Por Felipe Rabioglio
Menos de 24 horas separaram a promessa de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) de permanecer no Brasil de sua fuga do país. Na segunda-feira (26), o senador afirmou que nunca havia pensado em deixar o território brasileiro, garantiu que cumpriria uma ordem do Supremo Tribunal Federal (STF) e prometeu liderar a oposição ao novo governo Lula. Naquela mesma noite, porém, deixou o país, segundo apuração do ICL Notícias.
A contradição não foi um episódio isolado. Nos últimos meses, declarações de Flávio sobre sua relação com o banqueiro Daniel Vorcaro, o financiamento de um filme sobre Jair Bolsonaro e viagens em aeronaves privadas foram confrontadas por mensagens, documentos e registros financeiros.
O histórico de mudanças de versão ganhou uma dimensão ainda maior depois da derrota para Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno das eleições. Antes da votação, Flávio havia prometido respeitar o resultado das urnas. Depois, anunciou que pediria a anulação do pleito e passou a defender a cassação da chapa vencedora.
Em setembro, um levantamento do Aos Fatos já havia identificado ao menos 43 declarações enganosas do senador relacionadas ao escândalo do Banco Master e a Daniel Vorcaro. O episódio desta semana acrescenta uma nova contradição ao histórico de declarações do senador.
Segundo apuração do ICL Notícias, Flávio teria passado pela Argentina com a intenção de seguir para os Estados Unidos. A saída ocorreu apesar de uma decisão do ministro Alexandre de Moraes, do STF, que o proibia de viajar ao exterior e determinava a entrega de seus passaportes à Polícia Federal (PF).
Intimado enquanto visitava o pai, Jair Bolsonaro, em prisão domiciliar, o senador havia divulgado um vídeo em que assegurava que cumpriria a determinação judicial.
“Eu nunca pensei em sair do país”, declarou.
Flávio não entregou os documentos dentro do prazo estabelecido. A Polícia Federal cancelou seus passaportes e anunciou que comunicaria o descumprimento ao STF.
Negou conhecer Vorcaro, mas depois admitiu relação desde 2024
Em março de 2026, quando documentos da CPI do INSS revelaram que seu número de telefone constava na agenda de Daniel Vorcaro, Flávio afirmou que nunca havia mantido contato com o empresário.
“Nunca tive contato”, declarou à Folha de S.Paulo. Na ocasião, argumentou que seu telefone não era secreto e poderia ter sido compartilhado por terceiros.
Dois meses depois, a divulgação de conversas pelo Intercept Brasil revelou uma relação que ia além da presença de um número telefônico na agenda. As mensagens mostraram o senador tratando de compromissos financeiros com Vorcaro e se dirigindo ao banqueiro de maneira amistosa.
Em uma das conversas, Flávio escreveu: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente”.
Diante da repercussão, reconheceu que conhecia Vorcaro desde dezembro de 2024. Posteriormente, justificou a negativa anterior afirmando que um contrato relacionado ao filme Dark Horse continha uma cláusula de confidencialidade.
Chamou revelação de mentira e confirmou negociação horas depois
Outra mudança de versão ocorreu em 13 de maio, quando o Intercept Brasil questionou Flávio sobre mensagens que apontavam negociações de R$ 134 milhões com Vorcaro para financiar o filme sobre Jair Bolsonaro.
O senador reagiu com uma gargalhada, chamou o jornalista de militante e rejeitou a informação.
“É mentira, pelo amor de Deus, de onde você tirou isso?”, respondeu.
Horas depois, publicou um vídeo confirmando a autenticidade das conversas e admitindo ter procurado o banqueiro para obter recursos para a produção cinematográfica.
Flávio sustentou que se tratava de um investimento privado, sem utilização de dinheiro público ou incentivos da Lei Rouanet. Também negou ter cometido qualquer irregularidade.
Disse que nunca voou em avião de Vorcaro, mas documentos apontaram viagem
Em julho, ao tentar delimitar sua relação com o dono do Banco Master, Flávio afirmou que os contatos entre os dois se restringiam ao financiamento do filme.
“Nunca entrei em avião do Vorcaro”, declarou, acrescentando que não frequentava festas ou ambientes sociais ligados ao empresário.
A afirmação foi confrontada em setembro, quando documentos obtidos pela revista piauí revelaram que Flávio havia viajado com a esposa e as filhas, em janeiro de 2025, dos Estados Unidos para Brasília, em uma aeronave ligada a uma empresa da qual Vorcaro era sócio.
O avião, um Legacy 650 de prefixo PP-NLR, tinha entre seus proprietários a Prime You, empresa que contava com o banqueiro em seu quadro societário na época da viagem.
Flávio argumentou posteriormente que o voo havia sido disponibilizado pelo advogado Willer Tomaz, também sócio da aeronave. A explicação, porém, não afastou o vínculo entre o jato e a empresa ligada a Vorcaro.
Afirmou que pagamentos terminaram em maio, mas Coaf identificou transferência em setembro
Ao explicar o financiamento de Dark Horse, Flávio declarou que a última parcela do investimento de Vorcaro havia sido realizada em maio de 2025.
A data foi utilizada pelo parlamentar para sustentar que os pagamentos ocorreram antes do agravamento público das suspeitas sobre o Banco Master.
Posteriormente, um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), divulgado pela revista piauí, identificou uma transferência de US$ 1,66 milhão, realizada em 16 de setembro de 2025, para o Havengate Development Fund, fundo americano utilizado no financiamento do filme.
A remessa partiu da Entre Investimentos, empresa ligada à estrutura financeira de Vorcaro. O registro colocou em dúvida a cronologia apresentada pelo senador, já que a movimentação ocorreu quatro meses depois da data que ele havia apontado como encerramento dos pagamentos. Naquele mês, o Banco Central já havia rejeitado a aquisição do Banco Master pelo Banco de Brasília (BRB).
Não mencionou encontro após prisão de Vorcaro e depois confirmou reunião
A cronologia dos contatos entre Flávio e Vorcaro sofreu outra alteração em maio.
Nas primeiras explicações após a divulgação das mensagens, o senador apresentou a relação como uma negociação comercial iniciada antes das principais investigações contra o banqueiro.
Posteriormente, reportagem do Metrópoles revelou que os dois haviam se encontrado quando Vorcaro já utilizava tornozeleira eletrônica.
Questionado, Flávio confirmou a reunião. Segundo sua justificativa, procurou o empresário para encerrar a negociação e reclamar da falta de informações sobre a gravidade de sua situação.
O encontro não havia sido mencionado nas explicações anteriores, apesar de ter ocorrido depois da primeira prisão do banqueiro.
A revelação ampliou o período conhecido de contato entre os dois e acrescentou um novo episódio à relação que Flávio inicialmente havia negado.
Prometeu prestação de contas, mas perícia deixou despesas sem esclarecimento
Após reconhecer a negociação para financiar Dark Horse, Flávio afirmou que apresentaria informações sobre os recursos utilizados na produção.
A promessa ganhou relevância diante das suspeitas de que parte do dinheiro destinado ao filme pudesse ter sido utilizada para outras finalidades.
Em junho, a produtora apresentou uma perícia realizada por um profissional contratado, que concluiu não ter identificado utilização de recursos públicos.
Flávio passou a citar o documento como demonstração de transparência. Durante sabatina ao Jornal Nacional, em agosto, afirmou que as informações sobre os gastos já haviam sido esclarecidas.
Entretanto, segundo levantamento do Aos Fatos, a perícia não detalhou todas as notas fiscais e deixou de examinar despesas realizadas nos Estados Unidos, responsáveis por quase 70% dos gastos apresentados.
O profissional responsável pelo trabalho afirmou não ter tido acesso a essa parcela da documentação.

Alegou que fotografia com Sicário era feita por IA, mas checagem contestou versão
Em julho, o ICL Notícias divulgou uma fotografia que mostrava Flávio ao lado de Luiz Phillipi Mourão, conhecido como Sicário, apontado como integrante do entorno de Daniel Vorcaro.
O senador questionou a autenticidade da fotografia e alegou manipulação por inteligência artificial. Depois, mudou sua explicação e afirmou não saber se a imagem era verdadeira. Uma checagem do Aos Fatos contestou a versão de montagem.
Defendeu CPI do Master, mas assinou apenas parte dos requerimentos
Em diferentes manifestações públicas, Flávio afirmou apoiar a criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar o Banco Master.
O discurso foi utilizado pelo senador para rebater críticas de que tentava proteger pessoas relacionadas ao escândalo.
Um levantamento do Aos Fatos, entretanto, identificou sua assinatura em apenas dois dos cinco pedidos de instalação de comissões apresentados sobre o caso.
Disse que aceitaria resultado das eleições, mas anunciou pedido de anulação
As divergências entre declarações e atitudes também apareceram na disputa presidencial.
Antes do segundo turno, Flávio havia afirmado em entrevista à jornalista Renata Lo Prete, da TV Globo, que respeitaria o resultado das urnas.
No domingo (25), após a confirmação da vitória de Lula por uma diferença superior a 4,4 milhões de votos, o senador anunciou que não reconheceria o resultado e que recorreria à Justiça para pedir a anulação da eleição.
A justificativa foi a prorrogação do horário de votação até as 19h em seções afetadas por dificuldades de deslocamento de eleitores.
A decisão foi tomada pelo ministro Cristiano Zanin, do STF, diante dos transtornos provocados pelas chuvas e por problemas no transporte.
Flávio classificou a medida como uma alteração das regras durante a disputa e alegou quebra de igualdade entre os eleitores.
Criticou prorrogação da votação que sua própria campanha também solicitou
A contestação do horário de votação apresentou outra divergência.
Enquanto Flávio apontava a prorrogação como motivo para questionar a legitimidade do segundo turno, sua própria campanha havia solicitado medidas semelhantes em localidades atingidas pelas chuvas.
Segundo a Agência Brasil, a decisão de Zanin considerou pedidos apresentados pelas duas candidaturas, incluindo a do senador.
A extensão do horário foi determinada em caráter emergencial para garantir o direito ao voto de eleitores que enfrentavam dificuldades de deslocamento.
Anunciou pedido de anulação e depois mudou estratégia para cassação da chapa
A reação à derrota também passou por uma mudança de estratégia jurídica.
Na noite de domingo, Flávio afirmou que pediria a anulação do segundo turno. No dia seguinte, porém, passou a defender uma ação para cassar a chapa formada por Lula e Geraldo Alckmin (PSB).
A nova argumentação envolvia supostas práticas de abuso de poder político e econômico durante a campanha.
As duas medidas possuem fundamentos e consequências diferentes. Enquanto a anulação questiona a validade da votação, a cassação busca responsabilizar uma candidatura por irregularidades eleitorais.
Prometeu liderar oposição no Brasil, mas fugiu após decisão do STF
Na segunda-feira (26), Flávio afirmou que permaneceria no Brasil para organizar a oposição ao novo governo Lula, reunir parlamentares eleitos e fortalecer a atuação do PL no Congresso Nacional.
Horas depois, segundo apuração do ICL Notícias, o senador deixou o país, apesar da determinação do Supremo Tribunal Federal (STF) que o proibia de viajar ao exterior.
A movimentação ocorreu após seu irmão Eduardo Bolsonaro, que vive nos Estados Unidos, ter defendido publicamente que Flávio deixasse o Brasil caso perdesse a eleição presidencial.
A Polícia Federal não encontrou registro formal da saída do senador e passou a apurar as circunstâncias da travessia da fronteira. O governo argentino também informou não ter localizado registro oficial de sua entrada.