Por Cleber Lourenço
A União dos Profissionais de Inteligência de Estado da Abin (Intelis) divulgou nesta quarta-feira (17) uma nota pública cobrando uma definição para as investigações relacionadas ao caso conhecido como “Abin Paralela” e questionando a permanência de dirigentes indiciados em cargos de comando na Agência Brasileira de Inteligência (Abin).
O posicionamento foi divulgado exatamente um ano após os indiciamentos realizados pela Polícia Federal. Segundo a entidade, 36 pessoas ainda aguardam o desfecho do processo, algumas delas submetidas a medidas cautelares que incluem afastamento de funções, recolhimento noturno e restrições de locomoção.
Na avaliação da Intelis, a demora na conclusão do caso tem produzido efeitos que vão além da situação individual dos investigados e passou a afetar o funcionamento da própria agência.
“A Agência Brasileira de Inteligência permanece há quase 3 anos em um ambiente de incerteza institucional que compromete seu funcionamento e sua capacidade de planejamento”, afirma a nota.

A entidade também argumenta que a Abin continua arcando com o pagamento integral dos salários de servidores afastados, sem poder contar com sua força de trabalho, em um contexto de déficit de pessoal.
O trecho mais contundente do documento, entretanto, trata da permanência de integrantes da atual estrutura de comando da agência que foram alcançados pelas investigações.
“Gestores indiciados por obstrução de justiça seguem exercendo funções de comando e mantendo acesso a informações sensíveis de Estado, inclusive com potencial influência sobre servidores e dirigentes que atuaram como testemunhas nos procedimentos investigativos”, diz a Intelis.
Embora a entidade não cite nominalmente os servidores aos quais se refere, a manifestação eleva a pressão sobre a direção da Abin ao levantar questionamentos sobre a permanência de investigados em posições estratégicas da estrutura de inteligência do Estado brasileiro.
A nota foi divulgada em meio ao impasse que ainda cerca os desdobramentos do inquérito que apura o suposto uso da Abin para monitoramento irregular de autoridades, adversários políticos e outras pessoas durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Ao longo do último ano, o caso avançou com os indiciamentos promovidos pela Polícia Federal, mas ainda aguarda definições sobre seus próximos passos no âmbito judicial.
Sem entrar no mérito das acusações, a Intelis afirma reconhecer que não existe julgamento definitivo sobre os fatos, mas sustenta que a duração do processo já produz impactos relevantes para os investigados, para a agência e para a administração pública.
“Diante desse cenário, a Intelis reafirma sua confiança nas instituições e na Justiça brasileira, mas entende que os acusados, a Abin e o próprio país merecem uma solução célere, definitiva e transparente para a questão, qualquer que seja seu desfecho”, afirma a entidade.
A manifestação também ocorre em um momento em que setores da inteligência defendem mudanças estruturais na atividade e cobram maior estabilidade institucional para a Abin após anos de sucessivas crises envolvendo disputas internas, investigações e questionamentos sobre a atuação do órgão.
Procurada, a ABIN afirmou que não se manifesta sobre processo em curso.