Bolsonarista assume comissão da Alerj e ameaça atendimento a vítimas da polícia

Comissão acompanhou mais de 2 mil famílias desde 2021; Bolsonarista, novo presidente diz que poderá arquivar casos que considerar "ideológicos"
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Por Gabriel Gomes

“Eu queria muito que eu fosse a última mãe a chorar pela perda de um filho.” A frase de Rosangela Maria Ferraz, dita no enterro do filho Daniel da Costa Ferraz, de 19 anos, resume o drama vivido por famílias de vítimas da violência no Rio de Janeiro.

Daniel morreu na manhã de 23 de maio de 2024, após ser baleado durante uma operação da Polícia Militar na comunidade Parque Esperança, no Complexo do Chapadão, na Zona Norte da capital. Segundo a família, o jovem foi atingido enquanto seguia para a escola.

Os parentes também questionam a forma como ele foi socorrido pelos policiais. Um vídeo mostra Daniel já ferido no chão quando um policial passa, observa a cena e segue em frente. As câmeras corporais dos agentes que participaram da operação não registraram o ocorrido porque, embora fossem de uso obrigatório, haviam sido deixadas no batalhão da PM de Irajá.

“Ele acordou muito feliz. Disse: ‘mãe, tô muito feliz, arrumei um trabalho de carteira assinada’. E eu disse que era estudando que ele ia conseguir ter uma vida melhor”. As declarações de Rosângela foram dadas em entrevista à TV Globo na época.

Daniel da Costa Ferraz, de 19 anos, foi morto no Complexo do Chapadão. — Foto: Reprodução
Daniel da Costa Ferraz, de 19 anos, foi morto no Complexo do Chapadão. (Foto: Reprodução)

O caso de Daniel foi um dos acompanhados pela Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), que prestava assistência a vítimas de violência e seus familiares. Desde 2021, sob a presidência da deputada Dani Monteiro (PSOL), a comissão afirma ter realizado mais de 2 mil atendimentos.

Bolsonarista no comando

Agora, esse trabalho pode ser interrompido. Após mais de duas décadas sob o comando de parlamentares da esquerda fluminense, a comissão passou a ser presidida pelo deputado bolsonarista Alexandre Knoploch (PL). Isso acontece porque, em uma uma manobra da base do ex-governador Cláudio Castro (PL), o presidente da Alerj, Douglas Ruas (PL), retirou parlamentares do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) da presidência de algumas comissões da Casa.

“Os nossos atendimentos priorizavam o acolhimento imediato da vítima, buscando reduzir os danos psicossociais causados pela violência. Fazemos um acompanhamento articulando os órgãos públicos responsáveis pelo atendimento. Cada caso tem um encaminhamento específico, dependendo da estrutura do Estado competente para atuar”, explica a deputada Dani Monteiro, sobre o trabalho da Comissão.

“A Comissão de Direitos Humanos atendia quando todas as outras portas do Estado já haviam se fechado”, resume.

Além do caso de Daniel da Costa Ferraz, a comissão também acompanhou outros episódios de grande repercussão, como a morte do empresário Rhuan Rodrigues Pereira, de 20 anos. Ele morreu em agosto de 2024, em São Gonçalo, após ser baleado por policiais durante uma abordagem.

Outra família atendida foi a de Quetilene Soares Souza, de 37 anos, morta após ser atingida por um disparo durante um confronto entre policiais militares e criminosos na comunidade do Dique, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense.

Segundo Dani Monteiro, a mudança no comando da comissão gera preocupação quanto à continuidade dos atendimentos e ao destino dos processos que reúnem informações sobre casos de violência policial.

Nas redes sociais, Knoploch afirmou que documentos com “cunho tendencioso ou ideológico” serão arquivados.

“O que será feito agora por uma presidência que já vem fazendo declarações ideológicas e utilizando a comissão com interesses claramente eleitorais? O deputado não procurou nenhuma organização da rede de direitos humanos desde que assumiu a presidência. Mas já publicou vídeos, concedeu entrevistas e divulgou conteúdos na imprensa buscando criar uma nova concepção sobre Direitos Humanos. Isso é bastante preocupante”, rebate Dani Monteiro.

Como forma de preservar o trabalho realizado, a deputada encaminhará ao Ministério Público Federal (MPF) o acervo de documentos, registros e informações sensíveis produzidos pela comissão durante sua gestão. Segundo ela, a medida busca preservar denúncias, garantir a continuidade do acompanhamento dos casos e proteger vítimas, testemunhas e defensores de direitos humanos.

Dani Monteiro (PSOL)
Dani Monteiro (PSOL)

Novo presidente foi denunciado por suposta ‘rachadinha’

O novo presidente da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Alerj, Alexandre Knoploch (PL), acumula uma série de declarações polêmicas e já foi alvo de denúncias envolvendo o escândalo do Centro Estadual de Estatísticas, Pesquisas e Formação de Servidores Públicos do Rio de Janeiro (Ceperj).

Em 2022, uma reportagem da TV Globo revelou denúncias de ex-funcionários do programa Esporte Presente, vinculado ao Ceperj, segundo as quais Knoploch comandaria um suposto esquema de “rachadinha”, prática em que servidores devolvem parte dos salários ao político responsável pela indicação. De acordo com os denunciantes, alguns funcionários afirmaram ter devolvido até 90% dos vencimentos.

Alexandre Knoploch (PL)
Alexandre Knoploch (PL)

O caso fazia parte das investigações sobre a chamada “farra do Ceperj”, esquema que levou o Ministério Público do Rio de Janeiro a ajuizar ações civis públicas e motivou apurações do Tribunal de Contas do Estado (TCE-RJ). As investigações também tiveram repercussão sobre a gestão do então governador Cláudio Castro (PL), que teve a chapa cassada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Knoploch também protagonizou episódios de tensão no plenário da Alerj. Em 2019, criticou a forma como deputadas da Casa se vestiam e comparou suas roupas aos figurinos dos programas infantis Chiquititas e Carrossel, do SBT. Embora não tenha citado nomes, parlamentares do PSOL afirmaram que a fala tinha como alvo a deputada Dani Monteiro, que naquele dia usava uma saia quadriculada e meias amarelas.

“É um tema que ninguém tem coragem de falar, mas que quebra o decoro parlamentar. (…) Isto aqui não é Chiquititas, não é Carrossel. Temos que levar isso aqui com seriedade”, declarou Knoploch durante sessão plenária. Na mesma fala, ele também classificou manifestações de rua como “balbúrdias cheias de maconheiros”, o que provocou reação de parlamentares.

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