Vini Jr. e o meu Brasil que é com um S

Vinícius Júnior é a dupla cara do Brasil; a do Brasil ferido e a do Brasil luminoso
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O meu primeiro ídolo foi Cruyff. Foi com ele que comecei a gostar de futebol. Alto, elegante e dominador — quando transportava a bola, não olhava para baixo mas para o longe, como se estivesse sempre a organizar mentalmente o jogo e a considerar a totalidade do campo. A sua corrida parecia sempre estratégica. Depois, tinha com ele uma equipe extraordinária e um novo método em que todos atacavam e todos defendiam. Chamavam ao time laranja mecânica e àquele estilo de jogo futebol total. Tudo ali me parecia belo e singular. A seleção perfeita. Um líder que precisava de uma equipe e uma equipe que se elevava com o seu líder.

Na final do campeonato do mundo fiquei desfeito pela derrota com a Alemanha que considerei uma injustiça. Nunca cheguei a perceber como alguns gostavam daquela seleção germânica, fria, cinzenta e disciplinada, como se isso fossem qualidades do futebol. Quatro anos mais tarde, veio o gesto político que faltava para consagrar a minha dedicação à equipe holandesa – os jogadores recusaram receber a medalha de segundo lugar das mãos do ditador Videla na Argentina. Para nós, jovens europeus, a Holanda era a terra da liberdade e da tolerância. Era outro mundo. Mark Rutte ainda não tinha aparecido na política.

Depois veio o período em que me virei inteiramente para a seleção brasileira, muito em razão de Ronaldo, a que vocês aí decidiram chamar de fenômeno. Era o ídolo de minha casa — o Ronaldinho. Duas coisas nos encantavam: o seu futebol rápido e possante e a história de vida tão brasileira de menino da favela que vira o melhor do mundo. Esse era o meu Brasil, o Brasil com S, que eu amava profundamente.

Fui a Paris ver a final entre a França e o Brasil e no final, triste com o resultado, falei ao telefone com o meu filho que me disse, esperançado, que o jogo não era válido porque o Ronaldinho tinha tido uma dor de barriga. Injustamente nunca repetiram o jogo. Anos depois, a meu pedido, esse tal de Ronaldinho foi o primeiro jogador de futebol a apoiar a campanha de Portugal para organizar o Euro 2004. Vencemos essa campanha. Adoro o Ronaldinho.

A partir dai nunca deixei de apoiar secundariamente a seleção do Brasil. Mesmo quando a vossa extrema-direita quis usurpar os símbolos da seleção transformando-os em instrumento de combate ao inimigo político. Não resultou: a seleção é, como sempre foi, do povo brasileiro — de todo o povo brasileiro. Neste campeonato do mundo, não se pode ainda dizer que tenha uma equipe maravilha, como a de 1970, mas já tem um líder, esse tal de Vini Jr., que é a cara do Brasil ou, talvez melhor dito, a dupla cara do Brasil.

A primeira é a cara do Brasil ferido, o Brasil da favela, da periferia, da desigualdade, do racismo, da pobreza. É de onde vem Vinícius: do Brasil duro, injusto e desapiedado. A segunda cara é a do Brasil luminoso, do brasil criativo, talentoso e alegre. Sobretudo alegre. Aquele sorriso é o sorriso brasileiro. Que beleza.

Acontece também que a responsabilidade da liderança de Vinícius não resulta apenas de ser um extremo veloz, do seu jeito belo de fintar e da graça do seu futebol. Vem das ruas de São Gonçalo e do convívio diário com a miséria e a escassez. A sua história é tal como a do Ronaldinho, profundamente brasileira: um rapaz da periferia atravessa o Atlântico, enfrenta o maior clube do mundo, suporta a desconfiança, aprende uma nova cultura, resiste ao fracasso e acaba por conquistar o topo do futebol internacional.

Mas o que me agradou particularmente foi vê-lo reagir aos insultos racistas em alguns estádios europeus. Poderia ter optado pelo silêncio, pela resignação, como tantos antes dele. Resolveu escolher o caminho mais difícil: não há humilhação sem humilhados —  e ele escolheu não ser humilhado, transformando a humilhação em causa pública.

A sua voz passou a representar não apenas um futebolista ofendido, mas milhões de homens e mulheres que continuam a enfrentar preconceitos invisíveis ou explícitos. Vinícius Júnior não é apenas um líder desportivo: é também um líder cívico. Num país onde milhões de crianças descobrem demasiado cedo os limites sociais impostos pela pobreza, ele descobriu uma bola. E, por vezes, uma bola basta para desafiar o destino. Saravá.

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