O governador de Buenos Aires, Axel Kicillof, criticou, em publicação nas redes sociais, neste domingo (26), o discurso que o presidente argentino, Javier Milei, fez durante a convenção do PL em São Paulo neste fim de semana. Kicillof chamou de “vergonha alheia” as falas de Milei.
Na convenção, Milei criticou decisões do STF envolvendo o ex-presidente Jair Bolsonaro, afirmou que há ministros que se comportam como “ditadores” e classificou como injusta a decisão do ministro Alexandre de Moraes, que o impediu de visitar Bolsonaro. Ao lado do senador e candidato à presidência Flávio Bolsonaro, o presidente argentino chamou Lula de “presidiário” e Moraes de “lixo careca”.
Milei disse ainda que Lula “voltou ao poder radicalizado” e que representa um “risco”. As falas fizeram o Itamaraty convocar o embaixador do Brasil em Buenos Aires, em ato de protesto.
“Assistimos com constrangimento ao presidente Milei ofender e insultar o governo brasileiro, seu presidente e toda uma nação. Da província de Buenos Aires, reafirmamos que a Argentina respeita as nações irmãs e está comprometida com a integração regional”, escreveu Kicillof em suas redes sociais.
O governador disse ainda que ligou para o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Mauro Vieira. Kicillof afirmou ter transmitido ao chanceler brasileiro que “Milei não representa o sentimento do povo argentino”.
“O Brasil é o nosso principal parceiro comercial. Com essas provocações, Milei coloca em risco investimentos, exportações, milhares de empregos e os interesses da Argentina — tudo isso para apoiar um candidato a mando de Trump. A relação com o Brasil exige responsabilidade, não provocação”, escreveu.

Tensão diplomática
O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, deve se reunir nesta segunda-feira (27) com o embaixador do Brasil na Argentina, Julio Bitelli, para discutir os desdobramentos diplomáticos após o discurso do presidente argentino, Javier Milei, na convenção nacional do PL.
Bitelli foi convocado pelo governo brasileiro para consultas em Brasília, uma medida adotada após a participação de Milei no evento. O diplomata desembarca na capital federal na manhã desta segunda.
Em paralelo, o Itamaraty também chamou o embaixador da Argentina no Brasil, Daniel Raimondi, para manifestar a insatisfação do governo brasileiro e solicitar esclarecimentos sobre a atuação do presidente argentino durante sua visita ao país.
Na diplomacia, a convocação de um embaixador que está em missão no exterior para consultas é considerada um gesto de forte peso político. A iniciativa sinaliza que o governo considera a conduta do outro país grave e busca avaliar seus impactos antes de definir os próximos passos nas relações bilaterais.
Em nota oficial, o Ministério das Relações Exteriores classificou o episódio como “sem precedentes” e “lamentável”. “Não há precedentes de um presidente estrangeiro que, em território nacional, enfeixe agressões e ofensas ao Chefe de Estado, às instituições democráticas, inclusive ao Poder Judiciário, e ao povo brasileiro. É especialmente lamentável que esse episódio infamante envolva o presidente de um país com que o Brasil mantém 203 anos de amizade e cooperação e que tem, no Brasil, o seu principal sócio comercial”, afirmou o Itamaraty.
Ex-ministro do TSE vê indícios de crime eleitoral
O advogado e ex-ministro do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) Henrique Neves afirmou, em entrevista ao ICL Notícias – 1ª Edição, nesta segunda-feira (27), que há elementos para que a Procuradoria-Geral da República (PGR) investigue possíveis crimes eleitorais relacionados à convenção do Partido Liberal (PL), realizada no último sábado (25), que oficializou o senador Flávio Bolsonaro (RJ) como candidato à Presidência da República.
A manifestação ocorre após deputados federais do Partido dos Trabalhadores (PT) acionarem a PGR para apurar a participação do presidente da Argentina, Javier Milei, no evento, além da exibição de um vídeo produzido com inteligência artificial (IA) que simulou o ex-presidente Jair Bolsonaro declarando apoio à candidatura de Flávio.

Segundo Henrique Neves, a legislação menciona expressamente a participação de estrangeiros em atividades partidárias. “Mesmo que seja considerada uma convenção, a mais perfeita do mundo, tudo fechado, o que a lei fala é atividade partidária em recintos fechados ou abertos”.
“Me parece que há uma boa margem para o procurador-geral da República examinar a prática de crimes porque você tem duas situações: a participação de um estrangeiro, o Milei, e pode se discutir se o vídeo do Benjamin Netanyahu também seria uma forma de participação estrangeira, além das questões que são colocadas diariamente de Estados Unidos interferindo nas eleições brasileiras. Isso vai além de crime, é sobre a Constituição, que proíbe qualquer partido político de receber auxílio de governo estrangeiro”, completou.