Por Cleber Lourenço
Os advogados Marco Aurélio de Carvalho e Reinaldo Santos de Almeida, integrantes do grupo Prerrogativas, acionaram a Polícia Federal nesta sexta-feira (9) para pedir uma perícia urgente no áudio atribuído ao banqueiro Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, divulgado pela revista Veja com acusações contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A representação levanta suspeitas de que a gravação tenha sido adulterada, por meio de montagem de trechos ou uso de inteligência artificial, com a finalidade de interferir no segundo turno das eleições presidenciais, marcado para 25 de outubro.
No documento, ao qual o ICL Notícias teve acesso, os advogados afirmam ter recebido informações de que o áudio poderia ter sido produzido a partir da junção de gravações feitas em contextos diferentes ou mediante síntese de voz. Eles ressaltam que a suspeita ainda precisa ser comprovada e solicitam que o Instituto Nacional de Criminalística examine a autenticidade e a integridade do material.
A representação aponta que a gravação foi divulgada sem identificação de sua origem, data, local, interlocutor ou responsável pelo registro. Também não há informações sobre quem armazenou o arquivo e como ele chegou à imprensa.
Segundo os advogados, essas lacunas impedem, neste momento, a verificação da cadeia de custódia, procedimento que permite rastrear a origem e o percurso de uma prova para identificar eventuais alterações.
A reportagem da Veja atribui a Vorcaro declarações sobre supostos pagamentos relacionados à produção de um filme sobre Lula e negócios envolvendo o governo federal. O áudio também menciona o financiamento de uma produção sobre Jair Bolsonaro (PL).
As acusações, segundo a representação, já teriam sido apresentadas pelo banqueiro durante tentativas frustradas de colaboração premiada. A Procuradoria-Geral da República não deu andamento às tratativas por falta de provas que sustentassem os relatos.
Lula negou ter solicitado ou recebido vantagens do banqueiro, assim como ter autorizado terceiros a receber recursos em seu nome.
Data da gravação é um dos principais pontos questionados
Um dos elementos destacados pelos advogados é a cronologia das declarações atribuídas a Vorcaro.
Na gravação, a voz atribuída ao banqueiro compara os supostos pagamentos relacionados ao filme sobre Lula com o financiamento de uma produção sobre Bolsonaro. Ao mencionar o segundo caso, afirma que o dinheiro teria sido destinado por meio de um patrocínio regular.
A representação observa que essa explicação passou a ser apresentada publicamente por Flávio Bolsonaro (PL-RJ) depois de maio de 2026, quando vieram à tona informações sobre sua negociação com Vorcaro para financiar um filme sobre o pai.
O banqueiro, entretanto, está preso preventivamente desde março.
Por isso, os advogados consideram fundamental identificar quando a gravação foi produzida. Caso seja posterior à prisão, pedem que a PF investigue em quais circunstâncias ocorreu, quem participou da conversa e se houve autorização para realizar o registro dentro da unidade prisional.
Outro questionamento envolve a sequência das declarações. Em poucas frases, o áudio passa por referências ao Banco do Brasil, ao Instituto Lula, ao financiamento de um filme sobre o presidente e à produção sobre Bolsonaro.
O documento observa que a gravação apresenta hesitações, interrupções e um trecho inaudível. Embora essas características também possam ocorrer em uma conversa espontânea, os advogados sustentam que uma perícia é necessária para verificar se houve junção de segmentos diferentes.
Segunda representação em dois dias
O novo pedido complementa uma notícia-crime apresentada pelos mesmos advogados à Polícia Federal na quinta-feira (8).
Na primeira representação, os integrantes do Prerrogativas pediram a investigação de uma possível articulação entre Vorcaro e pessoas ligadas à campanha de Flávio Bolsonaro para interferir no segundo turno das eleições e obstruir investigações relacionadas ao Banco Master.
O documento mencionava informações sobre a possível circulação de um HD contendo depoimentos atribuídos ao banqueiro, com acusações contra adversários políticos de Flávio, integrantes do governo Lula e ministros de Estado.
Agora, os advogados solicitam que a PF compare o áudio divulgado pela Veja com o material mencionado na representação anterior, para determinar se existe relação entre os dois episódios.
Também pedem a identificação de quem teve acesso à gravação e de como ela chegou a terceiros.
A representação destaca que, caso o conteúdo tenha integrado negociações de colaboração premiada, sua divulgação sem autorização judicial pode configurar violação de sigilo, independentemente de eventual adulteração.
Os advogados ressaltam que a investigação não deve atingir a atividade jornalística nem o direito constitucional ao sigilo da fonte. Qualquer solicitação de material à revista, segundo o pedido, deverá ocorrer por cooperação voluntária.
Perícia deverá investigar cortes e uso de inteligência artificial
Entre as providências solicitadas está a localização de eventual arquivo original apresentado durante as negociações de colaboração premiada conduzidas pela PF e pela PGR.
Os advogados querem que os peritos analisem a continuidade do sinal, os ruídos de fundo, os metadados, os vestígios de compressão e possíveis sinais de inserção ou supressão de trechos.
Também solicitam uma comparação da voz atribuída a Vorcaro com registros de depoimentos oficiais do banqueiro, além de exames para identificar eventual utilização de voz sintética ou modificada por inteligência artificial.
A suspeita de edição também foi levantada pelo editor de vídeo e áudio do ICL Notícias, Cesar Degani, que apontou indícios de que o material publicado pela Veja teria passado por edição. A avaliação foi divulgada em seu perfil na rede social X.
A existência de cortes ou edições, isoladamente, não comprova fraude. A perícia solicitada pretende verificar se houve manipulação capaz de alterar o conteúdo ou o contexto das declarações atribuídas ao banqueiro.
A representação também menciona um episódio ocorrido em março deste ano, quando circulou nas redes sociais um vídeo produzido com inteligência artificial que simulava a voz de Vorcaro para atribuir a ele falsas confissões de pagamentos a Lula e ministros do Supremo Tribunal Federal. O conteúdo foi desmentido pela agência de checagem Aos Fatos.
Caso seja comprovada adulteração destinada a produzir falsas acusações ou interferir na disputa presidencial, os responsáveis poderão responder, conforme as circunstâncias apuradas, por crimes como fraude processual, imputação falsa de crime e delitos eleitorais relacionados à divulgação de informações sabidamente falsas.
Diante da proximidade do segundo turno, os advogados pedem que a PF produza um laudo preliminar sobre a autenticidade e a integridade do áudio no menor prazo possível, sem aguardar a conclusão de todos os exames. Também solicitam que as providências sejam comunicadas ao Supremo Tribunal Federal e ao procurador-geral eleitoral.