Brasil formaliza intenção de vender títulos em yuan como aceno à China e ao Brics

Operação faz parte da estratégia de diversificação de financiamento externo
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Por Victoria Damasceno

(Folhapress) – O Brasil formalizou nesta quinta-feira (25), em Pequim, a intenção de emitir títulos de dívida em yuan chinês no mercado local. O anúncio foi feito por meio de uma carta de intenções entregue pelo ministro da Fazenda, Dario Durigan, ao presidente do Banco Popular da China (equivalente ao Banco Central), Pan Gongsheng.

A operação, vista pelo governo como parte da estratégia de diversificação de financiamento externo, ocorre em meio ao fortalecimento das relações econômicas entre Brasil e China e ao avanço das discussões sobre o uso de moedas locais no âmbito do Brics, que se movimenta rumo à desdolarização.

A venda de títulos de dívida em yuan, chamados “panda bonds”, faz referência ao animal tradicional da cultura chinesa e é utilizada por entidades estrangeiras para a captação de recursos diretamente com interessados do país, que compram o papel e recebem os juros sobre o investimento também em moeda local.

A quantia ainda não está determinada, mas Durigan afirmou em entrevista à agência de notícias Reuters que pode repetir a mesma quantia oferecida de títulos em euro em abril, após mais de uma década fora do mercado europeu.

“Levantamos 5 bilhões de euros na Europa. Ainda não definimos o valor aqui na China para a primeira emissão, mas será de até 5 bilhões (de yuanes)”, comentou o ministro.

Durigan relembrou a operação na Europa, quando o país fez a maior emissão de papéis nacionais em uma rodada na história do país, e que o governo brasileiro captou 5 bilhões de euros (R$ 30 bilhões). Uma bem-sucedida conversa com investidores e boas condições do mercado teriam feito a gestão Lula realizar as vendas.

Na cerimônia de entrega da carta de intenção, o chefe da Fazenda afirmou que o gesto brasileiro é um voto de confiança na China. “Como um sinal de que devemos trabalhar juntos se queremos melhorar a vida de nossas pessoas”, declarou após reunião bilateral no banco central chinês.

Do ponto de vista diplomático, eles também sinalizam a abertura dos mercados emergentes a alternativas ao sistema financeiro global dominado pelo dólar. “Precisamos testar e dar início à trajetória da dívida soberana do Brasil na China”, declarou o ministro.

Cooperação Financeira China-Brasil: Entrega da Carta de Intenções de Emissão de Panda BondsFoto: Divulgação/MF
Cooperação Financeira China-Brasil: Entrega da Carta de Intenções de Emissão de Panda Bonds. (Foto: Divulgação/MF)

Com a apresentação do documento, o Brasil mostra a China que cumpre todos os requisitos para a vendas dos títulos, e agora depende do último aval das autoridades de Pequim para a realização da primeira rodada. O governo brasileiro não informou quanto pretende captar.

“A gente vai aguardar o melhor momento do mercado pra que a gente faça a emissão dentro dos próximos meses”, disse. À Reuters, Durigan estimou o prazo entre dois a três meses.

A Eslovênia fez a maior estreia anterior neste ano, levantando 4 bilhões de yuanes com um título de três anos.

Empresas brasileiras solicitaram ao governo que começasse a emitir dívida denominada em iuanes para ajudá-las a levantar recursos por meio de acordos privados de “panda bonds” e para amenizar a volatilidade cambial no Brasil, afirmou Durigan, que disse ter discutido o plano com a mineradora Vale e a fabricante de equipamentos elétricos WEG.

“A rentabilidade dos projetos (no Brasil) é muito boa, mas a volatilidade das taxas do (real) pode afetar o resultado final, por isso estamos oferecendo um recurso de hedge cambial para esses investimentos”, declarou o ministro.

Visitas na China

Em viagem à China desde quarta-feira (24), o chefe da Fazenda visitou também a Wind Information, uma das principais agências financeiras no país, para articular a publicação de informações sobre o mercado brasileiro, em especial os títulos quando estiverem disponíveis, diretamente ao investidor local.

Segundo o governo brasileiro, a venda dos papéis na moeda chinesa é uma forma de diminuir a dependência do dólar. Para o economista Bruno de Conti, professor de economia internacional da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), o movimento é também político.

O docente afirma que o governo brasileiro quer mostrar a Pequim que os países estão juntos no esforço rumo à desdolarização e que confia no banco central chinês, além de se posicionar de forma geral como um país que procura diversificar as moedas usadas nas transações.

“Foi uma jogada geopolítica para acenar essa parceria bilateral com a China, mas também no interior dos Brics para mostrar uma disposição de caminhar, um esforço de desdolarização”, diz.

Os países fundadores do bloco –Brasil, Rússia, Índia e China– ensaiam a desdolarização há anos. Em 2009, na primeira cúpula na Rússia, foi discutida a proposta de introduzir moedas locais no comércio entre os membros. Na época, Lula chegou a dizer que usar a moeda local entre os países levaria anos.

O movimento buscava reduzir a dependência do dinheiro americano e ficar menos suscetível a crises, como a observada no ano anterior, em 2008. A discussão permaneceu nos bastidores, mas ganhou força nos últimos anos em razão de conflitos e sanções americanas. Aquelas impostas à Rússia em decorrência da invasão da Ucrânia, por exemplo, fortaleceram o discurso de que eram necessárias alternativas ao dólar.

Brasil e China fizeram a sua primeira transação financiada e liquidada em yuan chinês e convertida diretamente para o real em 2023, em uma exportação de celulose da Eldorado Brasil, que tem subsidiária em Xangai. Depois, outras empresas, como a Suzano e a Vale, fizeram operações semelhantes, mas todas permanecem com a maioria das suas transações em dólar.

O movimento de países do Brics pela desdolarização, um esforço que já atinge não apenas o grupo fundador, mas aqueles que entraram depois como Emirados Árabes, fez o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ameaçar os membros do bloco.

Em julho de 2025, o americano afirmou que iria impor mais tarifas de importação aos países que compõem o Brics, uma vez que estariam tentando “destruir o dólar”.

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