Por Amanda Prado
O terreiro de umbanda Casa de Caridade Caboclo Pena Dourada foi alvo de vandalismo e intolerância religiosa na madrugada desta terça-feira (28), no bairro do Maracanã, zona norte do Rio de Janeiro.
Os invasores quebraram imagens e objetos de culto afro-religioso e espalharam materiais de outras religiões pela casa, demonstrando clara intenção de ataque e desrespeito. Uma bíblia foi encontrada na entrada do terreiro — o que configura intolerância religiosa e intimidação.
Em depoimento emocionado nas redes sociais, a dirigente do terreiro, Fernanda Franco, disse que um filho de santo que mora próximo ao local foi o primeiro a ver o estado da casa e avisar os outros integrantes. “Essa noite nós fomos invadidos. Arrombaram os portões, deixaram a casa toda aberta. Destruíram tudo. Os atabaques foram jogados no chão, as imagens também. Levaram todos os ventiladores, geladeiras… Quebraram a imagem de Exu. Tá tudo revirado, destruído. Roubaram as torneiras, a casa estava alagada. Nada restou”, disse Fernanda.
Sem conseguir conter a dor, Fernanda tentou concluir o vídeo, aos prantos. “Não sei como a gente vai conseguir reconstruir tudo. Levaram todos os ventiladores. As coisas dos orixás e dos meus filhos de santo também foram roubadas… Não tem mais nada”, lamentou.

Os invasores levaram dez ventiladores de parede, dois ventiladores de mesa, um ventilador de torre, quatro aparelhos de ar-condicionado, duas geladeiras, um freezer, o expositor de salgados, um fogão industrial, um micro-ondas, um botijão de gás, uma máquina de lavar, uma televisão, um computador, dois ventiladores de teto, um filtro de água, diversos disjuntores e tomadas.

Terreiro cria campanha para se reerguer
A comunidade da Casa de Caridade Caboclo Pena Dourada divulgou uma vaquinha online com o intuito de arrecadar fundos e recuperar o que foi perdido. O valor necessário estimado é cerca de R$ 20.000 para reaver eletrodomésticos e outros objetos de valor, além de reparar os danos ao espaço físico.
“Este terreiro não é apenas um local de culto; é um refúgio para aqueles que buscam conforto, orientação e conexão com o divino. É um espaço onde celebramos a vida, honramos nossos ancestrais e ajudamos aqueles que precisam de apoio espiritual e emocional. Ver tudo isso destruído é uma dor imensa para toda a nossa comunidade”, diz o texto divulgado pelo terreiro.

Em nota, a Gerência para Povos e Comunidades Tradicionais da Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Clima da Prefeitura do Rio de Janeiro prestou solidariedade e informou que está comprometida em contribuir com a comunidade no que for necessário. O comunicado se refere ao episódio como “ato de racismo religioso”.
“Mais uma vez, uma comunidade tradicional de matriz africana do Rio foi atacada por atos violentos e covardes contra o patrimônio ancestral local. Nós, povos tradicionais, representamos cerca de 5% da população e somos os mais atacados por atos de violência. A atuação da Gerência para povos e comunidades tradicionais é para promover direitos para as nossas comunidades e combater o preconceito”, diz o texto.
A Prefeitura do Rio de Janeiro também anunciou, como medidas reparatórias, a inclusão do terreiro no Programa Casas Ancestrais, o acolhimento socioambiental e o suporte jurídico.