Por Gabriela Cecchin, Cristiane Gercina e Catarina Scortecci
(Folhapress) – Após a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na eleição deste domingo (25), empresários que teriam apoiado a reeleição do presidente passaram a ser expostos em listas que incentivam boicotes e circulam nas redes sociais e em grupos de apoiadores do candidato derrotado, o senador Flávio Bolsonaro (PL).
A reportagem viu listas do tipo em capitais como São Paulo, Curitiba, Porto Alegre e Rio de Janeiro, além de cidades do interior de São Paulo e de Minas Gerais.
Empresários ouvidos pela reportagem relatam desde ameaças e mensagens hostis até o receio de perder clientes. Alguns afirmam ter sido incluídos mesmo sem declarar publicamente seu voto. Em certos casos, a circulação das mensagens também motivou manifestações de apoio.

O que dizem os empresários
A livraria Martins Fontes, em São Paulo, foi incluída em uma delas. O dono da empresa, Alexandre Martins Fontes, 65, afirma que continuará manifestando publicamente seu apoio a candidatos nas eleições, apesar das ameaças de boicote. A empresa declarou voto em Lula em 2022 e neste ano.
“Eu respeito totalmente a decisão dos nossos clientes de votarem em quem eles quiserem, como eu gostaria que eles respeitassem a nossa decisão de publicamente dizer quem é o nosso candidato”, afirma.
Segundo o empresário, nas duas eleições houve pessoas que disseram que deixariam de comprar na livraria devido ao posicionamento político. Mas ele diz não se arrepender e considera que a decisão de apoiar um candidato faz parte da liberdade de expressão.
Fontes afirma que a escolha está relacionada à defesa dos livros, da educação, da leitura e da cultura. Ele ressalta que a livraria comercializa obras de diferentes correntes ideológicas, inclusive de autores de direita e de pessoas que apoiam Jair e Flávio Bolsonaro.
“Acredito que o papel da livraria é justamente expor tudo que se produz de cultura, de pensamento”, diz.
O empresário afirma não estar preocupado com os possíveis efeitos do boicote e diz que a livraria cresceu nos últimos quatro anos. Para ele, clientes que valorizam o trabalho da empresa continuarão frequentando o estabelecimento, independentemente de suas preferências políticas.
A situação é diferente para pequenos empresários de cidades menores que dizem ter sido incluídos nas listas sem terem declarado publicamente suas preferências eleitorais.
Paula Ramos, 38, empresária do ramo de beleza em Ourinhos (SP), soube por uma cliente que seu nome havia sido incluído em uma lista de estabelecimentos que deveriam ser boicotados. Ela afirma que nunca manifestou publicamente seu posicionamento político justamente para respeitar clientes de diferentes ideologias.
“As pessoas estão deduzindo que sou de esquerda, que votei no PT [Partido dos Trabalhadores], simplesmente por eu não ter me manifestado. E, mesmo que eu tivesse me manifestado, não poderia ser assim”, afirma.
Flávio Bolsonaro recebeu 61,82% dos votos válidos no segundo turno em Ourinhos, contra 38,18% de Lula.
“É muito triste você ver seu nome numa lista como se fôssemos criminosos. Criminosos são essas pessoas que querem rebaixar o trabalho de outras”, diz.
Segundo ela, a repercussão teve um efeito diferente do boicote pretendido: passou a receber mensagens de apoio e carinho, além de contatos de novas clientes interessadas em agendar procedimentos.
“O respeito precisa ser mantido, porque senão a gente vai terminar numa guerra”, afirma. A empresária diz que conversou com um advogado sobre possíveis medidas legais.
Em Serrana, no interior de São Paulo, Francisco Meghelli, 34, dono do grupo Meghelli, afirma que já esperava que a imobiliária da família fosse incluída em uma lista de boicote porque havia manifestado publicamente seu posicionamento político.
Na cidade, Flávio recebeu 54,69% dos votos válidos no segundo turno, ante 45,31% de Lula. Depois de publicar um vídeo sobre o caso nas redes sociais, Meghelli diz ter recebido relatos de pessoas que deixariam de comprar imóveis com a empresa, embora ainda não tenha identificado prejuízos financeiros concretos.
O empresário também relata que familiares de uma pessoa que compartilhou a lista foram até ele para pedir que retirasse a publicação. Segundo ele, a abordagem teve tom ameaçador. Meghelli afirma que pretende registrar um boletim de ocorrência e buscar indenização, assim como outros comerciantes citados nas listas.
Para ele, os efeitos da campanha podem ser mais graves para pequenos negócios, que dependem diretamente do movimento de clientes. Meghelli cita o caso de uma cabeleireira que, segundo ele, teve três clientes desmarcando procedimentos após a circulação da lista. Também relata que funcionários de um ponto de venda de açaí foram xingados.
O empresário diz que a reação pública às listas pode ajudar a conter a intimidação. Depois de publicar o vídeo, afirma que um dos grupos em que as mensagens circulavam foi excluído.
Em outros casos, a preocupação envolve mensagens que mencionam possíveis ataques físicos.
Um estabelecimento vegano de Curitiba, que pediu para não ser identificado, afirma que já havia aparecido em listas semelhantes. O espaço tem decoração com referências políticas e, por isso, os responsáveis dizem que o boicote em si não costuma afetar tanto o negócio.
Em ocasiões anteriores, porém, o estabelecimento foi alvo de uma onda de avaliações negativas na internet. Os responsáveis afirmam que não receberam ameaças diretamente, mas foram alertados por pessoas com acesso aos grupos em que as conversas circulavam.
Em capturas de tela de um grupo da capital paranaense há mensagens de hostilidade contra consumidores de esquerda. Um dos participantes afirma que aumentaria em 30% o preço cobrado de clientes petistas e que eles não seriam bem-vindos no estabelecimento.
Em Curitiba, Flávio recebeu 62,29% dos votos válidos, contra 37,71% de Lula.
Os responsáveis pelo estabelecimento afirmam que, por enquanto, não pretendem tomar providências judiciais, mas poderão reavaliar caso ocorra algum ataque direcionado ao negócio.
A proprietária de uma farmácia no interior de Mato Grosso, que também não quis ser identificada, afirma ter sido incluída pela segunda vez em listas que incentivam consumidores a boicotar estabelecimentos associados à esquerda.
Ela diz que evitava se manifestar publicamente sobre política por atender clientes com diferentes posicionamentos e por respeitar as opiniões dos funcionários. Mesmo assim, passou a ser alvo de comentários negativos e de mensagens que incentivavam as pessoas a não frequentar seu estabelecimento.
A comerciante, que se emocionou ao falar sobre o caso, teme que a campanha prejudique o negócio e os trabalhadores. Para ela, o boicote cria um ambiente em que as pessoas precisam esconder suas opiniões para serem aceitas na cidade.
Ela também relata a circulação de mensagens ofensivas contra nordestinos e afirma que pessoas atingidas pelas publicações estão reunindo capturas de tela, vídeos e números de telefone para documentar as mensagens.
O grupo pretende encaminhar uma denúncia ao Ministério Público e estuda medidas individuais contra participantes das conversas, por mensagens que considera homofóbicas e xenofóbicas.
A comerciante diz que um dos grupos usados para organizar as listas foi excluído depois que seus integrantes souberam que estavam sendo tomadas providências, mas que parte das conversas já havia sido salva.
Em Mato Grosso, Flávio recebeu 66,06% dos votos válidos no segundo turno, contra 33,94% de Lula.
Em julho de 2025, o TJ-SP (Tribunal de Justiça de São Paulo) condenou em segunda instância dois homens acusados de elaborar e divulgar uma relação de comerciantes considerados apoiadores da esquerda em Cafelândia, no interior paulista, após a eleição de 2022.
Os dois foram condenados pelo crime de perseguição, com penas em regime aberto e suspensão condicional da pena. Também tiveram de pagar indenização individual equivalente a dois salários mínimos para cada uma das sete pessoas citadas na lista que formalizaram reclamações.
Segundo a denúncia do Ministério Público, os comerciantes foram alvo de constrangimentos, perturbações no trabalho e prejuízos financeiros. O nome de uma lanchonete incluída na relação chegou a ser associado a um ataque com uma pequena bomba contra o estabelecimento.