Da demonização de Lula à guerra espiritual: como a extrema direita mobiliza a fé

Ataques que associam Lula ao diabo atravessam décadas e ganham alcance nas redes, onde o medo religioso alimenta a disputa eleitoral
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Por Felipe Rabioglio e Schirlei Alves

A disputa pela Presidência da República não ocorre apenas no campo das propostas econômicas, dos programas sociais ou das políticas públicas. Na campanha de 2026, setores da extrema direita recorrem à religião para apresentar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) como uma ameaça à fé cristã. Em discursos, vídeos e publicações nas redes sociais, o adversário político deixa de ser alguém com ideias diferentes e passa a ocupar o lugar do mal, enviado pelo diabo, que precisa ser combatido.

A estratégia aparece nas declarações de lideranças religiosas e de políticos ligados ao bolsonarismo. Em maio, Flávio Bolsonaro (PL) afirmou que Lula estava “com o diabo”, enquanto seus aliados estariam “com Deus”. No mês seguinte, durante a Marcha para Jesus, o candidato à Presidência classificou a disputa como uma “guerra espiritual” e disse que o mal seria expulso do governo naquele ano.

Em outubro, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) determinou que Pablo Marçal removesse um vídeo com falas manipuladas de Lula sobre religião, publicado no Instagram. A decisão também ordenou que a Meta retirasse o conteúdo do ar, sob pena de multa diária de R$ 10 mil. A ação foi movida pela coligação Brasil Pronto pra Mais contra Marçal e Flávio Bolsonaro (PL).

No mesmo período, o pastor Silas Malafaia chamou Lula de “filho do diabo”, após críticas do presidente à Igreja Batista da Lagoinha, cuja unidade, em Belo Horizonte, era administrada por Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro, ex-banqueiro do Banco Master, e apontado por investigadores como operador financeiro do esquema ligado ao banco.

O uso desse discurso, entretanto, não começou com o bolsonarismo. A associação de Lula ao comunismo, à perseguição religiosa e a uma suposta ameaça às igrejas já fazia parte da disputa eleitoral de 1989, quando o petista enfrentou Fernando Collor no segundo turno. A diferença é que a narrativa antes disseminada por púlpitos, reuniões e panfletos agora circula em escala muito maior, impulsionada por plataformas digitais e ferramentas de inteligência artificial.

Para Rafaela Marques, jornalista e doutora em sociologia pela USP (Universidade de São Paulo), que pesquisa a mobilização de comunidades religiosas por meio da desinformação, essa estratégia precisa ser compreendida pela combinação entre religião, política e ambiente digital. A mobilização de afetos religiosos se conecta a práticas de comunicação que exploram emoções, medos e percepções de ameaça.

Uma estratégia que atravessa gerações

Magali Cunha, pesquisadora do Iser (Instituto de Estudos da Religião), explica que a construção de Lula como inimigo religioso acompanha sua trajetória presidencial desde a redemocratização. Na primeira eleição direta para presidente após a ditadura militar, setores religiosos difundiam a ideia de que um governo petista representaria a chegada de um presidente comunista disposto a perseguir as igrejas.

Naquele período, as acusações eram disseminadas por lideranças religiosas durante cultos e encontros comunitários, além de materiais impressos, muitos deles sem autoria identificada. Segundo Magali, a chegada das plataformas digitais não criou essa narrativa, mas ampliou seu alcance e sofisticou os mecanismos utilizados para reproduzi-la.

“Não há diferença entre a demonização de 1989 e a demonização de hoje. A diferença é o alcance e a sofisticação que as mídias digitais proporcionam”, afirma.

Um exemplo dessa transformação ocorreu em fevereiro deste ano, quando o PL divulgou um vídeo produzido com inteligência artificial que retratava Lula como um demônio, acompanhado de acusações contra o governo. A publicação levou o PT a acionar o Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Para Magali, esse tipo de discurso também altera o conteúdo da disputa política. Ao apresentar um candidato como representante do mal, a campanha deixa de confrontar apenas projetos de governo e passa a estimular a rejeição baseada em valores religiosos e sentimentos de ameaça.

“Quando o adversário é transformado em inimigo, inimigo que tem que ser abatido, aniquilado, destruído, como um representante do mal, isso de fato desloca o debate eleitoral”, afirma a pesquisadora.

Rafaela Marques ressalta, porém, que a demonização de adversários não deve ser atribuída automaticamente a uma doutrina religiosa específica. Para ela, o fenômeno está mais relacionado ao ambiente digital e às práticas de persuasão emocional do que necessariamente a uma interpretação teológica.

“Ela é, eu diria, que mais efeito do ambiente digital e das práticas de apelos emocionais e persuasivas do que necessariamente associada a uma teologia específica”, afirma.

Por que o discurso religioso encontra espaço na política?

Maria Clara Barreto, mestre e doutoranda em Ciência Política pelo IESP-UERJ (Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro), explica que a força dessas narrativas está relacionada ao papel da religião na construção das identidades e dos vínculos sociais. Para além das crenças individuais, as comunidades religiosas também organizam relações de pertencimento e confiança.

Isso ajuda a compreender como conteúdos políticos podem circular entre eleitores sem aparecer necessariamente como propaganda de campanha. Uma mensagem compartilhada por alguém da igreja, por um familiar ou por uma liderança religiosa pode chegar acompanhada da credibilidade construída nessas relações.

Em agosto, Flávio Bolsonaro e a deputada Bia Kicis (PL-DF) repercutiram um vídeo que apresentava Lula como alguém que não acreditava em Deus. A gravação havia sido retirada de contexto: o presidente dizia “há gente que não acredita em Deus”, mas a edição dava a entender que ele falava sobre si próprio.

Para Maria Clara, a influência dessas mensagens está diretamente ligada às relações de confiança construídas nas comunidades religiosas. A pesquisadora explica que o conteúdo político pode chegar ao eleitor não como propaganda de uma campanha, mas por meio de familiares, amigos ou pessoas da igreja, o que pode conferir maior credibilidade à mensagem.

“Não é que o evangélico seja mais suscetível à desinformação. O que é interessante é perceber que comunidades religiosas também funcionam como rede de circulação de informação de confiança”, afirma.

Essa circulação se articula com uma lógica mais ampla das plataformas digitais. Segundo Rafaela, as redes são orientadas por mecanismos de publicidade, segmentação e estímulos emocionais, que organizam os conteúdos recebidos de acordo com características, preferências e crenças dos usuários. Grupos de oração e outras redes de sociabilidade religiosa também podem reproduzir essa dinâmica.

“Essas formas de sociabilização, que estão presentes tanto nas igrejas, como nos grupos de WhatsApp, de oração, e as células digitais, obedecem e se conformam a mesma lógica de redes, que é uma lógica impulsionada pelo consumismo, pela publicidade, pela persuasão.”

Na avaliação da pesquisadora, a influência não depende apenas de uma publicação viral. A circulação persistente de mensagens pode consolidar determinadas percepções ao longo do tempo, incorporando-as às conversas cotidianas. Ela cita como exemplo discursos sobre uma suposta crise econômica, que podem alimentar a expectativa de que o país está prestes a entrar em colapso.

“Mas o problema está mais na capilaridade, na forma como se difunde esse sentimento ao longo do tempo, do que necessariamente em uma peça ou com um conteúdo problemático.”

Demonização política e intolerância religiosa

A associação de Lula ao mal também aparece em conteúdos que exploram preconceitos contra religiões de matriz africana. Em outubro, publicações utilizaram imagens da Marcha para Exu, realizada em agosto, para afirmar falsamente que apoiadores do presidente haviam participado de um ritual de invocação de Satanás durante uma manifestação na Avenida Paulista. O deputado federal Zé Trovão (PL-SC) compartilhou o conteúdo enganoso, posteriormente desmentido pelo UOL.

O episódio evidencia como a desinformação eleitoral pode se alimentar de estigmas religiosos já presentes na sociedade. Segundo a pesquisa Religião e Vida Pública no Brasil, realizada pelo Iser com trabalho de campo da Quaest, 36% dos evangélicos entrevistados consideram religiões afro-brasileiras “do mal” ou “demoníacas”. A percepção preconceituosa também aparece entre 17% dos católicos.

Maria Clara explica que a linguagem de confronto entre o bem e o mal não foi inventada pelas campanhas eleitorais. O que ocorre é a apropriação de determinadas concepções religiosas para apresentar adversários políticos como ameaças à comunidade e aos seus valores.

Rafaela distingue duas interpretações religiosas que ajudam a compreender parte desse vocabulário. A batalha espiritual parte da ideia de que forças do mal influenciam as decisões humanas e os acontecimentos cotidianos. Já a teologia do domínio defende que cristãos ocupem espaços de influência e poder na sociedade, inclusive na mídia e na academia, com o objetivo de construir um reino cristão.

A pesquisadora ressalta, entretanto, que os conceitos não são equivalentes e que a demonização política não pode ser explicada exclusivamente por eles. A estratégia também depende da atuação de figuras políticas e influenciadores que conquistam visibilidade e capacidade de mobilização nas redes sociais. Rafaela chama esse tipo de influência de “liderança algorítmica”.

Isso, porém, não significa que os fiéis apoiem a transformação das igrejas em espaços de campanha. O mesmo levantamento, realizado com 15 mil pessoas, aponta que 83% dos entrevistados rejeitam que lideranças religiosas indiquem candidatos e 82% são contrários a discussões políticas durante cultos e missas.

Os números contrariam a ideia de que o comportamento eleitoral dos religiosos pode ser explicado simplesmente pela orientação de pastores. Segundo Maria Clara, a relação entre fé e política é mais complexa e varia conforme as experiências, os valores e as comunidades de cada pessoa.

Essa complexidade também aparece na comparação entre as eleições de 2018, 2022 e 2026. Rafaela observa que, neste ano, determinados espaços religiosos estão mais silenciosos sobre política. Na avaliação dela, o fenômeno está relacionado ao desgaste das relações sociais provocado pela polarização, que levou pessoas a evitar discussões para preservar vínculos familiares e comunitários.

A pesquisadora também chama atenção para o afastamento de fiéis das igrejas em meio aos conflitos políticos e para o fortalecimento de grupos evangélicos progressistas. Esses movimentos ajudam a mostrar que a relação entre religião e extrema direita não é automática nem representa a totalidade das comunidades religiosas.

Magali relaciona a intensificação desse discurso à ascensão do populismo religioso de direita, especialmente a partir da campanha de Jair Bolsonaro em 2018. Nesse modelo, a política é apresentada como um confronto entre o chamado povo de Deus e aqueles apontados como inimigos da fé, da família e da pátria.

Para Rafaela, a disputa também envolve os sentimentos mobilizados por cada campo político. Enquanto discursos de extrema direita podem explorar o medo, a indignação e a percepção de ameaça, setores progressistas recorrem com frequência à esperança e à coletividade. A pesquisadora pondera que esses sentimentos não produzem necessariamente o mesmo efeito de mobilização.

Ao combinar referências religiosas, desinformação e estratégias digitais, a extrema direita procura transformar disputas políticas em conflitos morais. Nesse enquadramento, o adversário deixa de ser alguém cujas propostas podem ser confrontadas e passa a representar uma ameaça a ser combatida — uma lógica que desloca o debate público e mobiliza eleitores para além das propostas de governo.

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