Por Carlos Villela
(Folhapress) – Uma suplente ao Senado pelo PT em Santa Catarina foi atingida por tiros de borracha durante um confronto com a Polícia Militar na noite de sábado (12), em Jaraguá do Sul.
A advogada Fernanda Klitzke, segunda suplente de Décio Lima (PT), disse ter sido agredida por policiais do 14º Batalhão de Polícia Militar de Jaraguá do Sul ao se apresentar como advogada para intervir em um conflito entre os agentes e um motorista denunciado por som alto.
Em nota, a Polícia Militar disse que os agentes enfrentaram uma reação agressiva após a abordagem policial. Segundo a instituição, a ação dos policiais será submetida a procedimento interno para análise.
Fernanda nega que tenha havido tentativa de reagir à abordagem e afirma que fez pedidos sucessivos de calma. Imagens registradas por pessoas próximas mostram a advogada sendo imobilizada, recebendo tiros de balas de borracha, um mata-leão e um chute.
Um vídeo mostra o momento em que ela é levada ao chão, atingida por dois disparos na região da perna.
“Em razão da complexidade da ocorrência e da necessidade do emprego do uso da força, a Polícia Militar informa que os fatos serão integralmente apurados pela Corregedoria-Geral da Polícia Militar de Santa Catarina, que adotará as providências necessárias à análise das circunstâncias da ocorrência e da atuação policial”, informou a corporação.
O incidente ocorreu durante uma festa de aniversário de militantes do PT, sigla que integra a chapa de Gelson Merisio (PSB) ao governo do estado.
A Polícia Militar disse que foi acionada por volta das 18h por uma moradora que relatou ter reclamado do som alto de um carro para um motorista e que o volume alto havia agitado seu filho, que possui transtorno do espectro autista. Ainda de acordo com a polícia, a denunciante disse que o motorista teria reagido de maneira agressiva e avançado em sua direção.
De acordo com a candidata, o carro chegou ao local com um jingle de campanha de Lula e desligou o som pouco depois.
Fernanda também contesta a versão da polícia de que a reclamação sobre o barulho teria sido motivada pelo filho da denunciante, que tem transtorno do espectro autista.
Segundo a candidata, no momento da reclamação, a mulher não mencionou o filho e disse apenas que o som alto a impedia de ouvir a própria TV.
O incidente entre os militantes e os policiais ocorreu cerca de uma hora e meia depois, quando a polícia chegou ao local. De acordo com a corporação, o dono do carro teria reagido de maneira agressiva à abordagem, ofendendo os policiais, que deram voz de prisão.
“Segundo os policiais, duas mulheres intervieram fisicamente na condução dos envolvidos. Em decorrência da intervenção, uma policial militar sofreu lesão na mão e posteriormente recebeu atendimento médico”, diz a nota da PM.
Segundo Fernanda, a agressão a ela começou quando se dirigiu aos policiais, apresentou-se como advogada e foi imobilizada com um mata-leão por uma agente.
“Um dos tiros que ele me deu na perna estava a uma distância de um braço. O meu braço estava no ombro dele quando isso aconteceu”, afirmou.
Ela acredita que o episódio teve motivação política. “Quanto mais as pessoas presentes falavam: ‘Solta ela, ela é uma candidata ao Senado, solta ela’, ele reagia com mais agressividade”, afirma Fernanda.
Ela diz que os agentes ironizaram a orientação política dela e dos outros detidos enquanto eram transportados à delegacia.
“Os dois policiais vinham fazendo comentários do tipo: ‘Ah, se você estivesse numa festinha verde e amarela, talvez não tivesse acontecido. Se fosse uma festa bolsonarista, a gente estaria junto.’ Comentários nessa conotação política.”
Além de Fernanda, o motorista alvo da denúncia original e outra militante petista foram conduzidos à delegacia, autuados por desacato, desobediência e resistência. Depois, foram liberados.
O PT nacional se manifestou em nota chamando o episódio de violência política. “É imprescindível uma apuração rigorosa, célere e transparente de toda a ocorrência, inclusive para esclarecer se houve qualquer motivação ou tratamento de natureza política”, diz o texto.
O presidente Lula (PT) ligou para Fernanda para prestar solidariedade no domingo (13). Segundo a advogada, ela também recebeu mensagens do senador Esperidião Amin (PP) e do deputado Carlos Chiodini (MDB), vice de João Rodrigues (PSD) na disputa pelo governo.
Já o governador Jorginho Mello (PL), favorito à reeleição, disse em vídeo que Fernanda tentou “tumultuar o trabalho” dos policiais e tentou tirar a arma de um deles. O deputado Sargento Lima (PL), aliado do governador, propôs uma moção de aplausos aos policiais na Assembleia Legislativa.
Nas redes sociais, Décio Lima, titular da candidatura ao Senado, chamou a fala de Jorginho de “inacreditável”.
“Mesmo com mais de 24 minutos de imagens mostrando policiais militares espancando Fernanda Klitzke com socos, chutes e disparos de bala de borracha à queima-roupa, Jorginho decidiu ignorar a agressão policial”, escreveu.
O TRE-SC (Tribunal Regional Eleitoral de Santa Catarina) e o MP (Ministério Público) emitiram notas afirmando que acompanham o caso.
A OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) de Jaraguá do Sul se manifestou em defesa de Fernanda e disse em nota que “nenhuma divergência ou circunstância pode legitimar o desrespeito à lei, tampouco justificar condutas marcadas por truculência, abuso ou excesso”.