Pesquisas indicam que crise do STF parou de ampliar desgaste eleitoral de Lula

Atlas, Quaest e Datafolha mostram presidente numericamente à frente de Flávio Bolsonaro no primeiro turno; disputa direta, porém, continua aberta
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Por Cleber Lourenço

As três principais pesquisas eleitorais divulgadas nesta semana trazem uma boa notícia para o presidente Lula (PT): depois de semanas em que a crise envolvendo o STF pressionou seus números, não há sinal, por enquanto, de que esse desgaste continue se aprofundando.

AtlasIntel, Quaest e Datafolha, apesar das diferenças de metodologia, chegaram a uma fotografia parecida. Lula aparece numericamente à frente do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) no primeiro turno nas três pesquisas. Na simulação de segundo turno, os dois estão tecnicamente empatados.

Isso não significa que Lula tenha recuperado todo o terreno perdido nem que a crise tenha deixado de representar um problema para sua candidatura. Significa algo mais simples — e eleitoralmente importante: o movimento de deterioração não aparece nas rodadas desta semana.

Na Quaest, Lula passou de 36% para 37% no primeiro turno. Flávio foi de 31% para 33%. No Datafolha, o presidente oscilou de 39% para 40%, enquanto Flávio permaneceu em 36%.

A AtlasIntel encontrou Lula com 45,8% e Flávio com 43,4%.

Como todas essas oscilações precisam ser consideradas dentro das respectivas margens de erro, não é correto dizer que Lula voltou a crescer de maneira estatisticamente comprovada. Mas também não é correto olhar para os levantamentos desta semana e enxergar continuidade de uma queda.

E essa distinção importa.

Lula resiste no primeiro turno

Há uma coincidência relevante entre os três institutos.

Na Quaest, Lula tem 37%, contra 33% de Flávio. No Datafolha, 40% a 36%. Na AtlasIntel, 45,8% a 43,4%.

Os números absolutos são diferentes porque as pesquisas usam metodologias distintas e não devem ser tratadas como se fossem uma única série histórica. Mas todas apontam Lula numericamente à frente do adversário no primeiro turno.

A situação ganha importância quando comparada ao ambiente político das últimas semanas.

A crise no Supremo, alimentada pelas revelações relacionadas ao caso Master e pelo conflito aberto entre ministros, havia criado uma sequência de notícias negativas para o governo e colocado sob pressão a candidatura de Lula.

O próprio Datafolha mostrou anteriormente que 47% dos entrevistados acreditavam que a crise no STF teria alguma influência sobre seu voto para presidente. Para 36%, teria muita influência.

Era, portanto, razoável observar as pesquisas seguintes para saber se o desgaste continuaria avançando.

Até agora, isso não aconteceu.

Lula oscilou um ponto para cima tanto na Quaest quanto no Datafolha. Sua aprovação na Quaest também passou numericamente de 43% para 44%.

São movimentos dentro da margem de erro. O dado politicamente relevante não está no ponto ganho, mas na ausência de novas perdas.

O problema continua sendo o segundo turno

Se o primeiro turno permite uma leitura mais confortável para Lula, o segundo funciona como um freio para qualquer euforia.

É quando a eleição fica reduzida a Lula e Flávio que praticamente desaparece a pequena vantagem numérica observada no primeiro turno.

Na AtlasIntel, Lula tem 47,7%, contra 47,4% de Flávio.

Na Quaest, Flávio aparece com 42%, e Lula, com 41%.

No Datafolha, Lula marca 47%, contra 45% do senador.

Todas essas diferenças estão dentro das respectivas margens de erro.

A fotografia, portanto, é bastante clara: Lula chega ao fim desta semana resistindo melhor no primeiro turno, mas ainda sem construir uma vantagem estatisticamente definida sobre Flávio numa disputa direta.

No Datafolha há outro detalhe interessante. Na pesquisa anterior, Lula tinha 46% e Flávio, 44% no segundo turno. Agora aparecem com 47% e 45%.

Os dois ganharam numericamente um ponto. A distância permaneceu exatamente a mesma.

Mais do que uma migração significativa de um lado para outro, o resultado sugere, dentro das limitações de duas fotografias amostrais, uma disputa bastante cristalizada.

Uma eleição de dois blocos

Esse talvez seja o elemento mais importante das pesquisas.

Lula e Flávio estão muito distantes dos demais candidatos.

Na Quaest, Augusto Cury (Avante) aparece com 6%, Ronaldo Caiado (PSD), com 4%, e Renan Santos (Missão), com 3%. No Datafolha, Cury tem 5%, Caiado, 4%, e Renan, 3%.

A concentração também aparece quando os entrevistados são perguntados sobre a firmeza de suas escolhas.

Na Quaest, 79% daqueles que já escolheram um candidato dizem que seu voto é definitivo. No Datafolha, 80% afirmam estar decididos.

Não quer dizer que esses eleitores sejam incapazes de mudar de ideia até a votação. Pesquisa mede o que o entrevistado declara naquele momento. Mas mostra uma eleição em que boa parte do eleitorado já se enxerga dentro de um dos campos políticos.

As rejeições reforçam essa leitura.

Na Quaest, Flávio é rejeitado por 56% e Lula, por 55%. Na Atlas, são 50,6% para Flávio e 51,6% para Lula. No Datafolha, os dois têm 45%.

Os percentuais absolutos variam muito entre os institutos, mas dentro de cada pesquisa aparece o mesmo fenômeno: as rejeições de Lula e Flávio estão muito próximas.

A eleição não está sendo organizada apenas por quem cada brasileiro deseja colocar no Planalto. Está sendo organizada também por quem uma parcela relevante do eleitorado não quer ver lá.

Mulheres, evangélicos e Nordeste mostram onde está a disputa

Quando se abre a pesquisa por grupos sociais, aparecem divisões mais claras.

Lula tem desempenho numericamente maior entre mulheres. Flávio, entre homens.

No Datafolha, Lula marca 42% entre as mulheres, contra 33% de Flávio. Entre os homens, Flávio aparece com 39%, contra 37% do presidente.

A religião produz uma divisão ainda mais acentuada.

Entre católicos, o Datafolha mostra Lula com 45% e Flávio com 33%. Entre evangélicos, a relação se inverte: Flávio chega a 47%, contra 27% de Lula.

Quaest e Atlas também encontram essa mesma direção, embora com percentuais diferentes: Lula registra números maiores entre católicos, enquanto Flávio apresenta vantagem numérica expressiva entre evangélicos.

Geograficamente, a divisão mais evidente está entre Nordeste e Sul.

No Datafolha, Lula tem 55% no Nordeste, contra 25% de Flávio. No Sul, Flávio chega a 47%, e Lula tem 31%.

A Atlas também encontra Lula mais forte no Nordeste e Flávio no Sul.

São divisões que ajudam a explicar por que a eleição permanece tão apertada nacionalmente: os dois candidatos possuem bases bastante diferentes e consolidadas.

Há uma contradição importante nas pesquisas

Existe, porém, um ponto em que os institutos contam histórias completamente diferentes: renda.

O Datafolha encontra Lula com grande vantagem entre quem ganha até dois salários mínimos: 46% contra 32% de Flávio. Acima de cinco salários, ocorre o contrário: Flávio tem 43%, e Lula, 33%.

A Quaest também encontra Flávio numericamente mais forte entre eleitores de renda mais alta e Lula muito à frente entre beneficiários do Bolsa Família.

A Atlas apresenta praticamente o inverso.

Entre quem ganha até R$ 2 mil, Flávio aparece com 52,9%, contra 34,3% de Lula. Entre aqueles com renda superior a R$ 10 mil, Lula alcança 61,2%, contra 25,7% de Flávio.

Não é uma diferença pequena. É praticamente uma inversão da pirâmide eleitoral.

Isso recomenda cautela antes de concluir que Lula ou Flávio esteja conquistando determinada classe social. Os institutos usam metodologias diferentes: a Atlas trabalha com recrutamento digital aleatório, enquanto Datafolha e Quaest fazem entrevistas presenciais. Planos amostrais, ponderações e questionários também podem produzir diferenças.

Nesse ponto específico, portanto, há mais perguntas do que respostas.

A crise bateu no teto?

Essa é a questão que as próximas pesquisas poderão responder.

Os números desta semana permitem afirmar apenas que o desgaste eleitoral de Lula associado ao ambiente da crise no STF não continuou se aprofundando nas rodadas mais recentes.

Há inclusive pequenas oscilações positivas para o presidente em Quaest e Datafolha, embora dentro da margem de erro.

Isso é diferente de dizer que a crise passou.

A Atlas mostra que 52,3% dos entrevistados acreditam que a crise envolvendo o Supremo prejudica mais a candidatura de Lula, enquanto 20,8% dizem que prejudica mais Flávio. Trata-se da percepção dos entrevistados, e não de uma medição direta de transferência de votos, mas o dado mostra que o assunto continua associado a um risco eleitoral maior para o presidente.

A diferença é que esse risco, até agora, não está se traduzindo em uma nova rodada de deterioração de seus números.

Lula chega ao fim da semana numericamente à frente no primeiro turno nas três principais pesquisas nacionais divulgadas, mantém uma base eleitoral grande e interrompe, ao menos nessas fotografias, a sequência de sinais negativos.

Ao mesmo tempo, o segundo turno continua mostrando uma eleição completamente aberta.

A próxima rodada de Atlas, Quaest e Datafolha será especialmente importante justamente por isso. Se Lula mantiver ou melhorar seus números, haverá mais elementos para falar em estabilização depois da crise. Se voltar a cair, a leitura muda.

Por enquanto, o que os números permitem dizer é mais simples: o impacto apareceu, mas o aprofundamento do desgaste não.

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