Uefa anuncia boicote à Copa do Mundo após plano da Fifa de vender participações

Decisão foi tomada por unanimidade pelas 55 federações europeias, que ameaçam não disputar torneios da entidade enquanto proposta seguir em debate
ouça este conteúdo
00:00 / 00:00
1x

A Uefa e as 55 federações nacionais que integram a entidade votaram, por unanimidade, a favor do boicote à Copa do Mundo e a todos os torneios organizados pela Fifa. A decisão é uma resposta ao plano da entidade que comanda o futebol mundial de vender uma fatia de suas competições a investidores externos.

A medida veio depois de a Confederação Asiática de Futebol (AFC) enviar uma carta dura às 47 federações do continente, alertando que a proposta da Fifa não teria como avançar sem o apoio de todos os blocos regionais do futebol.

Em comunicado, a Uefa afirmou que rejeita de forma unânime e inequívoca a ideia de transferir participações acionárias da Copa do Mundo e de outras competições da Fifa para investidores privados. A entidade declarou que, enquanto a proposta seguir em pé, nenhuma seleção europeia disputará torneios da Fifa, a não ser que o plano seja totalmente abandonado e a entidade ofereça garantias formais de que jamais voltará a abrir sua governança ou suas competições à propriedade privada.

Para a Uefa, a Copa do Mundo não está à venda e não pode ser tratada como produto de investimento nem repassada a investidores privados. A entidade classificou a proposta como uma falha grave de liderança e uma renúncia ao papel da Fifa como guardiã do futebol mundial, argumentando que a entrada de investidores externos nas competições mudaria o esporte de forma permanente, transformando o retorno comercial em obrigação constante e as expectativas dos investidores em pressão diária sobre o futebol.

Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e presidente da Fifa, Gianni Infantino, posam para foto com o troféu da Copa do Mundo no Salão Oval, na Casa Branca. Foto de agosto de 2025. — Foto: Divulgação/Casa Branca
Ideia de Gianni Infantino, presidente da Fifa, é criar uma subsidiária avaliada em 20 bilhões de dólares para administrar a Copa do Mundo e outros eventos da entidade, oferecendo participações minoritárias a investidores privados (Foto: Divulgação / Casa Branca)

Asiáticos dizem que não foram consultados

O presidente da AFC, xeique Salman bin Ebrahim Al-Khalifa, afirmou que sua confederação não foi consultada pela Fifa em nenhuma etapa antes do anúncio público, e que essa falta de diálogo, somada à ausência de qualquer estudo detalhado de governança, finanças ou aspectos jurídicos da proposta, tornava a situação inaceitável. Segundo ele, as ações unilaterais da Fifa ameaçam os próprios fundamentos do futebol continental, baseados em solidariedade, cooperação e transparência.

A crítica da AFC aumenta a pressão sobre o presidente da Fifa, Gianni Infantino, responsável por liderar o plano de criar uma subsidiária avaliada em 20 bilhões de dólares para administrar a Copa do Mundo e outros eventos da entidade, oferecendo participações minoritárias a investidores privados. A Concacaf, bloco regional que reúne América do Norte, América Central e Caribe, também criticou a Fifa pela falta de consulta prévia.

Como parte da proposta, Infantino ofereceu 40 milhões de dólares a cada uma das 211 associações membro da Fifa, caso aceitem o plano até 19 de setembro, dentro de um pacote de 10 bilhões de dólares que ficaria disponível a partir de 1º de janeiro de 2027. Em caso de rejeição, o valor recuaria para a proposta anterior, de 2,7 bilhões de dólares no total, o equivalente a cerca de 10 milhões de dólares por associação.

Infantino afirmou que a Fifa vai submeter a proposta à votação das associações membro e, depois, ao seu Conselho Executivo. Já o xeique Salman sustentou que o plano só teria chance de dar certo com o apoio de todos os seis blocos regionais do futebol, o que hoje não existe.

UEFA

Outras confederações também reagem

O comitê executivo da confederação africana deve se reunir na próxima semana para avaliar a proposta, enquanto a confederação da Oceania, a menor entre os blocos regionais, com 11 países membros plenos, afirmou que vai discutir o tema em uma reunião no mês que vem. A Conmebol, responsável pelo futebol sul-americano, ainda não se manifestou publicamente sobre o assunto.

Entidades que representam jogadores também se posicionaram contra o plano. A Fifpro, sindicato global de atletas, alertou que a proposta mudaria de forma irreversível os incentivos que sustentam as competições nas quais os jogadores atuam e constroem carreira.

Já Greg Maffei, ex-diretor executivo da Liberty Media e consultor comercial da Fifa no projeto, disse ao Financial Times que a entidade não está vendendo a Copa do Mundo e que manterá sempre o controle majoritário das competições. Segundo ele, movimentos parecidos já ocorreram em praticamente todas as modalidades esportivas, e o formato não é uma novidade no mercado. Maffei foi quem comandou a compra dos direitos comerciais da Fórmula 1 pela Liberty Media, em 2017.

Carregar Comentários
Assine nossa newsletter
Receba nossos informativos diretamente em seu e-mail