O ataque a tiros que quase matou Nadia Beller, ex-companheira de Fernando Cerimedo — preso na Bolívia sob acusação de ser o autor intelectual do atentado — acabou tendo repercussões na Justiça argentina, especialmente na investigação envolvendo a Andis, agência responsável por benefícios e medicamentos. Segundo os jornais Página 12 e La Nacion, Beller, que está internada em uma clínica de Santa Cruz, afirmou que Cerimedo, consultor ligado ao presidente Javier Milei e à direita latino-americana, teria falado diversas vezes sobre supostos casos de corrupção no governo argentino.
De acordo com Beller, Cerimedo também teria sido responsável, junto com sua ex-mulher, Natalia Basil, pela divulgação de áudios atribuídos a Diego Spagnuolo, ex-chefe da Andis, nos quais ele supostamente mencionaria pagamentos de propina e um repasse de “3% para Karina”, em referência a Karina Milei, irmã do presidente e integrante do governo. A ex-companheira disse possuir gravações de conversas privadas com Cerimedo, algumas com mais de uma hora, armazenadas em diferentes dispositivos.
Beller afirmou que fez essas gravações como forma de proteção pessoal, alegando que vinha sofrendo ameaças e maus-tratos de Cerimedo. Ela também declarou estar disposta a entregar o material à Justiça argentina caso seja convocada. A deputada Marcela Pagano já solicitou que Beller seja ouvida como testemunha, enquanto o promotor Franco Piccardi avalia a possibilidade de convocá-la no processo, que já resultou no indiciamento de 18 empresários e ex-funcionários públicos por crimes como associação ilícita, suborno e fraude contra o Estado.
De acordo com Beller, Cerimedo descrevia o governo Milei como uma estrutura “plagada de corrupção” e dizia que Karina Milei estaria no centro do esquema. Ela também relatou ter presenciado o distanciamento entre o consultor e integrantes do governo, além de conflitos com empresários e aliados políticos, entre eles Santiago Caputo. Segundo seu relato, Cerimedo estaria preocupado com a possibilidade de o governo perder sustentação e criticava medidas adotadas por Milei, incluindo ações de repressão e determinadas leis.

A ex-companheira atribuiu ainda a Natalia Basil, ex-mulher de Cerimedo, um papel importante na divulgação dos áudios. De acordo com Beller, o próprio consultor teria dito que Basil era responsável por fazer chegar as gravações às autoridades. Basil trabalhou na Andis entre abril e dezembro de 2024, período em que, segundo a investigação, começou a ser estruturado o sistema de licitações de medicamentos de alto custo que posteriormente seria alvo das denúncias de corrupção.
O possível depoimento de Beller, porém, não acrescentaria necessariamente elementos inéditos ao processo. Em setembro de 2025, o próprio Cerimedo já havia declarado à promotoria que conhecia Spagnuolo e que o ex-chefe da Andis lhe teria relatado a existência de propinas. Na ocasião, afirmou que 3% dos valores seriam destinados à Casa Rosada e que Martín “Lule” Menem receberia mensalmente uma quantia em dólares por supostamente dar aval às licitações.
A defesa de Spagnuolo tenta utilizar o relato de Beller para sustentar a tese de que os áudios fariam parte de uma operação de inteligência destinada a prejudicar o governo. Os advogados alegam que as gravações poderiam ter sido manipuladas ou até produzidas com inteligência artificial. Paralelamente, existe uma investigação conduzida pelo promotor Carlos Stornelli sobre essa hipótese, embora o processo principal disponha de outros elementos, como documentos de licitações, mensagens e dados extraídos de celulares de empresários investigados.
O juiz federal Ariel Lijo determinou que os áudios sejam submetidos a perícia pela Gendarmaria argentina. Enquanto isso, a investigação reúne outros indícios de irregularidades nas compras de medicamentos de alto custo. Dados das licitações apontam que 93,11% das ordens de compra acabavam concentradas em duas empresas, enquanto outras companhias teriam apresentado propostas artificialmente elevadas para simular concorrência. Anotações contábeis, mensagens de WhatsApp e registros de pagamentos também fazem parte das provas analisadas. A origem da divulgação dos áudios continua sendo alvo de disputa dentro do próprio campo governista, com diferentes personagens trocando acusações sobre quem teria promovido o vazamento.