Encruzilhadas e labirintos: dilemas do Brasil e da cultura

O Brasil oficial não está, infelizmente, em uma encruzilhada; mas em um labirinto.
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Em 2021, conversei com o professor Andriolli Costa no podcast Poranduba. Recentemente, o papo foi transcrito no site Colecionador de Sacis. Na conversa, abordei algo que venho falando desde os tempos do Pedrinhas Miudinhas, livro publicado em 2012, e hoje me parece ainda fazer sentido: o Brasil oficial não está, infelizmente, em uma encruzilhada; mas em um labirinto. E nada é mais distante da encruzilhada que o labirinto.

Seguem alguns trechos da conversa:

Andreolli: Como pensar a cultura brasileira como encruzilhada?

Simas: A encruzilhada é um elemento fundamental em várias culturas. Os gregos faziam oferendas para Hécate nas encruzilhadas. O padre José de Anchieta ficava espantado porque os tupinambás também colocavam oferendas nesses lugares. No Antigo Testamento, o profeta Ezequiel vê o rei da Babilônia consultando a sorte numa encruzilhada. No Auto das Fadas, do português Gil Vicente, aparece Genebra Pereira, uma feiticeira que ofertava coisas na encruzilhada. Ela é, portanto, um elemento presente em muitas culturas.

Para mim, a encruzilhada também é fundamental quando penso o Rio de Janeiro, cidade muito marcada pela presença banto e pelo pensamento bakongo. Leda Maria Martins tem trabalhos maravilhosos e pioneiros sobre o tema, assim como Luiz Rufino, com sua Pedagogia das encruzilhadas.

A encruzilhada não comporta a ilusão da essência. É um espaço de encontro e de afetação, mas não necessariamente de encontro cortês ou brando. Pode ser espaço de tensão, contradição e enfrentamento. Mas é sempre o lugar do encontro.

Não acredito em culturas compartimentadas. O campo da cultura é fundamentalmente um campo de circularidades, encontros, tensionamentos e disputas. Os bakongos dizem algo muito interessante: a encruzilhada não é um lugar em que fica você ou o outro. Nela, é você com o outro. Não há escapatória. O encontro não apaga ninguém. A soma de um mais um, na encruza, é quatro: eu, o outro, o outro em mim e eu nele.

As pessoas tendem a confundir encruzilhada com labirinto. Quando se diz que o Brasil está numa encruzilhada, inclusive agora, parece que se quer dizer que o país está perdido num labirinto. Não é isso. A encruzilhada não comporta dicotomias caras a uma linha do pensamento ocidental: corpo ou espírito, sagrado ou profano, lúdico ou sério. Não é possível trabalhar com essas disjunções, porque as coisas estão se cruzando o tempo inteiro.

A encruzilhada é o espaço em que você sacraliza o profano e profana o sagrado, até não conseguir mais distinguir uma coisa da outra. Já mandei para o espaço essa distinção.

Numa festa popular como o Círio de Nossa Senhora de Nazaré, é impossível estabelecer uma fronteira entre sagrado e profano. Há a procissão, a cidade, os brinquedos, a roda-gigante, a comida, os cheiros, os encontros e os namoros. Como separar uma coisa da outra?

O mesmo acontece nas festas juninas de Santo Antônio, São João, São Pedro e, no Maranhão, São Marçal. O que encontramos é o ser profanando o sagrado e sacralizando o profano o tempo inteiro: profanando o templo e sacralizando a rua. Isso acontece com muita frequência.

Em resumo: encruzilhada é lugar em que a gente não se perde, mas se encontra. Como escrevi no Pedrinhas Miudinhas: eu, que sou de encruzilhadas, desconfio dos caminhos retos.

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