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Por Cleber Lourenço

Os primeiros repasses de dinheiro público para financiar as campanhas de 2026 começaram com uma concentração expressiva entre homens e pessoas brancas. Dos R$ 87,3 milhões transferidos diretamente pelos partidos e já declarados à Justiça Eleitoral até a madrugada desta segunda-feira (24), 72,8% foram destinados a homens e 72,3% a candidatos brancos.

O levantamento feito pelo ICL Notícias a partir dos dados de prestação de contas do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostra que a desigualdade fica ainda mais evidente quando gênero e raça são analisados em conjunto. Homens brancos representam 34,6% das candidaturas dos 15 partidos que já fizeram repasses, mas ficaram com 52,9% de todo o dinheiro público transferido. Mulheres negras, por outro lado, são 17,8% dos candidatos e receberam apenas 7,8% dos recursos.

A análise considera R$ 87.332.095,48 transferidos diretamente pelas legendas por meio do Fundo Especial de Financiamento de Campanha, o Fundo Eleitoral, e do Fundo Partidário. Foram identificados 861 repasses para 722 candidaturas. A base foi extraída do TSE às 4h desta segunda.

Dos recursos já distribuídos, R$ 63,59 milhões chegaram a homens, enquanto mulheres receberam R$ 23,74 milhões. Entre candidatos brancos, foram R$ 63,11 milhões. Pretos e pardos, somados, ficaram com R$ 24,14 milhões.

A diferença chama atenção também quando se compara o dinheiro recebido ao tamanho de cada grupo na disputa. Homens representam 65,1% das candidaturas das legendas analisadas e ficaram com 72,8% dos recursos. Pessoas negras são 47,6% dos candidatos, mas receberam 27,6% do dinheiro.

Homens brancos receberam mais da metade do dinheiro

O cruzamento entre gênero e raça revela uma concentração ainda maior.

Dos R$ 87,3 milhões analisados, R$ 46,18 milhões foram destinados a homens brancos. Sozinho, esse grupo recebeu mais da metade — 52,9% — de todo o dinheiro público distribuído diretamente pelas legendas até agora, apesar de representar pouco mais de um terço das candidaturas.

No outro extremo estão as mulheres negras. Embora representem 17,8% dos candidatos dos partidos que já fizeram transferências, elas receberam R$ 6,8 milhões, o equivalente a 7,8% do total.

Candidaturas indígenas aparecem praticamente fora da primeira rodada de distribuição. Elas receberam R$ 55 mil, ou 0,063% dos recursos analisados, embora representem 0,75% das candidaturas das legendas consideradas.

A situação fica ainda mais evidente quando se observa exclusivamente o Fundo Eleitoral. Dos R$ 55,76 milhões dessa fonte que já haviam sido transferidos diretamente, 77,3% foram destinados a homens. Mulheres ficaram com 22,7%.

Até a extração dos dados, nenhum repasse direto do Fundo Eleitoral havia sido registrado para candidatura indígena.

Os outros R$ 31,57 milhões analisados vieram do Fundo Partidário. Nesse caso, a participação das mulheres sobe para 35%, enquanto pessoas negras receberam 27,4%.

Quatro partidos concentram 85% dos repasses

A fotografia nacional é fortemente influenciada por quatro partidos. Novo, PL, PP e PCdoB foram responsáveis por R$ 74,24 milhões, ou 85% de todos os recursos analisados.

O Novo aparece com o maior volume já transferido diretamente: R$ 24,31 milhões. Desse total, 26,1% foram destinados a mulheres, que representam 32,5% das candidaturas da legenda. Para pessoas negras, a diferença é maior: elas representam 43% dos candidatos do partido, mas receberam 15,6% dos recursos.

No PL, a disparidade de gênero é ainda mais acentuada. Dos R$ 21,02 milhões transferidos pela legenda, apenas R$ 1,2 milhão, ou 5,7%, chegou a mulheres. Elas representam 32,9% das candidaturas do partido.

Pessoas negras são 37,7% dos candidatos do PL e ficaram com 22,9% do dinheiro já distribuído.

O PP transferiu R$ 15,35 milhões. Mulheres receberam 35,4%, percentual próximo dos 34,8% que representam entre as candidaturas da legenda. Já candidatos negros, que são 39,5% do total, ficaram com 22,2% dos recursos.

No PCdoB, que já declarou R$ 13,56 milhões em transferências, a distribuição por gênero é praticamente proporcional: mulheres são 44,5% das candidaturas e receberam 44,5% dos recursos. Pessoas negras receberam 49,5% do dinheiro e representam 58,9% dos candidatos do partido.

No Senado, dinheiro transferido foi todo para homens

A concentração ganha outra dimensão na disputa pelo Senado.

Até a madrugada desta segunda-feira, haviam sido declarados R$ 8,93 milhões em recursos públicos transferidos diretamente pelos partidos para 13 candidaturas ao Senado. Desse montante, 99,8% beneficiaram homens.

Quando são considerados exclusivamente os recursos financeiros — dinheiro efetivamente transferido, e não bens e serviços contabilizados como receita —, 100% dos R$ 8,9 milhões foram destinados a candidatos homens.

A única mulher com receita pública registrada nesse universo foi Samanda Alves (PT-RN), com R$ 17.499,99. O valor não corresponde a dinheiro depositado para a campanha, mas a duas cessões estimadas de veículo.

O maior repasse individual identificado foi para Domingos Sávio (PL-MG), que recebeu R$ 5 milhões. Na sequência aparecem Ricardo Salles (Novo-SP), com R$ 1,35 milhão; Deltan Dallagnol (Novo-PR), com R$ 800 mil; Ciro Nogueira (PP-PI), com R$ 512,5 mil; e Guilherme Derrite (PP-SP), com R$ 500 mil.

Partidos ainda têm prazo para cumprir reservas

A concentração identificada nesta primeira fotografia da campanha não significa, por si só, descumprimento das regras eleitorais. Os partidos ainda têm prazo até 8 de setembro para distribuir os valores necessários ao cumprimento das reservas destinadas a mulheres, pessoas negras e indígenas.

Para candidaturas femininas, os recursos devem acompanhar a proporção de mulheres apresentadas pela legenda, respeitado o piso de 30%. Para candidatos pretos e pardos, a legislação estabelece que ao menos 30% dos recursos do Fundo Eleitoral e do Fundo Partidário destinados às campanhas sejam aplicados nessas candidaturas.

Os dados também carregam uma defasagem natural. Partidos e candidatos têm prazo para informar as receitas à Justiça Eleitoral, e o TSE precisa processar e disponibilizar essas informações. Por isso, o levantamento representa uma fotografia dos valores já declarados, e não necessariamente todo o dinheiro que deixou as contas partidárias até esta segunda.

Ainda assim, os primeiros R$ 87 milhões revelam quem saiu na frente na corrida pelo financiamento público: enquanto homens brancos representam pouco mais de um terço das candidaturas analisadas, mais de cada R$ 2 distribuídos até agora, R$ 1 foi parar nas campanhas desse grupo.

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