Por Caio Spechoto, Fernanda Brigatti e Augusto Tenório
(Folhapress) – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) disse nesta sexta-feira (16) que é mentirosa a afirmação de que o fim da escala de seis dias de trabalho por um de descanso causará crise e quebrará empresas.
O petista deu a declaração no plenário do Senado, durante a promulgação da emenda constitucional que reduz a jornada de trabalho e determina que haja dois dias de descanso semanal -projeto conhecido como fim da escala 6×1.
Lula mencionou o impacto dos avanços tecnológicos dos últimos 50 anos e outras mudanças econômicas. “Tentar jogar nas costas do povo trabalhador que está reivindicando um dia de descanso a mais a responsabilidade por uma crise é mentira”, declarou.
O chefe do governo também afirmou que, em casos excepcionais, a jornada de trabalho pode ser debatida.
“Apareceu um problema em uma categoria especial? Discute com aquela categoria especial. Ninguém quer que empresa quebre. Ninguém aqui deseja que uma empresa quebre. Mas também ninguém quer que um trabalhador morra por falta de descanso”, disse.
Mudanças históricas
O petista mencionou a instituição das férias de 20 dias, anterior aos atuais 30 dias, no início do século 20 e outras mudanças implementadas posteriormente na legislação trabalhista.
“Eu lembro da campanha do 13º salário, no começo dos anos 1960. Mesma coisa: ‘vai quebrar as empresas, vai afundar as empresas, no mundo inteiro não tem isso’. Não quebrou as empresas”, disse ele.
Lula fez o discurso ao lado dos presidentes do Senado e da Câmara, respectivamente Davi Acolumbre (União-AP) e Hugo Motta (Republicanos-PB), seus aliados.
A solenidade teve, em diversos momentos, tom de ato em apoio ao presidente, que disputa a reeleição. Uma apoiadora nas galerias do plenário, por exemplo, gritava “Lula, eu te amo”. O petista foi saudado com o grito “olê olê olê olá, Lula, Lula” por agentes de saúde ao chegar ao plenário -a cerimônia também incluía a promulgação de uma emenda à Constituição que estipula aposentadoria especial para a categoria.
Fim da escala
O fim da escala 6×1 é um dos principais temas da campanha de reeleição de Lula, que terminou o primeiro turno com menos votos que seu principal adversário, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). O presidente da República tenta uma virada inédita no segundo turno.
Além de dar declarações voltadas ao público em geral, o petista dedicou parte de seu discurso a transmitir recados ao mundo político.
Lula se coloca como o candidato do campo democrático, em contraposição à trama golpista pela qual o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), pai de Flávio, foi condenado. Em determinado momento, o petista levantou um exemplar da Constituição emulando o gesto de Ulysses Guimarães em 1988, quando a Carta Magna foi promulgada.
“Muitas vezes é ruim a nossa convivência por conta da divergência, mas sem ela seria muito pior. Efetivamente muito pior. Se eu não pudesse divergir de vocês, e vocês não pudessem divergir comigo, eu fosse autoritário e você fosse autoritário, a democracia estava sendo jogada no lixo”, declarou Lula.
O chefe do governo também mencionou o tempo que ficou rompido com Alcolumbre depois de indicar o advogado-geral da União, Jorge Messias, para uma vaga no STF (Supremo Tribunal Federal) e ele ser rejeitado em uma articulação do presidente do Senado, sem mencionar o motivo do rompimento.
“Outro dia parecia que eu e você éramos dois inimigos”, disse Lula a Alcolumbre. “Eu não fui avisado disso”, respondeu o senador fora do microfone. O petista continuou o raciocínio.
“De vez em quando tem uma futrica colocando a inimizade entre o presidente da República, deputado, senador. Isso é uma bobagem. Quando a gente ganha as eleições, a gente tem que governar. E quando a gente vai governar, a gente governa com as instituições existentes, que não fui eu que criei”, disse Lula.
“Não fui eu que elegi a Câmara, não fui eu que elegi o Senado. O povo que elegeu, da mesma forma que elegeu o presidente da República. O voto de um não é melhor do que o voto de outro. São todos iguais, é o mesmo povo que está votando”, declarou ele.
Caso consiga uma virada na eleição presidencial e obtenha mais um mandato à frente do Palácio do Planalto, Lula encontrará um cenário adverso no Congresso. O bolsonarismo aumentou sua força, principalmente no Senado.