Mendonça autoriza busca contra ex-sócio de Léo Dias por atuação no caso Master

Decisão do ministro do STF aponta Thiago Miranda como peça central de uma estrutura que, segundo a Polícia Federal, atuava para proteger Daniel Vorcaro
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Por Cleber Lourenço

A investigação da Operação Compliance Zero ganhou uma nova frente nesta quarta-feira (8). O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou a realização de busca e apreensão contra o empresário Thiago Miranda Silva, ex-sócio do portal Léo Dias, após a Polícia Federal apontá-lo como um dos responsáveis por uma estrutura paralela destinada a proteger os interesses do banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master.

Na decisão, o ministro acolhe integralmente o pedido da Polícia Federal e a manifestação favorável da Procuradoria-Geral da República (PGR). Segundo a representação policial, Thiago integrava um núcleo responsável por “proteger o núcleo dirigente da organização criminosa”, “manipular a opinião pública” e “coagir, intimidar e violar dados sigilosos de jornalistas, concorrentes e pessoas ligadas ao Presidente do Banco Central”.

Segundo a PF, novas evidências revelaram que recursos provenientes do esquema investigado no Banco Master teriam sido utilizados para financiar uma campanha de desinformação na mídia tradicional e nas redes sociais.

A decisão afirma que influenciadores e jornalistas eram procurados para divulgar conteúdos favoráveis ao banco e questionar a atuação de órgãos públicos envolvidos nas investigações e na liquidação da instituição financeira. Quando as propostas eram recusadas, o grupo recorreria à utilização de informações privadas para intimidar os alvos.

Após a análise do material apreendido nas fases anteriores da operação, a Polícia Federal concluiu que Daniel Vorcaro teria estruturado “verdadeira organização criminosa”, formada por diferentes núcleos de atuação. Um deles seria descrito como “um braço armado do grupo criminoso, especializado em atos de intimidação, coação e obtenção de dados sigilosos”, por meio da “cooptação e corrupção de policiais, inclusive federais”.

A decisão afirma ainda que esse grupo possuía características de “verdadeira contrainteligência armada”, estrutura que teria permitido ao banqueiro tomar conhecimento antecipado da operação policial deflagrada em novembro de 2025 e tentar deixar o país antes do cumprimento de sua prisão preventiva.

Brasília (DF) 07/06/2023 - O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), André Mendonça durante julgamento do marco temporal de terras indígenas. O caso põe em lados opostos ruralistas e povos originários, e está parado na Corte desde 2021.O tema tem relevância porque será com este processo que os ministros vão definir se a tese do marco temporal tem validade ou não. O que for decidido valerá para todos os casos de demarcação de terras indígenas que estejam sendo discutidos na Justiça. Foto: José Cruz/Agência Brasil
Brasília (DF) 07/06/2023 – O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), André Mendonça – Foto: José Cruz/Agência Brasil

“Projeto DV”

Ao detalhar a atuação de Thiago Miranda, o ministro afirma que os elementos reunidos pela investigação o colocam no centro do chamado “Projeto DV”, iniciativa criada para gerir a crise de imagem de Daniel Vorcaro após o avanço das investigações.

Thiago confirmou em depoimento que procurou Vorcaro para apresentar um “plano de reestruturação de imagem e gerenciamento de crise”, admitindo que o projeto previa a produção de “matérias a serem veiculadas em mídia sobre a prisão, sobre toda a investigação relacionada ao Master”.

Para a Polícia Federal, porém, o projeto extrapolava uma estratégia de comunicação.

A investigação aponta que Thiago Miranda era o “principal articulador” da iniciativa, responsável por contratar influenciadores, estruturar campanhas nas redes sociais e efetuar pagamentos utilizando recursos que, segundo a PF, eram provenientes da empresa Super Empreendimentos e Participações, ligada a Daniel Vorcaro.

Devassa contra jornalistas

Um dos capítulos mais contundentes da decisão trata da atuação do grupo contra jornalistas.

Após comparar reportagens publicadas pelo portal Fatos Online com o material apreendido durante a investigação, a Polícia Federal concluiu que Thiago Miranda participava diretamente da elaboração de estratégias voltadas ao monitoramento da jornalista Malu Gaspar, colunista de O Globo.

A análise dos aparelhos apreendidos mostrou que Thiago e Daniel Vorcaro discutiam “constante levantamento de informações de natureza pessoal, profissional e patrimonial da jornalista, aparentemente com a finalidade de encontrar elementos potencialmente desabonadores ou sensíveis”.

A decisão reproduz ainda a conclusão da Polícia Federal de que o objetivo era “reunir material informativo capaz de constranger, descredibilizar ou expor a jornalista publicamente”.

Entre as informações obtidas, segundo a investigação, estavam estimativas de renda, movimentações financeiras, operações com cartão de crédito, dados patrimoniais, estrutura familiar e informações cadastrais da jornalista. Para a Polícia Federal, parte dessas consultas teria sido realizada por meio da plataforma NEXTBUSCAS.PRO, apontada na decisão como serviço associado ao comércio irregular de dados sigilosos.

“Contornos de máfia”

Ao analisar os fatos, Mendonça destaca que a investigação não se limita ao caso envolvendo Malu Gaspar.

A decisão afirma que o mesmo método teria sido empregado contra outras pessoas consideradas obstáculos aos interesses de Daniel Vorcaro e registra que a Polícia Federal identificou “aspecto que realça o grau de periculosidade da organização, conferindo-lhe contornos de máfia”.

Entre os alvos aparece o presidente do Itaú Unibanco, Milton Maluhy Filho.

Segundo a decisão, Vorcaro enviou mensagens afirmando: “Estou precisando fazer um levantamento do Milton”; “Está me causando muito problema”; “Me ajuda nisso?”. A resposta de Thiago foi direta: “Deixa comigo”. Dias depois, ele informou ao banqueiro: “Estou com tudo pronto do Milton. Mas quero fazer da mesma forma. Soltar por outro veículo.”

Pressão sobre a imprensa

A decisão também descreve tentativas de retirar reportagens consideradas prejudiciais aos interesses de Daniel Vorcaro.

Segundo o documento, Thiago Miranda procurou a jornalista Consuelo Dieguez, da revista Piauí, e Renato Breia, sócio da Nord Investimentos. Enquanto Consuelo recusou retirar o conteúdo e orientou que eventuais contestações fossem encaminhadas formalmente à revista, Renato aceitou remover a publicação.

Ao informar o resultado a Vorcaro, Thiago escreveu apenas: “Mais um arquivado!”.

Ao justificar a medida, André Mendonça afirma que a investigação não se apoia em conjecturas.

Segundo o ministro, “a narrativa policial não se ampara em meras conjecturas, mas em conjunto articulado de mensagens extraídas de aparelhos eletrônicos, metadados documentais, vínculos societários e outros elementos colhidos”, capazes de demonstrar a plausibilidade das suspeitas.

O ministro afirma que a investigação revela a atuação de “complexa e sofisticada organização criminosa, com o envolvimento de múltiplos agentes distribuídos em diferentes núcleos de atuação”, razão pela qual considerou proporcionais as medidas de busca e apreensão requeridas pela Polícia Federal e endossadas pela PGR.

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