ouça este conteúdo
00:00 / 00:00
1x

O ator Wagner Moura, o diretor Kleber Mendonça Filho e outros profissionais brasileiros do cinema divulgaram uma carta aberta manifestando preocupação com o segundo turno das eleições presidenciais, marcado para 25 de outubro. O documento pede atenção da comunidade internacional ao processo eleitoral brasileiro e aponta riscos à democracia, à liberdade de expressão e ao setor audiovisual.

Publicada inicialmente pela revista norte-americana Variety, no sábado (10), a carta também reúne assinaturas de Fernando Meirelles, Petra Costa e Rodrigo Teixeira, produtor de Ainda Estou Aqui, vencedor do Oscar de melhor filme internacional. Os signatários são integrantes da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, responsável pela premiação.

No manifesto, os profissionais citam propostas do candidato Flávio Bolsonaro (PL), denúncias de possível interferência estrangeira e suspeitas de irregularidades nas plataformas digitais. O grupo pede que a imprensa internacional acompanhe a eleição e que as autoridades investiguem as denúncias de maneira independente.

Carta cita propostas de Flávio Bolsonaro e suspeitas de interferência

Um dos principais pontos de preocupação apresentados pelos signatários é a proposta atribuída a Flávio Bolsonaro de reescrever a Constituição de 1988, promulgada após o fim da ditadura militar. O manifesto também menciona a promessa do candidato de conceder anistia ao ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado por participação na trama golpista após as eleições de 2022.

Os profissionais destacam ainda uma reportagem do jornal britânico The Guardian sobre recursos do governo dos Estados Unidos destinados a um programa voltado ao combate ao que seus responsáveis classificam como perseguição judicial e censura no Brasil.

O documento também cobra investigação sobre relatos de redução do alcance de publicações políticas nas plataformas da Meta, incluindo dificuldades de acesso, visibilidade e impulsionamento de conteúdos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no Instagram.

Essas situações são apresentadas pelos autores como denúncias que precisam ser esclarecidas, e não como irregularidades já comprovadas.

Profissionais temem impactos sobre o cinema brasileiro

A carta também relaciona as preocupações políticas à situação do setor cultural. Os signatários recordam medidas adotadas durante o governo Jair Bolsonaro, como a extinção do Ministério da Cultura, as restrições ao financiamento audiovisual e o enfraquecimento de instituições culturais.

O grupo manifesta receio de que políticas de austeridade e eventuais mudanças na condução do setor comprometam o financiamento de produções nacionais e a liberdade de expressão.

Ao final, os profissionais pedem que veículos estrangeiros acompanhem o segundo turno com rigor, que a comunidade audiovisual internacional participe do debate e que as autoridades responsáveis apurem as denúncias de forma transparente.

Leia a carta na íntegra

“Nós, profissionais brasileiros do cinema e integrantes da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, manifestamos nossa preocupação com o atual clima político no Brasil e pedimos atenção internacional para o segundo turno da eleição presidencial, marcado para 25 de outubro.

A diferença entre os dois candidatos no primeiro turno foi de apenas 1,87 ponto percentual, o que reflete um país profundamente dividido. Acompanhamos com apreensão sinais de desrespeito às normas democráticas, incluindo denúncias de suposta interferência estrangeira no Brasil que exigem apuração transparente e escrutínio internacional.

O jornal The Guardian revelou que o governo dos Estados Unidos destinou cerca de US$ 1 milhão, por meio de um fundo de direitos humanos do Departamento de Estado, ao programa “Combate ao Lawfare e à Censura no Brasil”.

Ao mesmo tempo, observadores de mídia alertam para distorções no alcance de conteúdos políticos nas plataformas da Meta e cobram investigações. Entre os casos citados estão os perfis no Instagram do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que registraram queda de alcance, dificuldades de acesso, menor visibilidade em buscas e bloqueio para o impulsionamento de publicações pagas. Outro caso envolve um site sediado nos EUA que promove a venda de anúncios em apoio ao candidato Flávio Bolsonaro em troca de criptomoedas, sob a promessa de ajudar crianças vulneráveis na Uganda. A Polícia Federal do Brasil também investiga suspeitas de compra de votos com dinheiro em espécie em áreas rurais.

Propostas do candidato Flávio Bolsonaro exigem análise rigorosa, como a promessa de reescrever a Constituição de 1988, marco do fim da ditadura militar e da redemocratização do país. Segundo o candidato, a nova Carta Magna seria elaborada por um Congresso com maioria de extrema-direita. A declaração gera profunda preocupação diante da tentativa de golpe de Estado atribuída ao ex-presidente Jair Bolsonaro, pai do candidato. O plano previa os assassinatos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do vice-presidente Geraldo Alckmin. Preso por envolvimento no caso, Jair Bolsonaro pode ser beneficiado por anistia, apontada pelo filho como seu primeiro ato de governo.

Nossa preocupação se agrava pela forma como parte da grande imprensa brasileira tem naturalizado esses fatos, sem tratar com a gravidade necessária as denúncias contra Flávio Bolsonaro e os crimes atribuídos ao seu pai. Além da tentativa de golpe, Jair Bolsonaro foi denunciado ao Tribunal Penal Internacional, em Haia, pelas mais de 600 mil mortes por COVID-19 registradas no Brasil durante a pandemia, em razão de ações e omissões de sua gestão. A denúncia aponta que mais de metade dos óbitos poderia ter sido evitada.

O governo anterior também marcou o retorno do Brasil ao Mapa da Fome da ONU. Agora, o filho do ex-presidente promete cortes na previdência social inspirados na política de austeridade do governo de Javier Milei, na Argentina. A omissão ou a minimização desses fatos desinforma a população e enfraquece a defesa da democracia.

Como profissionais da cultura, conhecemos o impacto dessas medidas de austeridade no setor. Na gestão anterior, a indústria audiovisual brasileira sofreu com a extinção do Ministério da Cultura, o congelamento do Fundo Setorial do Audiovisual, o enfraquecimento de instituições culturais e denúncias de censura. Tememos o retorno desse cenário. Garantir a liberdade de expressão e a sustentabilidade do audiovisual brasileiro é indispensável para a defesa da democracia.

Entendemos que os acontecimentos no Brasil integram um quadro mais amplo de suspeitas de interferência eleitoral na América Latina. Por isso, a proteção da democracia brasileira exige não apenas eleições livres, justas e transparentes, mas também a vigilância e o engajamento da comunidade internacional.

Conclamamos a imprensa internacional a cobrir este processo eleitoral com rigor, a comunidade audiovisual global a amplificar este debate e as autoridades competentes a investigar todas as denúncias de forma independente.”

Carregar Comentários
Assine nossa newsletter
Receba nossos informativos diretamente em seu e-mail