Mercado cobra rapidez de Lula em nome para Fazenda, mas petistas rejeitam pressão em ‘ressaca eleitoral’

Avaliação de integrantes do governo é a de que anúncio deve vir acompanhado de sinalização de contenção de despesas
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Por Adriana Fernandes, Catia Seabra e Idiana Tomazelli

(Folhapress) – O mercado financeiro cobra urgência na escolha do ministro da Fazenda como forma de fazer um choque de credibilidade fiscal após a eleição, mas o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) não deve anunciar uma decisão rapidamente.

O presidente deve tirar um período de descanso após a maratona da eleição, de acordo com auxiliares. Ele precisa poupar a voz, marcada pela rouquidão há cerca de duas semanas. De tão rouco, ele adiou a comemoração do aniversário, celebrado nesta terça-feira (27), para o fim de semana.

Um auxiliar disse que o momento é de “ressaca cívica” e lembra que até alguns dias o presidente estava brigando para ganhar eleição e que a composição do próximo governo não era o foco.

Histórico de Lula

Em 2022, Lula demorou para anunciar o petista Fernando Haddad para a Fazenda. O presidente foi eleito no dia 30 de outubro e a confirmação do nome de Haddad só ocorreu em 9 de dezembro, quase um mês e meio depois do resultado das urnas.

Na primeira eleição de Lula, em 27 de outubro de 2002, a indicação de Antônio Palocci, então coordenador da campanha vitoriosa, para a pasta só ocorreu em 10 de dezembro, durante uma viagem a Washington, nos Estados Unidos.

O anúncio foi feito em um discurso no Clube Nacional de Imprensa (National Press Club), marcando a primeira indicação oficial de ministros do seu governo.

Na eleição de 2006, Guido Mantega já era ministro e permaneceu no cargo até o final do governo Lula 2, seguindo na Fazenda no governo Dilma Rousseff 1.

Embora a janela de tempo para Lula anunciar a formação da sua equipe econômica para o próximo mandato seja apontada como reduzida diante da pressão do mercado por causa do quadro econômico, há uma avaliação de integrantes do governo e de conselheiros de fora da gestão petista de que só o anúncio do futuro ministro não será suficiente.

A decisão precisará vir acompanhada de alguma sinalização do plano de governo para conter as despesas obrigatórias em um ambiente de desaceleração econômica.

Possíveis indicações

Como mostrou a Folha de S.Paulo, os nomes do governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles, e do vice-presidente Geraldo Alckmin estão cotados para a vaga. Um auxiliar do presidente diz que Lula quer Fonteles no ministério e que houve consultas informais sobre a legalidade da saída dele do cargo.

A avaliação prevalente, no entanto, é que ele teria de renunciar ao cargo. Mas isso poderia ser feito se Fonteles adotasse o discurso de que veria a contribuição para o governo Lula como uma missão. O discurso no Piauí seria de que ele estaria atendendo a uma convocação do presidente.

Um banqueiro ouvido pela reportagem afirma que Lula tem uma urgência maior para anunciar o nome do futuro ministro da Fazenda do que teria Flávio Bolsonaro (PL), caso tivesse ganhado a eleição.

O executivo lembra que esse é um momento de grande tensão, quando as forças políticas e econômicas disputam espaço de influência para a escolha do nome para a pasta.

O governo dá sinais de que quer ganhar tempo. Responsável pela articulação política do presidente Lula, o ministro da SRI (Secretaria de Relações Institucionais), José Guimarães (PT), afirmou que as três pautas prioritárias agora para o governo são a PEC (Proposta de Emenda à Constituição) da Segurança Pública, a medida provisória do fim das bets e a PEC da tarifa zero do transporte público. Segundo ele, o pacote fiscal não é prioridade.

Um aliado do presidente avalia, no entanto, que algumas medidas iniciais de ajuste poderiam ser lançadas nas próximas semanas, ainda sob a batuta do atual ministro da Fazenda, Dario Durigan, que já elaborou um cardápio de ações para colocar à disposição de Lula.

Como mostrou a Folha de S.Paulo, a equipe prepara uma PEC para permitir ao Executivo congelar um valor maior de recursos em caso de queda na arrecadação e, assim, cumprir o centro da meta fiscal -em vez de perseguir o piso da banda, como tem ocorrido nos últimos anos.

A equipe econômica também elaborou uma PEC para prorrogar a vigência do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) até que o novo Imposto Seletivo, criado pela reforma tributária para incidir sobre bens prejudiciais à saúde e ao ambiente, entre em funcionamento. Todas essas iniciativas, porém, ainda dependem do aval do presidente.

Na avaliação desse interlocutor de Lula, o avanço das primeiras medidas poderia dar tempo ao petista até que batesse o martelo sobre a escolha do novo chefe da equipe econômica, que começaria a nova gestão já com um ponto de partida melhor que o atual.

O governo monitora o mercado e considera que a atuação conjunta do Tesouro Nacional e do Banco Central contribuiu para segurar o “calor” após o derretimento dos preços dos ativos, principalmente com recompra no mercado de títulos prefixados.

O dólar recuou nesta terça-feira (27), em um movimento de correção após a forte alta da véspera (26), quando a moeda americana registrou a maior valorização diária desde 1999. O movimento também se refletia nos juros futuros, que recuavam após a disparada de mais de 250 pontos-base na sessão anterior.

A reação é impulsionada por operações de recompra de títulos pelo Tesouro Nacional. Nesta terça-feira, o órgão anunciou a recompra de títulos IPCA+ e cancelou leilões de Tesouro Selic. Na véspera, o Tesouro recomprou do mercado R$ 14,8 bilhões em títulos prefixados e atrelados à inflação, na terceira maior intervenção diária de toda a série histórica, iniciada em janeiro de 2000. A comparação considera valores nominais.

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