Por Cleber Lourenço
As revelações do ICL Notícias sobre a relação entre Daniel Vorcaro e Nikolas Ferreira (PL-MG) provocaram nesta quarta-feira (3) pedidos formais para que o deputado passe a ser investigado criminalmente. Lindbergh Farias (PT-RJ) e Rogério Correia (PT-MG) acionaram a Procuradoria-Geral da República (PGR) e pediram a abertura de inquérito no Supremo Tribunal Federal (STF) contra Nikolas, Vorcaro e Thiago Rodrigues de Faria. Erika Hilton (PSOL-SP), por sua vez, apresentou notícia-crime à Polícia Federal e pediu que a atuação de Nikolas e de seu gabinete seja confrontada com as provas da Operação Rejeito.
As duas representações partem das mensagens e áudios revelados pela jornalista Juliana Dal Piva, mas avançam sobre questões diferentes. Lindbergh e Rogério querem que a PGR investigue se os voos bancados por Vorcaro fizeram parte de uma relação de reciprocidade que posteriormente interferiu na atuação parlamentar de Nikolas. Erika pede uma apuração mais ampla sobre a participação do deputado na defesa de interesses de pessoas e empresas ligadas ao esquema de mineração investigado pela PF.
Deputados pedem investigação sobre contrapartida aos voos
Na representação à PGR, Lindbergh e Rogério sustentam que o ponto central não é simplesmente saber se Vorcaro pagou os deslocamentos de Nikolas no segundo turno de 2022, mas descobrir se o benefício foi concedido em razão da futura função pública e depois utilizado para cobrar alinhamento do parlamentar.
Os deputados destacam que os voos ocorreram depois da eleição de Nikolas para a Câmara e antes de sua posse. Por isso, pedem investigação por possível corrupção passiva: o artigo 317 do Código Penal também alcança vantagens recebidas antes de o agente assumir a função pública, desde que relacionadas a ela.
A representação afirma que o episódio de abril de 2024 pode estabelecer justamente o nexo que precisa ser investigado. Quando Nikolas fez críticas que atingiam o Banco Master, Vorcaro afirmou a um interlocutor que havia bancado seus voos, mobilizou pessoas próximas ao parlamentar e perguntou se os dois continuavam “do mesmo lado”.
“Os elementos publicados descrevem uma relação de favores recíprocos entre financiador e parlamentar”, sustentam Lindbergh e Rogério. Na interpretação apresentada à PGR, “a vantagem indevida, nessa relação, são os voos. A contrapartida, a atuação parlamentar condicionada”.
“Esse áudio é a comprovação do que nós já vínhamos denunciando. Ainda na CPMI do INSS, eu já tinha exposto que Vorcaro emprestou o avião para Nikolas Ferreira sair fazendo campanha para Bolsonaro nas eleições, inclusive ao lado do pastor Valadão. Mas não consegui ir mais a fundo porque os bolsonaristas eram blindados pelo presidente e pelo relator da comissão. Relator esse que hoje é candidato a vice de Flávio Bolsonaro”, afirmou Rogério Correia.
Os deputados querem que a investigação verifique concretamente essa hipótese. Entre as diligências solicitadas estão a identificação de todos os voos de Nikolas desde 2022, quem os contratou e pagou e se Vorcaro ou empresas de seu grupo custearam outros deslocamentos do deputado, de integrantes do gabinete ou de pessoas próximas.
Também pedem que a PGR descubra se Nikolas efetivamente provocou a Corregedoria do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), medida que ele cogitou durante as críticas ao evento patrocinado pelo Master, e obtenha junto à plataforma X os registros de publicação e eventual exclusão de uma postagem sobre o caso.
“É preciso investigar até o fim. Não pode existir parlamentar amigo de banqueiro corrupto, nosso papel é fiscalizar. Se houve dinheiro, favores ou vantagens privadas em troca de atuação parlamentar, estamos diante de fatos gravíssimos que precisam ser esclarecidos pelo STF e pela PGR”, disse Correia.
A intenção é determinar se, depois das cobranças de Vorcaro, Nikolas “deixou de praticar atos que anunciara” ou retirou uma manifestação pública. A representação pede ainda a íntegra das conversas e áudios envolvendo Vorcaro, Nikolas, André Valadão, Flávio Carneiro, Ana Mattos e Thiago Faria e a avaliação da necessidade de afastamento dos sigilos bancário e telemático dos investigados.
Erika pede que PF investigue atuação do gabinete
A representação de Erika Hilton desloca o foco para outro ponto revelado pelas reportagens: o negócio minerário apresentado por Nikolas a Vorcaro em março de 2025.
O documento chama atenção para um dado funcional: Thiago Faria ainda era secretário parlamentar de Nikolas quando o deputado pediu ajuda ao banqueiro para seu “ativo minerário”. Segundo registros da Câmara citados pela deputada, ele permaneceu no gabinete até fevereiro de 2026.
Para Erika, isso exige investigar se recursos, contatos ou a influência do mandato foram utilizados em benefício do empreendimento privado. A parlamentar pede o levantamento de eventuais interações de Nikolas, Thiago ou outros integrantes do gabinete com órgãos responsáveis por mineração e licenciamento ambiental.
O pedido ganha outra dimensão porque o escritório de Thiago tinha contrato ligado à Mineração Topázio Imperial e à Gmais Ambiental, empresa inserida no universo investigado pela Operação Rejeito. A operação era estimada entre US$ 30 milhões e US$ 45 milhões, com previsão de participação de 25% do lucro para o escritório em caso de sucesso.
Erika pede ainda que a PF investigue se houve atuação mais ampla do gabinete em favor da rede. A representação cita uma notícia-crime apresentada por Nikolas contra Duda Salabert (PDT-MG), elaborada por Thiago a partir de informações fornecidas por João Alberto Paixão Lages, posteriormente apontado pela PF como uma das lideranças da organização investigada.
“O ponto novo consiste em determinar se Nikolas Ferreira integrava, promovia ou prestava suporte funcional a essa estrutura, pessoalmente ou por intermédio de seu assessor”, afirma Erika. A própria representação ressalva que os elementos disponíveis não provam que Nikolas conhecesse a natureza criminosa das atividades.
A deputada pede que a PF cruze as comunicações de Nikolas e Thiago com os acervos das operações Rejeito e Compliance Zero e apure se as ações do gabinete correspondiam a demandas discutidas entre os investigados.
Com Nikolas no exercício do mandato e diante do possível vínculo dos fatos com sua função parlamentar, Lindbergh e Rogério pedem que a investigação seja aberta perante o STF. Erika solicita que sua representação também seja encaminhada à PGR e submetida ao Supremo.