Quando um terreiro é destruído, uma biblioteca se queima

A oralidade constitui a espinha dorsal da existência dos terreiros: por meio dela a sabedoria é transmitida
ouça este conteúdo
00:00 / 00:00
1x

“Na África, cada ancião que morre é uma biblioteca que se queima.” Essa frase, escrita pelo tradicionalista malinês Amadou Hampâté Bâ no livro Amkoullel, o Menino Fula, revela a importância da transmissão oral no continente africano. Simples e singela, mas de uma profundidade ímpar, a passagem evidencia o valor das tradições, das práticas culturais e das espiritualidades das comunidades tradicionais.

Essas tradições não estão necessariamente vinculadas à escrita como principal forma de transmissão do saber e do conhecimento. A oralidade constitui a espinha dorsal da existência dessas comunidades, pois é por meio dela que a sabedoria é transmitida de geração em geração.

No Brasil, é possível perceber a força e a importância da oralidade nas práticas das religiões de matrizes africanas e nas comunidades tradicionais quilombolas. Destarte, ao voltarmos nosso olhar para a formação da sociedade brasileira, torna-se possível compreender que as culturas orais preservadas nos templos das religiões de matrizes africanas e nos quilombos constituem uma das principais bases da resistência e da construção das identidades negras no país.

Tanto o terreiro quanto a casa de santo e o quilombo representam verdadeiras extensões dos laços identitários com o continente africano. São vínculos que não foram apagados pelos processos de escravização de homens e mulheres africanos em território brasileiro entre os séculos XVI e XIX e que jamais serão silenciados, pois a força de suas raízes se entrelaça às lutas cotidianas contra o racismo e a intolerância religiosa.

Desse modo, é preciso destacar que um templo religioso de matriz africana, assim como um território quilombola, existe e resiste para além de seus limites geográficos. Esses espaços sagrados da resistência negra são forjados pelos laços, pelos encontros e reencontros e pela intensa troca de saberes que se estabelece cotidianamente.

São verdadeiros modelos de tradições vivas, reconfigurados a partir da ideia de família extensa e sustentados por valores como solidariedade, irmandade, ancestralidade e circularidade. Dos mais velhos aos mais novos, a vida compartilhada nesses espaços constitui uma das mais autênticas expressões das tradições afro-brasileiras, que permanecem vivas e pulsantes diante das permanências do colonialismo ainda presentes na sociedade brasileira.

Por isso, diante do triste cenário em que templos de religiões de matrizes africanas continuam sendo depredados e incendiados, ao mesmo tempo em que comunidades quilombolas enfrentam constantes ameaças de desapropriação de seus territórios, cabe parafrasear o saudoso escritor malinês Amadou Hampâté Bâ:

“No Brasil, quando um templo de matriz africana é destruído ou um território quilombola é violado, bibliotecas queimam. Vidas ardem. Memórias são destruídas. E parte da história do Brasil tenta ser apagada.”

 

*Prof. Dr. Ivanir dos Santos é professor e orientador no Programa de Pós-graduação em História Comparada da UFRJ; Conselheiro Estratégico do CEAP e autor e idealizador da série Resistência Negra, da Globoplay.

Carregar Comentários
Assine nossa newsletter
Receba nossos informativos diretamente em seu e-mail