Por Cleber Lourenço
A queda brusca das temperaturas levou o governo de São Paulo a montar uma operação emergencial para acolher pessoas em situação de rua. A medida busca reduzir os riscos provocados pelo frio intenso, mas também recoloca em evidência uma promessa feita por Tarcísio de Freitas durante a campanha de 2022 que, quase quatro anos depois, segue distante da realidade.
Na disputa pelo Palácio dos Bandeirantes, Tarcísio afirmou que pretendia terminar o mandato sem pessoas vivendo nas ruas do estado. Na ocasião, disse que iria “zerar essa questão” por meio de políticas de habitação e parcerias com a iniciativa privada.
Os números oficiais produzidos pelo próprio governo paulista, porém, mostram um movimento na direção oposta.
Dados da Fundação Seade, utilizados no Plano Plurianual (PPA) do Estado de São Paulo, indicam que havia 80.551 famílias em situação de rua inscritas no Cadastro Único em 2022, último ano antes do início da atual gestão.
Em 2023, primeiro ano do governo Tarcísio, esse total passou para 103.083 famílias. Em 2024, chegou a 135.257. Já em 2025, o cadastro alcançou 146.373 famílias.
Na comparação entre o ano da promessa eleitoral e o dado mais recente disponível, o crescimento foi de 81,7%.
Mesmo considerando apenas o período da atual administração, entre 2023 e 2025, o aumento foi de aproximadamente 42%, segundo os dados oficiais.
Os números divulgados pela Seade referem-se às famílias em situação de rua cadastradas no Cadastro Único, principal base utilizada para identificar a população em vulnerabilidade social e acessar programas sociais. O indicador não representa necessariamente o total absoluto de pessoas vivendo nas ruas, mas é o parâmetro adotado pelo próprio governo estadual para acompanhar a evolução desse público.
A divulgação dos dados ocorre justamente quando o governo estadual reforça ações emergenciais diante da nova onda de frio.
Desde segunda-feira, o Estado colocou em funcionamento uma estrutura temporária de acolhimento na Estação Pedro II, da CPTM, oferecendo colchões, cobertores, alimentação, atendimento social e espaço para animais de estimação. A iniciativa integra a Operação Abrigo Solidário, montada para reduzir os riscos provocados pelas baixas temperaturas.
A ação busca responder a uma situação emergencial provocada pelo clima, mas evidencia um desafio que permanece sem solução estrutural. Quase quatro anos após a promessa de campanha de erradicar a população em situação de rua, os indicadores oficiais do próprio governo mostram que o número de famílias cadastradas nessa condição atingiu o maior patamar da série recente.
A reportagem procurou o Governo de São Paulo para comentar o crescimento do número de famílias em situação de rua registradas no Cadastro Único e questionou:
Como o governo avalia esse aumento?
Quais ações estruturantes estão sendo adotadas para reduzir a população em situação de rua?
O crescimento se deve ao aumento da população nessa condição ou à ampliação do cadastramento?
Até a publicação desta reportagem, não houve resposta. O espaço segue aberto para manifestação.