Nota da PF atropelou trégua e expôs disputa sobre provas com André Mendonça

Auxiliares do ministro afirmam que relatório integral de quebra do INSS não chegou aos autos e negam tentativa de reter bens apreendidos
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Por Cleber Lourenço

A nota divulgada por integrantes da Polícia Federal em defesa da autonomia da corporação interrompeu uma tentativa do governo de encerrar a crise com o ministro André Mendonça e expôs um impasse que vai além da disputa pública entre o relator e a PF. Nos bastidores, o foco da divergência passou a ser a condução das provas obtidas no inquérito do INSS, o uso desse material para abrir novas investigações e a versão de que o ministro teria tentado retirar bens e documentos das mãos da corporação.

Segundo o que o ICL Notícias apurou, a reunião realizada nesta quarta-feira (6) entre Mendonça, representantes do Ministério da Justiça e da Advocacia-Geral da União havia sido solicitada antes da divulgação da nota assinada por superintendentes da PF. A avaliação dos participantes era de que o encontro representava um primeiro passo para reduzir a tensão institucional criada nos últimos dias.

O clima mudou quando o manifesto foi divulgado durante as articulações. A leitura feita por pessoas envolvidas nas conversas é que a manifestação acabou esvaziando o esforço político para construir uma trégua justamente no momento em que o governo buscava encerrar o conflito.

Mais cedo, o ICL revelou que auxiliares do presidente Luiz Inácio Lula da Silva decidiram atuar diretamente para evitar que a crise alimentasse a narrativa de interferência do governo nas investigações envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, às vésperas do período eleitoral.

Mas, para além da nota, o principal foco de atrito está na forma como as provas produzidas durante as investigações passaram a ser utilizadas.

De acordo com a apuração da reportagem, a quebra de sigilo autorizada originalmente no inquérito do INSS teria produzido elementos que, posteriormente, serviram de base para a abertura de três novos inquéritos distribuídos por sorteio. A controvérsia, segundo essa versão, é que o relatório integral da medida cautelar ainda não havia sido formalmente juntado ao processo de origem quando parte dessas informações passou a embasar os novos procedimentos.

Na avaliação de pessoas próximas ao ministro, o procedimento acabou fragmentando uma investigação que trataria, essencialmente, do mesmo núcleo de suposto tráfico de influência. A interpretação é que a PF utilizou trechos do material para justificar novas investigações, enquanto o processo original permanecia sem o relatório completo da diligência determinada pelo relator.

Outro ponto de tensão envolve a versão de que Mendonça teria tentado retirar provas ou bens apreendidos da posse da Polícia Federal.

Interlocutores próximos ao ministro classificam essa narrativa como falsa. Segundo eles, nunca houve pedido para que carros, celulares, computadores ou qualquer outro bem físico fosse encaminhado ao Supremo Tribunal Federal. Pelo contrário: os bens continuam sendo administrados normalmente pelos órgãos competentes do governo federal, inclusive com alienações e leilões antecipados quando autorizados pela legislação.

Em relação ao material obtido por quebra de sigilo, a explicação apresentada é que houve apenas um pedido de cópia de segurança, preservada sob sigilo, diante da demora no envio dos relatórios de andamento. O argumento é que essa cópia permaneceria lacrada, sem acesso pelo gabinete, funcionando apenas como medida de preservação documental.

A avaliação é que qualquer acesso direto do ministro ao conteúdo bruto das provas comprometeria a própria investigação e abriria espaço para questionamentos sobre a validade das medidas adotadas. Por isso, pessoas próximas ao relator consideram incompatível a tese de que Mendonça teria buscado retirar da PF documentos ou evidências para analisá-los diretamente.

As mesmas fontes também afirmam que nenhuma das medidas autorizadas pelo ministro nos casos relacionados ao INSS, ao inquérito Dark Horse ou às investigações envolvendo Lulinha foi determinada de ofício. Segundo elas, todas decorreram de pedidos formulados previamente pela própria Polícia Federal, o que, na avaliação do entorno de Mendonça, contradiz a narrativa de que o ministro teria interferido na condução das investigações.

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