A vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno das eleições provocou uma forte reação do mercado financeiro nesta segunda-feira (26). O dólar disparou mais de 11%, os juros futuros registraram altas expressivas e a Bolsa brasileira acionou o mecanismo de circuit breaker, que interrompe temporariamente as negociações diante de quedas acentuadas.
Por volta das 10h14, a moeda americana avançava 11,77%, negociada a R$ 5,584. O movimento contrastava com o cenário internacional: no mesmo período, o índice DXY, que acompanha o desempenho do dólar diante de uma cesta de moedas estrangeiras, registrava valorização de apenas 0,05%.
A turbulência também atingiu o mercado de juros. A taxa dos contratos DI com vencimento em janeiro de 2027 chegou a 13,889%, alta de 0,42 ponto percentual. Já os contratos para janeiro de 2031 avançaram 2,60 pontos percentuais, alcançando 15,250%, movimento que reflete o aumento da percepção de risco entre investidores.
O resultado eleitoral contrariou as expectativas de parte do mercado financeiro, que apostava na vitória de Flávio Bolsonaro e na adoção de medidas mais rígidas de contenção dos gastos públicos. Com a reeleição de Lula, investidores passaram a rever posições construídas nas semanas anteriores à votação.
Bolsa sofre forte queda após resultado eleitoral
A reação começou antes mesmo da abertura oficial do mercado brasileiro. No exterior, ações de empresas nacionais e contratos futuros já apresentavam desvalorizações expressivas nas primeiras horas da manhã.
Por volta das 9h45, o Ibovespa futuro recuava 19,97%, aos 166.855 pontos. Diante da intensidade das perdas, a B3 ampliou inicialmente para 15% o limite de queda permitido para os contratos futuros do índice e, posteriormente, elevou esse patamar para 20%.
No mercado à vista, o circuit breaker é acionado quando o Ibovespa registra queda de 10% em relação ao fechamento anterior, interrompendo temporariamente as negociações para conter movimentos extremos de volatilidade.
As perdas também atingiram empresas brasileiras negociadas nos Estados Unidos. No pré-mercado de Nova York, o ETF EWZ, fundo que acompanha uma cesta de ações nacionais, chegou a despencar mais de 26%.
Entre os recibos de ações brasileiras negociados no exterior, Itaú e Bradesco registravam quedas de 28% e 25%, respectivamente. A Petrobras recuava 23%, enquanto os papéis da XP apresentavam perdas superiores a 45%. O Nubank também registrava desvalorização de aproximadamente 20%.
Investidores apostavam em vitória de Flávio Bolsonaro
A queda desta segunda-feira representa uma reversão do movimento observado após o primeiro turno, quando Flávio Bolsonaro terminou a votação à frente de Lula.
Na ocasião, o candidato do PL recebeu 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% do presidente. O resultado impulsionou os ativos brasileiros, diante da expectativa de investidores de que o senador venceria a disputa presidencial.
No pregão seguinte ao primeiro turno, o Ibovespa avançou 7,70%, alcançando 206.911 pontos, enquanto o dólar caiu 4,11%, encerrando o dia próximo de R$ 5.
A valorização refletia a preferência de parte dos agentes financeiros por uma agenda econômica associada a cortes de despesas e maior rigor fiscal.
Com a confirmação da vitória de Lula, essa expectativa foi frustrada, desencadeando uma rápida venda de ativos brasileiros.
O movimento também evidencia a diferença entre as prioridades de parte do mercado financeiro e o resultado das urnas. Enquanto investidores reagiram negativamente à continuidade do governo petista, os eleitores decidiram pela permanência de Lula na Presidência por mais quatro anos.
Pressão sobre juros pode afetar crédito e investimentos
A reação do mercado não se limita à Bolsa e ao câmbio. A disparada dos juros futuros indica que investidores passaram a exigir taxas mais elevadas para negociar títulos e contratos de longo prazo.
Na prática, a manutenção de juros altos pode encarecer o financiamento de empresas, dificultar o acesso ao crédito e reduzir investimentos produtivos.
O BTG Pactual afirmou, em relatório, que espera uma onda de vendas de ações brasileiras nas próximas semanas, com possibilidade de o Ibovespa recuar rapidamente para a região dos 170 mil pontos.
O banco também projetou uma desvalorização do real entre 10% e 15%, diante das incertezas sobre os rumos da política fiscal.
Antes da votação, uma pesquisa do Citibank com 73 gestores de fundos já apontava a possibilidade de forte turbulência em caso de vitória de Lula.
Entre os entrevistados, 80% esperavam uma queda superior a 5% do Ibovespa, enquanto 63% projetavam desvalorização do real acima de 5%.
As estimativas refletem as expectativas desse grupo de investidores, e não necessariamente os efeitos que a reeleição terá sobre a economia brasileira nos próximos anos.
Na sexta-feira (23), último pregão antes da votação, o dólar havia encerrado o dia a R$ 4,989, enquanto o Ibovespa fechou aos 205.082 pontos.
A forte oscilação desta segunda-feira ocorre no primeiro dia de negociações após a confirmação do resultado eleitoral. A trajetória dos ativos nos próximos dias dependerá, entre outros fatores, das sinalizações econômicas do governo e da reação dos investidores ao novo cenário político.