“Haviam duas moças com uniforme da Polícia Civil no balcão de atendimento do IML. Entreguei para elas a requisição. Elas pediram a identidade. Eu entreguei uma cópia da identidade registrada em cartório, com autenticação em cartório, e elas disseram que não podia, que eu teria que ter o documento original”, contou.
Após a segunda negativa, Mauro procurou a Corregedoria da Polícia Civil.
“Falei: ‘Chega. Duas negativas de atendimento já está demais’. Aí fui para a Corregedoria da Polícia Civil”, disse.
Segundo o idoso, o servidor que o atendeu na Corregedoria considerou a situação inadequada e providenciou um novo encaminhamento para o IML.

“A pessoa que me atendeu na Corregedoria falou: ‘Isso é um absurdo. Eles tinham que te atender mesmo se fosse uma xerox sem autenticação’. Aí fez um encaminhamento para que eu fosse atendido no IML”, afirmou.
Mauro relata que só conseguiu fazer o exame de corpo de delito na terceira ida ao instituto, depois da intervenção da Corregedoria.
“Finalmente, com esse encaminhamento da Corregedoria, eu fui atendido por uma médica perita, que verificou tudo e disse que colocou tudo no computador e que já estava encaminhado para a delegacia”, afirmou.
O relato de Mauro levanta questionamentos sobre o atendimento prestado pelo IML a vítimas encaminhadas para exame de corpo de delito. A perícia é uma etapa central em investigações de agressão física, pois registra oficialmente as lesões e pode servir como prova no inquérito.
A versão do idoso também coloca sob apuração a atuação do condomínio. Mauro afirma temer que imagens das câmeras de segurança sejam apagadas e defende que o material seja preservado. Segundo ele, as gravações podem mostrar tanto a dinâmica do ataque quanto a conduta do porteiro durante a agressão.
“As imagens com certeza foram feitas, inclusive do porteiro ali em pé, assistindo a tudo passivamente, e eu sendo espancado do lado de fora”, disse.
Apesar de o caso ter sido registrado inicialmente como lesão corporal, Mauro afirma que a violência sofrida foi mais grave.
“Ninguém bate numa pessoa de 69 anos com vários socos na cabeça, três pessoas, pensando em lesão corporal. Para mim, foi uma tentativa de homicídio”, declarou.
O caso foi registrado na 14ª DP (Leblon) e transferido para a 12ª DP (Copacabana), que dá prosseguimento às investigações. A vítima foi encaminhada ao Instituto Médico-Legal (IML) para exame de corpo de delito. Diligências estão em andamento para esclarecer os fatos.