Por Cleber Lourenço
O X deixou perfis de candidatos fora da lista criada para reduzir a distribuição de conteúdo político durante a campanha eleitoral. Contas de Nikolas Ferreira (PL-MG), Bia Kicis (PL-DF) e Alfredo Gaspar (União-AL), candidato a vice-presidente na chapa de Flávio Bolsonaro (PL), foram informadas à Justiça Eleitoral, mas não aparecem na relação pública usada pela plataforma para impedir que candidatos sejam recomendados a usuários que não os seguem.
A diferença pode afetar diretamente o alcance das publicações. Pelas regras do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), as plataformas devem retirar de seus sistemas de recomendação os perfis informados pelos candidatos à Justiça Eleitoral. No X, isso significa impedir que essas contas sejam apresentadas automaticamente, por exemplo, na aba “Para Você”.
A lista divulgada pela plataforma reúne 665 contas. A análise dos dados identificou candidatos que registraram seus perfis no TSE, mas não aparecem nessa relação.
O problema ganha importância porque as recomendações são uma das principais formas de uma publicação ultrapassar a própria base de seguidores. Um candidato incluído na lista continua podendo publicar normalmente e seus seguidores continuam recebendo o conteúdo. A restrição atinge principalmente a capacidade de a plataforma apresentar essas publicações para quem ainda não acompanha aquele perfil.
O X e o TSE foram procurados pelo ICL Notícias para explicar a divergência e informar como é feita a atualização da lista. As respostas serão acrescentadas à reportagem.
Nikolas, Bia Kicis e Alfredo Gaspar estão fora da lista
Um dos casos identificados é o do deputado federal Nikolas Ferreira, candidato à reeleição pelo PL de Minas Gerais. O perfil nikolas_dm está entre as redes sociais informadas em seu registro eleitoral, mas não aparece na lista pública de contas submetidas à restrição do X.
A mesma situação ocorre com Bia Kicis, candidata ao Senado pelo PL no Distrito Federal. A conta Biakicis, também declarada à Justiça Eleitoral, não consta da relação.
O terceiro caso envolve Alfredo Gaspar, candidato a vice-presidente na chapa encabeçada por Flávio Bolsonaro. Entre as redes sociais informadas em seu registro está a conta Alfredogaspar_, igualmente ausente da lista pública.
A presença ou ausência nessa relação importa porque determina quais candidatos são alcançados pelo mecanismo criado pelo X para cumprir a regra eleitoral.
Os casos identificados não permitem afirmar que a plataforma tenha escolhido deliberadamente beneficiar determinados candidatos. Eles revelam, porém, uma diferença objetiva entre contas informadas à Justiça Eleitoral e aquelas que aparecem na relação pública do X.
Há ainda uma questão central que depende de explicação da empresa: se as 665 contas divulgadas correspondem exatamente à lista utilizada atualmente pela plataforma ou se o X mantém internamente uma relação diferente e mais atualizada.
O que muda para quem fica fora da lista
A regra do TSE determina que plataformas com sistemas automáticos de recomendação retirem das sugestões os perfis e canais informados pelos candidatos à Justiça Eleitoral, além dos conteúdos publicados por eles. As modalidades de propaganda paga autorizadas pela legislação eleitoral seguem regras próprias.
No X, a consequência aparece principalmente na aba “Para Você”.
É ali que a plataforma seleciona automaticamente publicações que considera interessantes para cada pessoa. O usuário não precisa seguir uma conta para receber seu conteúdo. É justamente esse mecanismo que permite que uma publicação chegue a um público muito maior que a base original de seguidores.
Ao anunciar a mudança para as eleições brasileiras, o próprio X informou que os candidatos não seriam suspensos nem impedidos de publicar. A plataforma reconheceu, no entanto, que a retirada das recomendações poderia afetar a visibilidade e o alcance das contas e de seus conteúdos.
Na prática, portanto, dois candidatos submetidos a tratamentos diferentes pelo sistema podem ter condições diferentes de circulação dentro da plataforma.
Restrição não atinge apenas o post original
A análise do sistema divulgado pelo X mostra que a restrição vai além das publicações feitas diretamente pelos candidatos.
O mecanismo também considera republicações, citações e determinadas respostas relacionadas às contas incluídas na lista.
Isso aumenta a importância de saber se todos os candidatos que deveriam estar submetidos à regra foram efetivamente incluídos.
Se uma conta permanecer fora da relação, conteúdos relacionados a ela podem receber tratamento diferente daquele aplicado aos candidatos identificados pelo sistema.
Lista foi divulgada antes do fim do registro das candidaturas
Há outro ponto que aumenta as dúvidas sobre a atualização da relação.
O X disponibilizou publicamente sua lista de 665 contas em 14 de agosto. O prazo para partidos e coligações apresentarem os registros das candidaturas à Justiça Eleitoral terminava somente no dia seguinte, 15 de agosto.
Desde então, o histórico público do arquivo não registra nova alteração na relação.
Isso não significa necessariamente que o sistema utilizado internamente pelo X permaneça com os mesmos dados. A empresa pode atualizar as contas por outros mecanismos que não aparecem publicamente.
Mas isso cria uma questão fundamental: como a plataforma incorpora candidatos e perfis informados à Justiça Eleitoral depois da elaboração da lista pública?
A pergunta ganha peso porque as próprias regras eleitorais permitem que candidatos comuniquem novas contas durante a campanha e estabelecem prazo para que esses endereços sejam informados à Justiça Eleitoral.
TSE recebeu plano sobre funcionamento das plataformas
O TSE criou neste ano regras específicas para acompanhar como as grandes plataformas cumprem as normas eleitorais.
As empresas tiveram de apresentar ao Tribunal planos explicando as medidas adotadas durante as eleições. Entre as informações exigidas estão detalhes sobre sistemas de recomendação e mecanismos utilizados para reduzir a distribuição de conteúdos.
Mudanças relevantes nesses mecanismos também precisam ser comunicadas à Justiça Eleitoral.
O ICL Notícias perguntou ao TSE quantos perfis do X foram declarados pelos candidatos, se o Tribunal já comparou sua base com a relação utilizada pela plataforma e se identificou contas que deveriam estar submetidas à restrição, mas permanecem fora dela.
Ao X, a reportagem perguntou se as 665 contas divulgadas correspondem à relação realmente utilizada pela plataforma, de quando são os dados usados para montar a lista e com qual frequência eles são atualizados.
A empresa também foi questionada especificamente sobre a ausência dos perfis de Nikolas Ferreira, Bia Kicis e Alfredo Gaspar e sobre a possibilidade de existir uma lista interna diferente daquela disponibilizada publicamente.
Até a publicação desta reportagem, o TSE e o X não haviam respondido aos questionamentos.