As instituições estão funcionando. Coube a uma das entidades consagradas no imaginário nacional popular, a Cacique Cobra Coral, exigir um pedido de desculpas do presidente da Argentina, Javier Milei, ao Brasil — coisa que nem o Itamaraty ousou solicitar formalmente.
Diante dos ataques do excêntrico político extremista ao governo Lula e ao STF, na convenção de Flávio Bolsonaro em São Paulo, a entidade deu a seguinte resposta:
“Fundação Cacique Cobra Coral suspende assistência climática para a Argentina, que vem desde a Guerra das Malvinas e o governo Alfonsín. Se o Brasil está longe de romper relações com a Argentina, do lado da fundação ocorreu um ataque político ao nosso país e, enquanto não houver um pedido formal de desculpas, na área climática, a Argentina estará por sua conta e risco, em pleno início da atuação do fenômeno El Nino”.
De origem e perfil místico, a Cobra Coral tem abraçado a preocupação dos cientistas com a crise ambiental. Nunca rezou na cartilha do negacionismo.
Contratada por governos da esquerda à extrema-direita, a entidade espiritual dá nó em pingo d´água e se diz capaz de virar o tempo. Falhou em raríssimas vezes, atrapalhada por questões sobrenaturais, como em um show da cantora Katy Perry no Rock in Rio. Contamos o caso logo adiante.
Faça chuva ou faça sol, poucas instituições brasileiras possuem uma fama de tanta eficiência. Milei que se cuide.
De natureza assumidamente esotérica e meteorológica, a entidade já livrou até o Sumo Pontífice de uma tempestade. Era maio do ano da graça de 2009. As previsões meteorológicas para a chegada de Bento XVI anunciavam um temporal, com possibilidade de estado de emergência na cidade de São Paulo.
Aos primeiros pingos da chuva, o secretário adjunto das Subprefeituras, Ronaldo Camargo, recorreu à médium paranaense Adelaide Scritori, que por sua vez incorporou o célebre cacique. Em instantes, o toró virou uma garoa e, horas depois, o papa rezou à vontade para os fiéis católicos. Divina providência.
“Manejamos o vento para que ele levasse a chuva embora e trouxesse o frio”, confessou Adelaide à reportagem da revista “Veja SP”. Ela comanda a entidade, herança do pai, Ângelo, morto em 2002, aos 104 anos. Na sua página oficial, a família é objetiva: “A Fundação Cacique Cobra Coral foi criada (em 1931) para intervir nos desequilíbrios provocados pelo homem na natureza”.
O cacique, segundo ensinamento de Ângela, teria sido espírito do astrônomo italiano Galileu Galilei (1564-1642) e do presidente americano Abraham Lincoln (1809-1865).
Nem todos, porém, têm a mesmo grau de proteção do papa diante dos temporais anunciados. Com a Katy Perry, o cacique não conseguiu deter a tempo os raios e trovoadas, atrapalhando o show da cantora americana no festival Rock in Rio de 2015.
A médium não chegou a tempo no local, por causa do engarrafamento no trânsito carioca. O organizador do evento, Roberto Medina, relata, porém, bons serviços prestados pelo espírito, responsável por afastar as tempestades tropicais desde a primeira temporada, em 2001. Para a cúpula do Rock in Rio, o acordo com a entidade é algo sagrado.
Sem coloração ideológica ou partidária, a fundação, com sede em Guarulhos (SP), tem no currículo serviços prestados a administrações da centro-esquerda do governo Lula à extrema-direita do presidente Jair Bolsonaro.
O PDT de Leonel Brizola e o PSDB do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso também constam da cartela de clientes. Difícil encontrar uma legenda ou corrente política no Brasil que não esteja sob o ecumênico guarda-chuvas dos representantes do cacique.
Em alguns raros momentos, a entidade foi questionada sobre as suas boas intenções climáticas. Em 2005, na gestão do tucano José Serra na prefeitura de SP, políticos de oposição cobraram explicações sobre um convênio firmado, com registro no Diário Oficial do Município, para a redução no nível das enchentes na capital paulistana.
Coube ao então secretário das subprefeituras, Andrea Matarazzo, a defesa: “O convênio é inodoro, sem valor financeiro”. O episódio foi encerrado sem maiores complicações políticas.
Os diretores da fundação refutam qualquer proveito nos acordos com os órgãos públicos, a quem pedem apenas que colaborem com obras e serviços para ajudar a resolver os problemas advindos de questões ambientais.
“Minha missão é minimizar catástrofes que podem ocorrer em razão dos desequilíbrios provocados pelo homem na natureza”. É assim que a médium e corretora de imóveis Adelaide Scritori tem explicado o trabalho do Cacique Cobra Coral. Ele cuida da fundação com o marido Osmar Santos.
A relação familiar com o além, narra Adelaide, começou com o pai, Ângelo, nos anos 1930, no norte do Paraná. Ele recebia o espírito do Padre Cícero (1844-1934), considerado santo popular no Nordeste. Foi o “padim Ciço” que avisou sobre os dons espirituais da filha. O Cacique chegou na sua vida ainda na infância.