A Uefa e as 55 federações nacionais que integram a entidade votaram, por unanimidade, a favor do boicote à Copa do Mundo e a todos os torneios organizados pela Fifa. A decisão é uma resposta ao plano da entidade que comanda o futebol mundial de vender uma fatia de suas competições a investidores externos.
A medida veio depois de a Confederação Asiática de Futebol (AFC) enviar uma carta dura às 47 federações do continente, alertando que a proposta da Fifa não teria como avançar sem o apoio de todos os blocos regionais do futebol.
Em comunicado, a Uefa afirmou que rejeita de forma unânime e inequívoca a ideia de transferir participações acionárias da Copa do Mundo e de outras competições da Fifa para investidores privados. A entidade declarou que, enquanto a proposta seguir em pé, nenhuma seleção europeia disputará torneios da Fifa, a não ser que o plano seja totalmente abandonado e a entidade ofereça garantias formais de que jamais voltará a abrir sua governança ou suas competições à propriedade privada.
Para a Uefa, a Copa do Mundo não está à venda e não pode ser tratada como produto de investimento nem repassada a investidores privados. A entidade classificou a proposta como uma falha grave de liderança e uma renúncia ao papel da Fifa como guardiã do futebol mundial, argumentando que a entrada de investidores externos nas competições mudaria o esporte de forma permanente, transformando o retorno comercial em obrigação constante e as expectativas dos investidores em pressão diária sobre o futebol.

Asiáticos dizem que não foram consultados
O presidente da AFC, xeique Salman bin Ebrahim Al-Khalifa, afirmou que sua confederação não foi consultada pela Fifa em nenhuma etapa antes do anúncio público, e que essa falta de diálogo, somada à ausência de qualquer estudo detalhado de governança, finanças ou aspectos jurídicos da proposta, tornava a situação inaceitável. Segundo ele, as ações unilaterais da Fifa ameaçam os próprios fundamentos do futebol continental, baseados em solidariedade, cooperação e transparência.
A crítica da AFC aumenta a pressão sobre o presidente da Fifa, Gianni Infantino, responsável por liderar o plano de criar uma subsidiária avaliada em 20 bilhões de dólares para administrar a Copa do Mundo e outros eventos da entidade, oferecendo participações minoritárias a investidores privados. A Concacaf, bloco regional que reúne América do Norte, América Central e Caribe, também criticou a Fifa pela falta de consulta prévia.
Como parte da proposta, Infantino ofereceu 40 milhões de dólares a cada uma das 211 associações membro da Fifa, caso aceitem o plano até 19 de setembro, dentro de um pacote de 10 bilhões de dólares que ficaria disponível a partir de 1º de janeiro de 2027. Em caso de rejeição, o valor recuaria para a proposta anterior, de 2,7 bilhões de dólares no total, o equivalente a cerca de 10 milhões de dólares por associação.
Infantino afirmou que a Fifa vai submeter a proposta à votação das associações membro e, depois, ao seu Conselho Executivo. Já o xeique Salman sustentou que o plano só teria chance de dar certo com o apoio de todos os seis blocos regionais do futebol, o que hoje não existe.

Outras confederações também reagem
O comitê executivo da confederação africana deve se reunir na próxima semana para avaliar a proposta, enquanto a confederação da Oceania, a menor entre os blocos regionais, com 11 países membros plenos, afirmou que vai discutir o tema em uma reunião no mês que vem. A Conmebol, responsável pelo futebol sul-americano, ainda não se manifestou publicamente sobre o assunto.
Entidades que representam jogadores também se posicionaram contra o plano. A Fifpro, sindicato global de atletas, alertou que a proposta mudaria de forma irreversível os incentivos que sustentam as competições nas quais os jogadores atuam e constroem carreira.
Já Greg Maffei, ex-diretor executivo da Liberty Media e consultor comercial da Fifa no projeto, disse ao Financial Times que a entidade não está vendendo a Copa do Mundo e que manterá sempre o controle majoritário das competições. Segundo ele, movimentos parecidos já ocorreram em praticamente todas as modalidades esportivas, e o formato não é uma novidade no mercado. Maffei foi quem comandou a compra dos direitos comerciais da Fórmula 1 pela Liberty Media, em 2017.