Por Cleber Lourenço
Integrantes da campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) consideraram “muito ruim” o pedido de vista de Flávio Dino que interrompeu o julgamento da crise no STF e criticaram até a atuação de ministros indicados pelo petista. A avaliação nos bastidores é que a decisão prolongou uma “agonia” que, embora não esteja tirando votos de Lula, dificulta o avanço de sua candidatura à reeleição.
“O sentimento é de que a gente prolongou de forma desnecessária essa agonia e esse desgaste. Se é verdade que nós não estamos perdendo voto por conta do Supremo, também é verdade que a gente não está conseguindo avançar”, afirmou à reportagem um integrante da campanha.
O pedido de vista foi particularmente mal recebido.
“Foi muito ruim a decisão. Ela colaborou para manutenção da agonia”, disse outro interlocutor ouvido pela reportagem.
Na avaliação desse grupo, a saída deveria ser institucional: investigar as suspeitas que surgiram contra qualquer integrante da Corte, sem distinção. A leitura é que manter indefinidas as apurações alimenta uma crise que já ultrapassou os limites do Supremo e entrou na campanha eleitoral.
Incômodo chega aos ministros indicados por Lula
A insatisfação nos bastidores também alcança ministros escolhidos pelo próprio presidente. Um integrante da campanha classificou como “desnecessária e constrangedora, em uma medida, a atuação dos ministros que nós indicamos”.
Segundo ele, o ideal seria instaurar procedimentos para apurar “todo e qualquer ministro” sobre o qual existam suspeitas que justifiquem investigação. A posição é de que a resposta institucional não deve depender de quem indicou o magistrado nem de sua posição dentro do tribunal.
A crítica mostra uma diferença entre a preocupação eleitoral da campanha e as divisões jurídicas expostas pelo Supremo. Para os interlocutores ouvidos pela reportagem, interessa menos qual grupo de ministros prevalece na disputa interna da Corte e mais que as suspeitas sejam esclarecidas para evitar que o assunto permaneça indefinidamente no centro do debate político.
A avaliação eleitoral feita por esses integrantes é específica. Eles não identificam, até agora, perda de votos de Lula causada diretamente pela crise do STF. O receio é que a permanência do assunto na agenda dificulte o crescimento do presidente justamente quando a campanha busca ampliar sua base eleitoral.
“Ninguém está acima da lei”
Procurado pela reportagem, Marco Aurélio, um dos coordenadores da campanha de Lula, afirmou que a solução da crise deve partir do próprio Judiciário e dos instrumentos institucionais já existentes.
“Essa é uma crise do Poder Judiciário. Compete somente ao Poder Judiciário encontrar mecanismos institucionais para superá-la”, afirmou.
Marco Aurélio manifestou apoio ao presidente do STF, Edson Fachin, para conduzir as apurações e defendeu que eventuais suspeitas contra integrantes da Corte sejam investigadas.
“O ministro-presidente da Corte vai ter todo o apoio do presidente Lula e todo o nosso apoio para poder conduzir essas investigações, sobretudo em qualquer eventual integrante que esteja, porventura, envolvido com o Banco Master ou com um banqueiro que foi preso pelo nosso governo”, disse.
O coordenador da campanha foi além ao defender que a condição de ministro do Supremo não seja obstáculo para uma investigação.
“O que vale para Chico vale para Francisco. Ninguém está acima da lei: o filho do presidente, o próprio presidente, os nossos aliados, os nossos adversários e muito menos ministro da Suprema Corte.”
A declaração estabelece a posição pública da campanha diante da crise: cabe ao Judiciário resolvê-la, sem interferência do Executivo, mas isso não deve significar blindagem para integrantes do Supremo eventualmente envolvidos nas suspeitas.
Nos bastidores, porém, há pressa. A avaliação entre os integrantes ouvidos pela reportagem é que adiar respostas não protege a Corte nem ajuda o ambiente eleitoral. Ao contrário, mantém aberta uma crise que a campanha de Lula gostaria de ver resolvida institucionalmente e com investigação sobre qualquer ministro contra quem existam elementos que justifiquem apuração.