Por Guilherme Pavarin
Um relatório publicado em outubro pelo Sleeping Giants Brasil, organização sem fins lucrativos que atua no combate à desinformação e na responsabilização de plataformas digitais, encontrou indícios de favorecimento algorítmico ao conteúdo do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) no Instagram.
A partir de uma amostra de 300 vídeos de 30 perfis coletados em 11 de outubro, o levantamento concluiu que os conteúdos do congressista apresentaram desempenho muito superior ao de outros políticos e de algumas das maiores contas do Brasil e do mundo, como Neymar, Anitta e Selena Gomez — todos com bases de seguidores maiores que a do deputado.
Segundo os autores do estudo, o desempenho do deputado mineiro foi 17,2 vezes superior ao valor típico dos outros nove deputados da amostra, 29,3 vezes ao dos dez maiores perfis brasileiros e 33,7 vezes ao das dez maiores contas mundiais analisadas.
A principal anomalia, de acordo com o relatório, está na constância. O desempenho de Nikolas não foi puxado por um único vídeo viral: todas as dez publicações analisadas superaram o número de seguidores do deputado, e a variação entre elas foi baixa. O padrão não se repetiu em nenhum outro perfil da amostra.
O estudo chama atenção para o fato de que parte dos vídeos foi publicada durante o período eleitoral, época em que a Meta afirma limitar a recomendação de conteúdo político a usuários que não seguem a conta. No Brasil, a Resolução nº 23.732/2024, do TSE, determina que perfis de candidatos e seus conteúdos fiquem fora dos sistemas de recomendação das plataformas. A exceção é a propaganda eleitoral impulsionada.
Esse tipo de anúncio, porém, deve constar de um repositório público, com informações como valor gasto, responsável pelo pagamento e público atingido. Na Biblioteca de Anúncios da Meta, os pesquisadores não encontraram nenhum impulsionamento feito pelo perfil oficial de Nikolas em 2026.
A busca pelo nome do deputado na mesma biblioteca retornou cerca de 4.500 anúncios de outras contas no período eleitoral, inclusive de candidatos do PL. O estudo não conseguiu determinar se essa publicidade teve efeito sobre os vídeos analisados.
O que pode explicar a diferença
O relatório ressalta que medir favorecimento no Instagram é difícil porque pesquisadores externos não têm acesso aos dados internos da plataforma. O número público de visualizações não mostra quantas pessoas diferentes viram cada vídeo nem permite saber de onde vieram as reproduções. Também não é possível separar o peso do algoritmo de fatores como compartilhamentos, circulação fora da rede e mídia paga.
Diante dessa limitação, os autores trabalham com quatro hipóteses, que podem se combinar: favorecimento pelo sistema de recomendação do Instagram; bom desempenho recorrente dos próprios vídeos; circulação organizada em redes de compartilhamento, como WhatsApp; e promoção paga ou coordenada por terceiros.
A primeira é a hipótese investigada pelo estudo: o Instagram estaria beneficiando a distribuição dos vídeos de Nikolas. Os dados são compatíveis com essa possibilidade, segundo os autores, mas não bastam para comprová-la. A segunda é que os conteúdos do deputado tenham desempenho excepcional de forma constante e, por isso, sejam mais recomendados pela plataforma sem tratamento diferenciado.
As duas últimas hipóteses, afirmam os autores do estudo, são mais difíceis de medir. Os vídeos podem ganhar alcance por meio de WhatsApp, mensagens privadas e redes de perfis aliados ou ser promovidos por outras contas. Como o levantamento não consegue rastrear essas formas de circulação, os autores tratam o resultado como indício, e não como prova de favorecimento.
A íntegra do levantamento “Visualizações de Reels e indícios de favorecimento algorítmico: o caso Nikolas Ferreira no Instagram” pode ser lida aqui.