Apesar da reabertura dos canais diplomáticos entre Brasília e Washington, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva trabalha com a perspectiva de que a revisão das sobretaxas impostas pelos Estados Unidos às exportações brasileiras será um processo longo e sem saídas imediatas. Negociadores do Executivo avaliam ser improvável alcançar um desfecho definitivo antes das eleições de outubro, concentrando esforços para que a Casa Branca apresente formalmente os pontos que exige para abrir o mercado norte-americano.
A primeira reunião virtual entre o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Márcio Elias Rosa, e o representante comercial dos EUA (USTR), Jamieson Greer, está agendada para a próxima segunda-feira. O encontro serve como etapa preparatória para conversas setoriais aprofundadas. A estratégia brasileira consiste em fatiar o debate por áreas específicas, priorizando inicialmente segmentos estratégicos como bens de capital, o setor automotivo e a indústria química.
Paralelamente ao diálogo, o Brasil mantém ativa a ameaça do uso da Lei de Reciprocidade Comercial contra os produtos norte-americanos. Interlocutores do Palácio do Planalto apontam que o tempo corre contra os setores afetados pelas alíquotas e que, caso não haja avanços concretos nos próximos meses, o país concluirá a análise jurídica e aplicará tarifas compensatórias em defesa da economia nacional.

Etanol, açúcar e a defesa do mercado nacional
Um dos nós centrais das tratativas envolve o comércio de biocombustíveis e commodities agrícolas. Atualmente, o Brasil aplica uma alíquota de 18% sobre a entrada do etanol de milho produzido nos Estados Unidos. Em contrapartida, os norte-americanos impõem cotas rígidas ao açúcar brasileiro, limitando a entrada isenta do produto nacional a apenas 155 mil toneladas anuais e taxando o excedente em alíquotas exorbitantes que podem chegar a 100%.
A diplomacia brasileira sinaliza flexibilidade para reduzir as barreiras ao etanol norte-americano, desde que a gestão de Donald Trump amplie de forma expressiva o acesso do açúcar do Brasil ao mercado dos EUA. A troca exige contrapartidas equivalentes, evitando que a indústria nacional saia prejudicada na mesa de negociações.
As sobretaxas adicionais cobradas pelos EUA chegam a 37,5% sobre bens industriais nacionais, justificadas por Washington com alegações infundadas sobre o sistema Pix e a regulação de plataformas digitais no país. Ao mesmo tempo em que tenta expandir a lista de isenções que hoje protege itens como café, carne e petróleo, o governo reafirma a soberania do país para regular seus mercados sem aceitar imposições unilaterais.