‘Preciso de um avião para as kengas’

"Quando o assunto é corrupção, tráfico de influência ou crimes financeiros, essas mulheres aparecem nos autos, nos vídeos e nas reportagens, mas raramente aparecem como sujeitos de direitos"
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Daniel Vorcaro descobriu, como poucos no Brasil, uma fórmula eficiente para cultivar relacionamentos com políticos e empresários influentes.

A receita parecia simples: viagens internacionais, seminários e fóruns de negócios durante o dia, jantares sofisticados à noite e festas privadas que avançavam madrugada adentro em hotéis de luxo. Tudo organizado nos mínimos detalhes, principalmente a presença discreta e privativa de mulheres.

Nesta semana, o Supremo Tribunal Federal tornou públicas mensagens obtidas pela Polícia Federal na investigação do Banco Master. Entre elas, uma frase chamou atenção: “Preciso de um avião para as kengas.”

A mensagem, enviada por Vorcaro a um assessor em abril de 2024, fazia referência à organização de uma viagem para Nova York. Em outra conversa, um funcionário relata preocupações com a distribuição das mulheres pelos quartos do hotel e menciona ter pensado na “privacidade” de quem pretendesse “curtir com a florzinha a festa”.

Os diálogos ajudam a compreender a dimensão da estrutura montada para atender convidados influentes. Mas existe uma questão que, até aqui, parece receber muito menos atenção nas investigações do que deveria.

Quem eram essas mulheres?
Em que condições foram recrutadas?
Que tipo de acordo existia entre elas e os organizadores?
Elas compreendiam exatamente o contexto em que estavam sendo inseridas?
Falavam português?
Conheciam os riscos envolvidos?
Tiveram sua privacidade respeitada?
Deram consentimento para eventuais gravações?
Autorizaram o compartilhamento de imagens?

A filósofa Djamila Ribeiro vem insistindo nesse ponto em sua coluna na Folha de S.Paulo. E sua provocação é pertinente.

Quando o assunto é corrupção, tráfico de influência ou crimes financeiros, essas mulheres aparecem nos autos, nos vídeos e nas reportagens. Mas raramente aparecem como sujeitos de direitos. A impressão é que elas só despertam interesse quando podem ajudar a comprovar irregularidades cometidas por homens poderosos. Se servem como peça de acusação, entram na narrativa.Se a discussão é sobre seus direitos, desaparecem dela.

Essa lógica é reveladora porque mostra como determinadas mulheres continuam sendo tratadas não como pessoas, mas como parte da decoração de ambientes frequentados por homens das elites econômicas e políticas. São vistas como acessório, entretenimento, como detalhe logístico. E isso é especialmente grave porque estamos falando de um contexto que envolve assimetria de poder, dinheiro, influência internacional e possível vulnerabilidade social.

Não é preciso afirmar que houve crime para reconhecer que existem perguntas legítimas que precisam ser respondidas.

Aliás, é exatamente para isso que servem as investigações.

A própria legislação brasileira reconhece a gravidade dessas situações. A Lei 13.772 de 2018 criminaliza o registro ou a divulgação de cenas íntimas sem consentimento. Além disso, a legislação brasileira e tratados internacionais dos quais o país é signatário estabelecem mecanismos de proteção contra exploração sexual, tráfico de pessoas e outras formas de violência. Por isso, chama atenção que a curiosidade pública esteja tão concentrada nos bastidores das festas e tão pouco interessada nas condições em que essas mulheres participaram delas.

Talvez porque seja mais confortável discutir o escândalo do que as consequências humanas, e porque seja mais fácil transformar mulheres em personagens exóticas de uma história de luxo, poder e excessos do que reconhecê-las como possíveis vítimas de violações. A experiência mostra que grandes escândalos envolvendo homens poderosos frequentemente produzem esse efeito. Os nomes dos empresários e dos políticos ocupam as manchetes, as cifras ganham destaque, as disputas de poder dominam o debate.

E as mulheres ficam pelo caminho.

Foi assim em inúmeros casos internacionais que, anos depois, revelaram histórias de abuso, exploração e silenciamento que ninguém quis enxergar quando tudo estava acontecendo diante dos olhos de todos. A história recente mostra como esse tipo de cegueira coletiva pode custar caro.

Durante anos, Jeffrey Epstein circulou entre empresários bilionários, políticos, celebridades e membros da elite mundial. Seu poder de influência era tão grande que, por muito tempo, a atenção pública se concentrou mais em seus contatos famosos do que nas jovens que orbitavam aquele sistema. E as perguntas erradas dominaram o debate.

Quem frequentava as festas?
Quem estava nos aviões?
Quem aparecia nas fotografias?
Quem era amigo de quem?

Enquanto isso, as perguntas realmente importantes demoraram anos para ganhar espaço.

Quem eram aquelas meninas?
Como foram recrutadas?
Que tipo de vulnerabilidade enfrentavam?
Quem lucrava com sua exploração?
Quem falhou em protegê-las?

O resultado dessa inversão de prioridades é conhecido. Durante muito tempo, as vítimas foram tratadas como personagens secundárias de uma história cujo protagonismo era reservado aos homens ricos e poderosos. Só depois o mundo percebeu que elas eram, na verdade, o centro da história. É por isso que a reflexão levantada por Djamila Ribeiro merece atenção no caso Banco Master. Não porque os casos sejam exatamente iguais, não porque as investigações apontem necessariamente para os mesmos crimes. Mas porque existe um padrão que se repete.

A corrupção precisa ser investigada. Os crimes financeiros precisam ser esclarecidos. Mas uma sociedade madura não pode aceitar que mulheres sejam lembradas apenas quando servem para ilustrar o escândalo de algum homem poderoso.

Se existe algo que o caso Banco Master também nos ensina, é que uma sociedade madura precisa ser capaz de fazer duas perguntas ao mesmo tempo.

Quem se beneficiou do esquema?
E quem pagou o preço por ele?

 

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