O Gurufim e o drible na morte

Festeja-se para espantar a dor e garantir a boa viagem da alma.
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Às vezes tenho a impressão de que a história do Brasil é um grande e incessante duelo contra a morte. Nessa disputa renhida, ora a gente consegue driblar a danada, ora é ela que nos dá uma rasteira. O jogo é contínuo.

Pensando nisso, e perto do feriado do Dia de Finados, me ocorre falar de gurufim, um termo que, na cultura do samba, costuma designar o velório com festa, cantoria, comidas, bebidas e o escambau.

Tradicionalmente, o gurufim não era o velório festivo, tal como percebemos hoje, mas uma brincadeira que se fazia durante os velórios. Para distrair o ambiente, alguém puxava o jogo: Gurufim não tá aqui, foi pro mar. Gurufim não come. O coro respondia: Quem come? E alguém rebatia: o tubarão, a tainha, a baleia, o robalo, etc. Não valia repetir nome de peixe. Quem repetisse, pulava fora do desafio.

Para Luís da Câmara Cascudo, a palavra gurufim deriva de golfinho, como dialetação. Nas culturas antigas do mediterrâneo era o golfinho que acompanhava as almas dos finados para o reino dos mortos. Algumas civilizações africanas também ligavam a morte e os seus mistérios ao mar, fato reforçado a partir do infame comércio negreiro de gente escravizada.

Há outras hipóteses. Lydia Cabrera fala de “gurufinda”, um fetiche congo-cubano que evoca os mortos. Na língua xona (banta), rufu é morte, o que talvez indique um encruzilhamento etimológico no Brasil.

O fato é que a brincadeira acabou designando as festas de velórios, comuns entre descendentes de bantos no Rio de Janeiro e São Paulo, e no mundo do samba. Festeja-se para espantar a dor e garantir a boa viagem da alma.

Na tradição popular, ainda há outro componente na encruza. Atentem para isso: os mais velhos diziam que a morte, quando levava um, levava três. A brincadeira do gurufim, a festa, a cantoria, era também um truque para distrair a morte. Como a maldita é inimiga da alegria, ao sinal da festa ela passava reto e não ficava de olho em mais duas pessoas.

O gurufim, disfarçado de rito mortuário, afirma entre nós, em um duelo constante e cotidiano, a força festeira da vida.

*Sugestão de leituras: Paulo da Portela: Traço de União entre duas culturas. Marília Barboza e Lígia Santos escrevem sobre o gurufim do Paulo. Há ainda uma reportagem sensacional da Revista O Cruzeiro, de 14/9/1946, chamada “Gurufim, o samba da morte”, do Nelson Mota (não é o jornalista atual). Na literatura, amo o gurufim de Quincas Berro d’água, descrito por Jorge Amado.

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