Giovana Mondardo: quem é o novo rosto da esquerda catarinense no Congresso

Com 115 mil votos, a deputada federal eleita pelo PCdoB promete combater a extrema-direita com projeto nacional de desenvolvimento
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Por Raphael Sanz – Sul21

O Brasil assistiu a um primeiro turno das eleições marcado por ampla vitória do bolsonarismo, seja na vantagem de Flávio sobre Lula, nos 12 governadores eleitos que declaram apoio ao candidato do PL ou na formação de um Congresso ainda mais conservador. E enquanto vivemos um segundo turno visceral, em que o lulismo corre atrás dos votos perdidos enquanto o filho de Jair tenta consolidar a liderança, alguns novos nomes da esquerda também vão surgindo nas brechas.

Nativos digitais, alguns deles foram eleitos para a Câmara de Deputados após campanhas em que demonstraram habilidade com as novas tecnologias. Entenderam a demanda popular e preferiram mirar no futuro e na juventude ao invés de apenas celebrar um passado de conquistas do presidente Lula (PT). Um desses nomes é o de Giovana Mondardo, do PCdoB, eleita deputada federal por Santa Catarina com quase 115 mil votos.

“Pretendo representar na Câmara dos Deputados uma nova esquerda, renovada, que possa falar dos avanços sociais dos últimos períodos, mas que busca novos avanços e possibilidades reais e concretas que melhorem as vidas das maiorias. Mais do que um enfrentamento vazio à extrema-direita, pretendo defender um projeto nacional de desenvolvimento que tenha a cara dos brasileiros”, declarou a deputada eleita.

Para ela, não basta simplesmente fazer oposição à extrema-direita no cotidiano dos parlamentos, mas dialogar com as principais demandas, sentimentos e necessidades do povo brasileiro, transformando tudo isso em um projeto coletivo.

“É preciso apresentar respostas novas. É sintomático que a nossa pauta tenha se reduzido a defender a soberania nacional enquanto a falta de projeto deles para o futuro do Brasil seja inclusive próxima da nossa. Me assusta não termos um projeto para os próximos 20 ou 30 anos. Por isso considero que ter um projeto nacional de desenvolvimento qualificado na geração de empregos, nas relações de trabalho e na indústria 4.0 é essencial para estabelecer um caminho para o país”, avalia.

Comunista, Giovana já havia sido a vereadora mais votada em Criciúma em 2024 e reconhece o fator conservador que demarca Santa Catarina nos últimos períodos. Mas lembra que foram os catarinenses, em 2002, os que proporcionalmente mais votaram em Lula, e aponta que, apesar da atual hegemonia de extrema-direita, os catarinenses vivem essa disputa diariamente.

O fato de Giovana ter se desenvolvido politicamente obrigada pelas circunstâncias a fazer oposição a figuras do bolsonarismo demonstra isso. A inquietação com o atual momento político do estado é, com certeza, um dos combustíveis de Mondardo e de outras novas figuras da esquerda catarinense que têm se elegido nos últimos anos para o parlamento estadual e as câmaras municipais.

“Quando a gente fala sobre Santa Catarina ter se tornado um Estado ultraconservador no último período, entendo isso como uma espécie de transição, um processo passageiro. Somos resultado da luta dos trabalhadores, do movimento sem terra, da Novembrada, da guerra do Contestado. Entendemos que libertar os nossos povos é uma solução inegociável e Santa Catarina tem isso na veia. É muito pujante a luta dos trabalhadores das minas de carvão, mineiros, sindicatos e as cooperativas, que são organizações sociais e coletivas que Santa Catarina tem de maneira exemplar. Atribuo a essa mudança política justamente o fato de estarmos vivendo um momento de transição que, na minha percepção, é resultado daquilo que eu acho que Santa Catarina faz de maneira muito latente, que é ser um Estado que rejeita o sistema. Eu acredito que a eleição do Lula em 2002 foi resultado disso, assim como a ascensão do bolsonarismo nos últimos períodos”.

Logo após o primeiro turno, ela foi convidada, ao lado de outros novos parlamentares eleitos de esquerda de todo o país, a integrar a equipe de comunicação do presidente Lula durante segundo turno. Questionada sobre o tema, aponta a necessidade de atualizar a mensagem do presidente e lembra que na última quinta-feira (8) o mandatário já gravou um vídeo na vertical falando com a câmera para as redes – e que seria um dos primeiros de sua vida. Octogenário, Lula sequer teria o hábito de usar um aparelho celular, conforme amplamente divulgado pelos meios de comunicação.

Giovana Mondardo nasceu em fevereiro de 1993 em Criciúma, cidade do sul catarinense que hoje tem cerca de 230 mil habitantes, a maior da chamada Região Metropolitana Carbonífera. Isso significa que a cidade e todo o seu entorno são um grande polo industrial que cresceu através da mineração de carvão e conta com indústrias têxtil, de embalagens, cerâmica, plástica e construção civil. Falamos de uma cidade construída a partir do orgulho de uma classe operária que viveu seu apogeu nos anos 70 e 80 e que desde que Mondardo nasceu vê seus ganhos e qualidade de vida reduzidos devido ao processo de desindustrialização vivido no Brasil.

Acompanhando esse processo ao longo de sua vida, é quase uma consequência lógica que ela defenda a necessidade de um projeto de desenvolvimento. Nesse contexto, faz uma crítica ao atual governador Jorginho Mello (PL). “É inaceitável que o governador não dialogue com o presidente da República que envia R$5 bilhões, desde 2023, para investimentos na indústria e nas empresas catarinenses, que são, vale dizer, a nossa fortaleza e motivo de orgulho”.

Suas raízes na cidade são amplas. Começam na torcida pelo Criciúma Esporte Clube que com frequência mostra nas redes sociais, e na ascendência italiana, principal grupo migratório que fundou o município. Mas além disso, toda a sua formação, desenvolvimento e vida política também foi ali. Cirurgiã-dentista e professora, formou-se em Odontologia na Universidade do Extremo Sul Catarinense (Unesc), onde também especializou-se em Atenção Básica e Saúde da Família, Gestão em Saúde e concluiu um mestrado em Saúde Coletiva. Depois, passou pelo serviço público. Feminista e defensora dos direitos humanos, começou sua militância no movimento estudantil.

“Comecei atuando por movimentos contra aumento da passagem de ônibus, por mais bolsas de estudos e também pela implantação do Restaurante Universitário na Unesc, onde me formei em odontologia. Na Unesc, conheci e entrei nos movimentos de mulheres, juventude e saúde, onde a transição pro PCdoB foi natural por entender a importância que o partido traz para o Brasil nas mais diferentes lutas”, contou.

Giovana Mondardo na Câmara dos Deputados. Foto: Reprodução

A comunista mais votada na cidade conservadora

Giovana começou sua carreira política oficialmente em 2020, quando concorreu pela primeira vez a uma cadeira como vereadora em Criciúma. Ganhou com um total de 2.430 votos.

“Nosso trabalho na Câmara de Vereadores de Criciúma começou em 2021 no período da pandemia. Tivemos voz para fiscalizar e lutar pela sonhada chegada da vacina. Nossa primeira lei fala sobre grupo reflexivo de homens agressores de mulheres. Nosso trabalho teve atuação muito forte no combate às violências contra as mulheres. Uma das nossas principais lutas, que era a construção de uma casa de acolhimento para mulheres em situação de violência, aconteceu neste ano depois de muita conversa, muita audiência e vontade política. Ainda na Câmara, fui autora da primeira Lei de distribuição de cannabis de Santa Catarina, um feito importante que segue em pesquisa e deve ser colocada em prática em breve”, relembra.

Em 2022 fez uma campanha curta, de apenas três meses, para a Câmara dos Deputados. Mesmo obtendo quase 40 mil votos, não foi eleita. “Aquele foi um ano para aprender como é fazer uma campanha estadualizada. E agora, em 2026, sinto que tenho a maturidade necessária para ganhar”, afirmou ao Sul21 em entrevista anterior ao pleito.

De volta a Criciúma após a campanha de 2022, cumpriu seu primeiro mandato como vereadora e candidatou-se à reeleição em 2024. Com 3.481 votos (3,29% do eleitorado), ela foi a vereadora mais jovem e a mais votada da cidade naquele ano. E a única de esquerda. Nos seis anos em que esteve na vereança aprovou quase 40 leis, entre elas a Lei Municipal 7868 que instituiu a Política de Prevenção e Combate à Violência Doméstica e Intrafamiliar.

Durante a campanha para reeleição em Criciúma em 2024, Mondardo foi processada pela primeira vez pela então candidata a prefeita Júlia Zanatta (PL), hoje a deputada federal mais votada em Santa Catarina com 560 mil votos. A partir daí enfrentou uma série de embates com Zanatta e outras figuras correlatas, ganhando maior notoriedade nas redes digitais.

Ela lamenta que a adversária tenha comemorado a vitória deste ano com um chicote em mãos, em alusão à escala 6×1 – cujo fim é uma das prioridades do seu mandato -, e analisa que o principal perdedor das eleições de 2026 em Santa Catarina foi a direita tradicional local. Argumenta que as esquerdas mantiveram a fatia minoritária do eleitorado dos últimos períodos, inclusive melhorando alguns números, enquanto políticos do chamado “centrão” – a dita “velha política” – embarcaram no bolsonarismo acabaram engolidos pelo mesmo.

Esperidião Amin (PP), político de longa data e respeitabilidade entre as elites locais pode ser o principal exemplo desse argumento. Ex-deputado federal (2011-2019), ex-governador (1983-1987 e 1999-2003), ex-senador (1991-1999 e 2019-2027) e ex-prefeito de Florianópolis (1975-1978 e 1989-1990), agora ficará completamente sem cargo pela primeira vez em muitos anos. Seu primeiro mandato como prefeito da capital foi ainda nos anos 1970, época em que era filiado à Arena. E foram raros os hiatos em sua carreira política como o que começará em 2027.

Para Mondardo existe uma reorganização política ocorrendo no Brasil, com novas percepções e desejos, que requer uma reformulação dos partidos e da política brasileira em geral. Da mesma maneira que ocorre na direita, com políticos mais jovens e com forte presença digital dominando a renovação do bolsonarismo no parlamento eleito, ocorre algo semelhante e em menor escala na esquerda.

Renato Freitas (PT-PR) e Jones Manoel (PSOL-PE) são figuras que ocupam esse espaço ao lado de Giovana na Câmara. E eles aparecem em um momento de enormes desafios no Congresso Nacional para parlamentares de esquerda, que serão minoria. Os desafios se apresentam mesmo no caso de uma vitória lulista no segundo turno.

“Entendemos que a direita perdeu esse espaço para a extrema direita ao longo dos anos. A direita civilizada tinha diálogo, pensava em debate para melhorar a vida da população. Hoje em dia, a extrema direita vive de ódio e pouco faz visando a população, somente pensando em seus interesses. Pretendo atuar com um projeto de desenvolvimento nacional, apresentando projetos e ações que abracem todas as áreas do desenvolvimento: saúde, tecnologia, mercado de trabalho, sem esquecer, claro, da formação da juventude e de termos melhores condições para os trabalhadores e trabalhadoras, começando, muito antes da posse, na luta pelo fim da escala 6×1, escala essa tão prejudicial para o trabalho brasileiro”, avalia.

Ao mesmo tempo, diz não ter disposição para conversar com setores que fazem discursos anti-vacina, a favor de armas e “com quem destina emenda para clube de tiro”. Giovana vê com preocupação a normalização que a extrema direita conseguiu no cenário político brasileiro, em especial no seu Estado, e a velocidade com que vai se adaptando às diferentes demandas do debate público contemporâneo. Para ela, essa repactuação política envolve o combate a essas ideologias.

“Um dos reflexos disso é esse movimento masculinista, que é trazido de uma subcultura nos Estados Unidos muito potencializada pelo próprio Donald Trump, que agora tenta influenciar nossas eleições. O trumpismo, o bolsonarismo e as extremas direitas em geral têm incentivando influenciadores desse tipo, inclusive no Brasil, e esses caras depois se colocam a disposição como candidatos nas eleições. Não podemos hoje descartar a ideia de que em 2027 haja uma espécie de bancada de redpill no Congresso Nacional, e isso é assustador”.

Ana Paula Lima e Pedro Uczai (PT-SC)
Ana Paula Lima e Pedro Uczai (PT-SC)

Ao todo Santa Catarina conta com 16 representantes na Câmara dos Deputados, dos quais 9 foram reeleitos. Mondardo está entre os 7 estreantes. Também está em outra minoria: a de parlamentares de esquerda. Além dela, foram reeleitos Ana Paula Lima (PT) e Pedro Uczai (PT), figuras de longa data da esquerda catarinense.

Ana Paula Lima fez 201 mil votos e só perdeu para Júlia Zanatta, tendo sido a segunda deputada mais votada no estado. Nascida em 1964 e natural de Curitiba (PR) mudou-se para Santa Catarina na juventude, onde formou-se em enfermagem e obstetrícia na Universidade do Vale do Itajaí (Univale). Filiou-se ao PT em 1987 para ser a primeira mulher residente em Blumenau eleita deputada estadual (2003-2019). Após bater na trave em 2018, elegeu-se pela primeira vez para a Câmara dos Deputados em 2022.

O professor Pedro Uczai, por sua vez, fez 164 mil votos – o terceiro mais votado. Foi deputado estadual por três mandatos, vice-prefeito (2001) e então prefeito de Chapecó (2002-2004). Na Câmara dos Deputados desde 2011, acaba de ser eleito para o seu quinto mandato.

Veja a lista completa dos deputados federais eleitos por SC:

  1. Júlia Zanatta (PL), 560.223 votos (13,15%), reeleita
  2. Ana Paula Lima (PT), 201.377 votos (4,73%), reeleita
  3. Professor Pedro Uczai (PT), 164.389 votos (3,86%), reeleito
  4. Jair (Renan) Bolsonaro (PL), 131.555 votos (3,09%)
  5. Sargento Lima (PL), 128.333 votos (3,01%)
  6. Pezenti (MDB), 125.010 votos (2,93%), reeleito
  7. Gilson Marques (Novo), 117.197 votos (2,75%), reeleito
  8. Giovana Mondardo (PCdoB), 114.792 votos (2,69%)
  9. Júlio Garcia (PSD), 114.391 votos (2,69%)
  10. Daniela Reinehr (PL), 96.253 votos (2,26%), reeleita
  11. Zé Milton (PP), 93.005 votos (2,18%)
  12. Paulinha (Podemos), 92.598 votos (2,17%)
  13. Zé Trovão (PL), 89.830 votos (2,11%), reeleito
  14. Ricardo Guidi (PL), 78.698 votos (1,85%), reeleito
  15. Daniel Freitas (PL), 76.458 votos (1,79%), reeleito
  16. Geovania de Sá (Republicanos), 74.603 votos (1,75%)
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