PF aponta cooptação de policiais em estrutura ligada a Daniel Vorcaro

Decisão de André Mendonça, do STF, reproduz suspeitas da PF de que grupo ligado ao banqueiro teria cooptado agentes para proteger a organização
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Por Cleber Lourenço

A decisão do ministro André Mendonça que autorizou uma nova fase da Operação Compliance Zero revela uma das suspeitas mais graves já apontadas pela Polícia Federal (PF) no caso envolvendo o Banco Master. Ao analisar os elementos reunidos durante a investigação, o relator afirma que a organização investigada mantinha um núcleo especializado em intimidar adversários, obter dados sigilosos e proteger os interesses do banqueiro Daniel Vorcaro, controlador da instituição financeira.

A análise do material apreendido nas fases anteriores da operação permitiu à Polícia Federal concluir que Vorcaro teria estruturado uma “verdadeira organização criminosa”, composta por diferentes núcleos de atuação. Entre eles, um grupo descrito como “um braço armado do grupo criminoso, especializado em atos de intimidação, coação e obtenção de dados sigilosos”, que atuaria “por meio da cooptação e corrupção de policiais, inclusive federais”.

Mendonça registra que esse núcleo fazia parte da engrenagem criada para blindar as atividades da organização e reduzir os impactos das investigações. Ao reproduzir a representação da Polícia Federal, o ministro afirma que a estrutura possuía características de uma “verdadeira contrainteligência armada”, voltada a antecipar movimentos das autoridades e proteger o grupo criminoso.

A decisão cita como exemplo a operação deflagrada em novembro de 2025. Segundo a Polícia Federal, graças à atuação desse núcleo, Daniel Vorcaro tomou conhecimento antecipado da ofensiva policial, mobilizou sua rede de contatos para minimizar os efeitos da operação e iniciou uma tentativa de deixar o país na véspera do cumprimento de sua prisão preventiva. A fuga foi frustrada quando o banqueiro acabou preso no Aeroporto Internacional de Guarulhos, momentos antes de embarcar em um voo internacional.

Novo patamar da investigação

Embora a decisão tenha como objetivo principal autorizar buscas contra o empresário Thiago Miranda Silva, Mendonça utiliza parte significativa da fundamentação para contextualizar a dimensão da organização investigada.

Segundo o ministro, os elementos reunidos ao longo da investigação revelam uma estrutura complexa, com divisão funcional de tarefas e atuação coordenada entre diferentes núcleos. Na avaliação do relator, trata-se de uma “complexa e sofisticada organização criminosa, com o envolvimento de múltiplos agentes distribuídos em diferentes núcleos de atuação”, circunstância que justifica a adoção de medidas cautelares para preservar provas e impedir interferências na investigação.

Ao fundamentar a decisão, Mendonça também destaca que a representação da Polícia Federal “não se ampara em meras conjecturas”, mas em mensagens extraídas de aparelhos eletrônicos, documentos, metadados, vínculos societários e outros elementos produzidos ao longo da Operação Compliance Zero. Para o ministro, esse conjunto probatório demonstra a plausibilidade das suspeitas e evidencia o risco concreto de destruição ou ocultação de provas caso as diligências não fossem autorizadas.

Investigação continua sob sigilo

A decisão não identifica os policiais que teriam sido cooptados pelo grupo nem detalha quais condutas específicas são atribuídas a eles. Também não informa se esses agentes já foram formalmente indiciados ou se respondem a procedimentos próprios.

A referência aparece como parte da contextualização feita pela Polícia Federal sobre a estrutura da organização investigada e foi reproduzida por André Mendonça ao fundamentar a necessidade das medidas cautelares. O inquérito segue sob sigilo, e as apurações continuam em andamento.

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