Por Iago Filgueiras
“Quem conta um conto, aumenta um ponto”. A frase é bem conhecida entre os brasileiros e frequentemente usada para falar de histórias que começam de um jeito, mas se modificam a cada pessoa que as conta. Uma espécie de telefone sem fio. Mas há outro aspecto que passa pelos “pontos” e influencia profundamente os “contos”: todo ponto de vista é a vista de um ponto.
Atribuída ao teólogo Leonardo Boff, a frase ajuda a lembrar que ninguém observa o mundo de lugar nenhum. E, na literatura, isso também é verdade. Quem escreve, escreve a partir das próprias experiências, do tempo em que vive e do lugar que ocupa na sociedade. Quem lê, também.
Talvez esteja aí uma das maiores potências da literatura: conhecer outras realidades, exercitar a reflexão e, por algumas páginas, observar o mundo a partir de outro ponto de vista. É isso o que torna os livros sobre o Brasil tão interessantes. Muito longe de resumir o país, eles nos permitem enxergar uma mesma sociedade a partir de diferentes lugares.
Pensando nisso, com a ajuda de Lindener Pareto Jr., historiador e curador acadêmico do Instituto Conhecimento Liberta, reunimos 10 livros sobre o Brasil que ajudam a conhecer o país a partir de diferentes perspectivas.
1. Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis

“Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver, dedico como saudosa lembrança estas memórias póstumas.” É assim que Machado de Assis apresenta Brás Cubas ao leitor. Publicado inicialmente em 1880, na Revista Brasileira, e em livro no ano seguinte, Memórias Póstumas de Brás Cubas tem um narrador inusitado: um morto.
Na condição de “defunto autor”, Brás Cubas revisita a própria vida com uma liberdade que os vivos talvez não tivessem. Amores, ambições, fracassos e relações sociais aparecem atravessados por um cinismo que transforma o narrador e a elite à qual pertence em alvos constantes da ironia machadiana.
O autor da obra, Machado de Assis, nasceu no Rio de Janeiro, em 1839, e acompanhou praticamente toda a segunda metade do Segundo Reinado. Negro e de origem pobre, viveu para assistir à abolição da escravidão e à queda da monarquia, tornando-se um dos principais nomes da literatura brasileira.
Brás Cubas, por outro lado, ocupa um lugar muito diferente na sociedade. Rico, ocioso e integrante da elite escravista, observa o mundo a partir dos privilégios de sua classe — e é justamente desse ponto que Machado constrói parte da crítica presente no romance.
Para Lindener, a obra “desmonta a hipocrisia da elite senhorial e escravista do Segundo Reinado”. Pelo cinismo do narrador, acrescenta, Machado expõe a convivência entre “o liberalismo de fachada e a violência do favor” em uma sociedade sustentada pela escravidão.
2. Os Sertões, de Euclides da Cunha

Publicado em 1902, Os Sertões nasceu da experiência de Euclides da Cunha como correspondente de O Estado de S. Paulo durante a Guerra de Canudos, conflito travado entre 1896 e 1897 no interior da Bahia. Republicano convicto, quando chegou à região, o jornalista e engenheiro teve suas certezas abaladas diante da violência empregada contra a população de Canudos.
Dividido em “A Terra”, “O Homem” e “A Luta”, o livro mistura reportagem, literatura, história, geografia e teorias científicas características de seu tempo. Ao reconstruir o conflito liderado por Antônio Conselheiro, Euclides expõe também a enorme distância existente entre o Brasil litorâneo, que se apresentava como moderno e republicano, e uma parcela do país praticamente desconhecida pelas elites.
As próprias contradições do autor fazem parte dessa leitura: algumas interpretações carregam ideias racialistas e deterministas comuns no final do século XIX, ao mesmo tempo que sua narrativa denuncia o massacre promovido em Canudos.
Para Lindener Pareto Jr., Os Sertões é “um misto de ensaio literário com sociologia política e uma grande interpretação do Brasil”.
Leia mais em: Guerra de Canudos: quando o misticismo e a desigualdade social se misturaram no jovem Brasil República
3. Macunaíma, de Mário de Andrade

Lançado em 1928, apenas seis anos depois da Semana de Arte Moderna, Macunaíma: o herói sem nenhum caráter ocupa um lugar importante na tentativa modernista de pensar o que poderia ser uma cultura brasileira. A primeira edição saiu em São Paulo e reuniu, em seu protagonista, referências indígenas, africanas, europeias, populares e urbanas.
Mário de Andrade foi um dos principais nomes do modernismo brasileiro. Escritor, pesquisador, crítico e estudioso da cultura popular, percorreu diferentes regiões do país, registrando manifestações, músicas, histórias e tradições que alimentariam sua reflexão sobre a identidade nacional.
É nesse ambiente que surge Macunaíma, personagem que atravessa diferentes territórios e chega a São Paulo em busca da muiraquitã — uma espécie de amuleto confeccionado por povos indígenas que habitavam o Baixo Amazonas — que havia perdido. No caminho, o romance embaralha geografias, idiomas, mitos e costumes, como se recusasse a encaixar o Brasil em uma identidade única e bem-comportada.
O próprio “herói sem nenhum caráter” não deve ser entendido simplesmente como alguém sem moral, mas como uma figura por meio da qual Mário questiona tentativas de definir um caráter nacional fixo.
Para Lindener, é “um livro da vanguarda modernista que interpreta São Paulo e a diversidade do Brasil e seu povo”.
4. Capitães da Areia, de Jorge Amado

Publicado em 1937, Capitães da Areia colocou “no centro da narrativa a infância marginalizada em Salvador”, segundo Lindener Pareto. O grupo que dá nome ao romance vive em um trapiche abandonado, pratica pequenos furtos e circula pela cidade enquanto enfrenta violência, abandono e repressão.
Jorge Amado nasceu na Bahia em 1912 e começou a publicar romances ainda jovem. Sua produção da década de 1930 foi fortemente marcada por questões sociais e pela militância política, em um período no qual desigualdade, autoritarismo e conflitos de classe ocupavam parte importante da literatura brasileira.
Em Capitães da Areia, os meninos frequentemente aparecem para as autoridades e parte da sociedade como um problema de segurança. A narrativa, porém, desloca o ponto de vista para dentro do grupo, mostrando afetos, medos, sonhos e diferentes trajetórias por trás daqueles que eram reduzidos à categoria de delinquentes.
É esse deslocamento que Lindener destaca. Para ele, a obra aborda “o abandono social, o encarceramento juvenil e a criminalização de corpos negros e pobres pelo aparato policial e religioso”.
5. Vidas Secas, de Graciliano Ramos

Publicado em 1938, Vidas Secas acompanha Fabiano, Sinhá Vitória, os dois filhos do casal e a cachorra Baleia enquanto atravessam o sertão nordestino fugindo da seca e da fome. Quando encontram uma fazenda abandonada, acreditam ter encontrado algum alívio. A chegada do proprietário, porém, coloca Fabiano novamente diante da exploração e da dependência.
Graciliano Ramos nasceu em Alagoas, em 1892, e viveu parte da infância e da juventude em diferentes cidades nordestinas. Escritor, jornalista e político, chegou a ser prefeito de Palmeira dos Índios e foi preso durante o governo de Getúlio Vargas, sob a acusação de envolvimento com a Intentona Comunista, experiência posteriormente narrada em Memórias do Cárcere.
Vidas Secas integra a chamada geração de 1930 do modernismo brasileiro, marcada pela atenção às desigualdades econômicas e sociais do país. No romance, a seca aparece, mas não é a única explicação da miséria: relações de trabalho, concentração fundiária, violência estatal e ausência de perspectivas também cercam os personagens.
Na definição de Lindener Pareto, trata-se de “um clássico, que mostra o Nordeste da seca e dos retirantes”.
6. Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa

Em 1956, uma obra publicada por João Guimarães Rosa se tornou um dos mais conhecidos livros sobre o Brasil. Grande Sertão: Veredas acompanha o longo relato de Riobaldo, antigo jagunço que reconstrói diante de um interlocutor silencioso sua vida no sertão, suas batalhas, dúvidas, crenças e a relação com Diadorim.
Mineiro de Cordisburgo, Rosa foi médico, diplomata e escritor. Sua experiência com o interior de Minas Gerais teve importância direta na construção da obra: em 1952, participou de uma viagem conduzindo uma boiada por mais de 200 quilômetros pelo sertão mineiro, registrando paisagens, vocabulários e histórias.
Mas o sertão de Rosa ultrapassa a geografia. Ao reinventar palavras e reunir diferentes modos de falar, o romance também observa relações de poder em um território no qual jagunços, proprietários, políticos e trabalhadores constroem suas próprias formas de autoridade.
Para Lindener, Grande Sertão é “mais que um épico metafísico”: é também “um tratado sobre o poder no sertão profundo”, marcado pelo jaguncismo, pela ausência da lei republicana, pelos pactos de lealdade e pela violência como instrumento de dominação privada.
Veja mais: A travessia de uma nação
7. Quarto de Despejo: diário de uma favelada, de Carolina Maria de Jesus

Durante anos, Carolina Maria de Jesus registrou em cadernos encontrados nas ruas o cotidiano da favela do Canindé, em São Paulo. Parte dessas anotações foi organizada pelo jornalista Audálio Dantas e publicada em 1960 como Quarto de Despejo: diário de uma favelada.
Nascida em 1914, em Sacramento, Minas Gerais, Carolina chegou a São Paulo em 1937. Morando no Canindé e criando os filhos, sustentava a família recolhendo papéis, metais e outros materiais recicláveis. Ao mesmo tempo, transformava em escrita a fome, os preços dos alimentos, as brigas, o cuidado, a política, a desigualdade e as contradições de uma cidade que se modernizava rapidamente.
É justamente de dentro da favela que a autora observa São Paulo. Não como alguém que descreve a pobreza de fora, mas como uma mulher negra e pobre que vive aquela realidade e interpreta a cidade a partir dela. Em uma das passagens da obra, faz uma constatação que segue atual: “quem inventou a fome são os que comem”.
Para Lindener, embora estruturada como diário, a obra funciona como uma “prosa testemunhal incontornável” e revela a “modernização excludente de São Paulo nos anos 1950 a partir da fome, da favela do Canindé e da subalternidade da mulher negra”.
Veja também: Quando fui Carolina Maria de Jesus e quase morro por isso
8. A Hora da Estrela, de Clarice Lispector

Último livro publicado em vida por Clarice Lispector, A Hora da Estrela chegou às livrarias em 1977. No centro da narrativa está Macabéa, uma jovem alagoana pobre que migra para o Rio de Janeiro, trabalha como datilógrafa e tenta sobreviver em uma cidade cujos códigos parecem ter sido criados sem que ninguém se preocupasse em explicá-los a ela.
A história, porém, não pertence apenas a Macabéa. Clarice cria o narrador Rodrigo S. M., que interrompe repetidamente o relato para questionar sua própria capacidade de escrever sobre uma mulher tão distante de sua realidade social. Assim, o livro fala também sobre quem tem o direito de contar uma história.
Nascida em 1920, na Ucrânia, e criada no Brasil desde a infância, Clarice construiu uma obra reconhecida principalmente pela investigação da subjetividade. Em A Hora da Estrela, essa dimensão se encontra de maneira especialmente evidente com questões sociais.
Na leitura de Lindener, a obra evidencia “a crise existencial de uma imigrante nordestina no Rio de Janeiro”.
9. Viva o Povo Brasileiro, de João Ubaldo Ribeiro

Publicado em 1984, Viva o Povo Brasileiro transforma quase quatro séculos de história em matéria para um extenso romance sobre a formação do país. João Ubaldo Ribeiro percorre diferentes períodos históricos e acompanha uma multidão de personagens ligados sobretudo à Bahia e à ilha de Itaparica.
Nascido em 1941, o escritor baiano passou parte da infância em Sergipe, mas manteve uma relação profunda com Itaparica, território que se tornaria fundamental em sua obra. Em Viva o Povo Brasileiro, fatos históricos aparecem misturados à ficção, ao humor, à oralidade e ao fantástico.
O resultado não é uma história oficial transformada em romance. É um livro sobre o Brasil que frequentemente desloca o foco dos grandes personagens tradicionalmente associados à construção nacional para indígenas, negros escravizados, trabalhadores e rebeldes, colocando diferentes concepções de um país em disputa.
Para Lindener, o romance forma um “painel histórico de quase quatrocentos anos que reescreve a formação do país sob a perspectiva dos vencidos”. Nessa leitura, indígenas, escravizados e rebeldes aparecem em “embate perpétuo contra as oligarquias dominantes”.
10. Torto Arado, de Itamar Vieira Junior

Se parte dos livros anteriores olha para diferentes momentos da história, Torto Arado é um dos livros sobre o Brasil que ajuda a perceber como algumas dessas histórias continuam deixando marcas no presente. Segundo Lindener Pareto, a obra “conecta as promessas não cumpridas da Lei Áurea à luta contemporânea pela terra na Chapada Diamantina”, expondo a persistência do trabalho análogo à escravidão e a presença do saber ancestral quilombola.
Escrito por Itamar Vieira Junior e publicado no Brasil pela primeira vez em 2019, o romance acompanha as irmãs Bibiana e Belonísia, moradoras de uma comunidade rural na Chapada Diamantina, na Bahia. Um acidente na infância une definitivamente suas trajetórias, que se desenvolvem entre relações familiares, espiritualidade, trabalho no campo e disputas pelo direito à terra.
Geógrafo e servidor do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) por anos, Itamar conheceu diferentes comunidades rurais durante sua atuação profissional. A experiência contribuiu para a construção de uma narrativa ambientada em um território marcado por relações de trabalho degradantes e pela luta de famílias que cultivam a terra sem terem reconhecida sua propriedade.
Entre a leitura da palavra e a leitura do Brasil
Paulo Freire, patrono da educação brasileira, escreveu que “a leitura do mundo precede a leitura da palavra”. Quem interpreta o faz a partir do mundo observado, vivido e disputado, assim como quem escreve também carrega consigo uma interpretação subjetiva sobre a realidade na qual está inserido.
Nos livros desta lista, o mundo aparece de formas muito diferentes, mas algumas questões atravessam décadas e séculos. A desigualdade, a concentração de poder, a violência, a fome, o racismo, a disputa pela terra e a exclusão social podem até mudar de forma, mas continuam reaparecendo. Ler essas obras hoje é perceber o quanto o Brasil se transformou e, ao mesmo tempo, o quanto muitas coisas continuaram iguais.
A literatura, nesse sentido, vai além de simplesmente registrar uma época. Ela funciona como um repositório, um arquivo vivo da memória, da cultura, dos saberes e das experiências humanas ao longo do tempo.
E, se cada pessoa chega a uma obra carregando um mundo próprio, trocar impressões sobre uma leitura pode tornar esse exercício ainda mais interessante. Às vezes, basta descobrir de onde o outro enxergou uma história para perceber algo que havia passado despercebido quando viramos a página sozinhos.