PF aponta contradições em versão de Sóstenes sobre R$ 468 mil em dinheiro vivo

A informação foi dada com antecedência pelo ICL Notícias ainda em março
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Por Cleber Lourenço

A Polícia Federal apontou ao Supremo Tribunal Federal inconsistências na versão apresentada pelo líder do PL na Câmara, deputado Sóstenes Cavalcante (RJ), para justificar os R$ 468,7 mil encontrados em espécie durante uma operação autorizada pelo STF. Segundo documentos da investigação, a justificativa apresentada pelo parlamentar somente passou a ser formalizada após a apreensão do dinheiro e não encontrou respaldo nas movimentações bancárias analisadas pelos investigadores.

As conclusões constam da Petição 16.072, relatada pelo ministro Flávio Dino, no âmbito do Inquérito 4937, que apura suspeitas de peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa.

O dinheiro foi encontrado durante buscas realizadas pela Polícia Federal em dezembro de 2025 no quarto 806 do Complexo Brasil 21, em Brasília. Ainda segundo os investigadores, o deputado teria negado ter valores em espécie no momento da operação.

Segundo o relatório:

“a equipe policial localizou e apreendeu a quantia de R$ 468.700,00 (…) em cédulas de R$ 100,00, acondicionadas em saco plástico e guardadas no interior de guarda-roupa, não obstante o investigado houvesse afirmado, em entrevista preliminar, inexistirem valores em espécie no local.”

A apreensão do dinheiro abriu uma nova frente investigativa dentro do inquérito. Após a operação, Sóstenes sustentou que os recursos seriam provenientes da venda de um imóvel localizado em Ituiutaba (MG) ao advogado Thiago Ferreira de Paula.

A própria decisão registra que a investigação envolvendo o suposto comprador surgiu da explicação apresentada pelo parlamentar.

“A apuração relativa a THIAGO DE PAULA não surgiu de notícia autônoma, mas de versão apresentada pelo próprio parlamentar federal para explicar fato revelado no cumprimento da medida cautelar.”

Escritura foi feita após a operação

Um dos principais elementos apontados pela Polícia Federal envolve a cronologia da documentação apresentada para justificar a origem do dinheiro.

Segundo os investigadores, a escritura pública da venda do imóvel foi lavrada em 30 de dezembro de 2025, onze dias após a operação realizada em 19 de dezembro.

A decisão afirma que:

“a escritura pública foi lavrada em 30/12/2025, isto é, após o cumprimento das medidas cautelares de 19/12/2025.”

Para a PF, a formalização posterior da escritura representa um elemento relevante da investigação.

O documento afirma que:

“os interessados somente levaram a registro cartorário, após a apreensão do numerário, uma narrativa documental destinada a conferir lastro formal a uma alegada transação pretérita.”
Outro ponto destacado pela investigação é a ausência de movimentações financeiras compatíveis com a suposta operação imobiliária.

Segundo a PF:

“não foi identificado saque de valores contemporâneos à data da compra, por parte de THIAGO DE PAULA.”

A informação foi dada com antecedência pelo ICL Notícias ainda em março.

Dino fala em “sombra de inverossimilhança”

Ao analisar os elementos reunidos pela Polícia Federal, Flávio Dino afirmou que as informações levantadas pela investigação colocam em dúvida a justificativa apresentada para a posse dos recursos.

Na decisão, o ministro afirma que existem:

“fatos que implicam sombra de inverossimilhança sobre as justificativas apresentadas para a posse de quase meio milhão de reais, em espécie, apreendidos com o Deputado Federal SÓSTENES CAVALCANTE.”
A Procuradoria-Geral da República também concordou com parte das medidas solicitadas pela Polícia Federal.

Segundo a manifestação reproduzida na decisão, o dinheiro encontrado “carece de lastro documental idôneo que justifique sua posse e origem lícita”.

Dinheiro levou a novo núcleo investigado

As etiquetas bancárias encontradas junto ao dinheiro permitiram que a PF identificasse contas ligadas às empresas EJUS Empreendimentos Imobiliários e Foco Engenharia e Incorporações.

A investigação passou a mirar os empresários Jonas Keslley Gonçalves Umbelino e Jecy Kenne Gonçalves Umbelino, apontados em relatórios do Coaf por movimentações em espécie.

Segundo a decisão, apenas as empresas EJUS e Foco realizaram 22 saques que somam R$ 4,7 milhões. Considerando o grupo empresarial mais amplo, os investigadores identificaram 81 saques em espécie que totalizam R$ 15,5 milhões.

Diante dos elementos apresentados pela Polícia Federal, Flávio Dino autorizou novas buscas e apreensões e determinou a quebra dos sigilos bancário e fiscal dos investigados.

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