Fuga de Flávio com cidadania italiana provoca pedido de investigação na Itália

Saída do senador do Brasil repercute entre parlamentares italianos e amplia questionamentos sobre possível favorecimento aos filhos de Bolsonaro
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Por Cleber Lourenço e Jamil Chade

A fuga de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) do Brasil provocou reação política na Itália e levou o deputado Angelo Bonelli, da Aliança dos Verdes e da Esquerda, a cobrar uma investigação sobre possíveis privilégios na concessão da cidadania italiana ao senador e a seus irmãos Eduardo e Carlos. Nesta quarta-feira (28), o parlamentar acionou os ministros das Relações Exteriores e do Interior para esclarecer se os filhos de Jair Bolsonaro furaram a fila de espera pelo documento europeu. A iniciativa ocorre após Flávio deixar a Argentina em um avião privado cujo manifesto de passageiros o identifica como cidadão italiano.

A movimentação do senador levou para o debate político italiano uma questão que já vinha sendo levantada por Bonelli: como três integrantes da família Bolsonaro conseguiram obter a cidadania em poucos anos, enquanto milhares de brasileiros descendentes de italianos enfrentavam esperas superiores a uma década?

O manifesto de passageiros obtido pelo ICL Notícias registra Flávio com a nacionalidade “ITA” e um número de passaporte. A aeronave, operada pela empresa argentina Baires Fly S.A., partiu de Puerto Iguazú, na Argentina, com destino declarado a Guayaquil, no Equador. A lista também inclui a mulher do senador, Fernanda Bolsonaro, e suas duas filhas, identificadas como brasileiras.

O documento demonstra que Flávio foi registrado como cidadão italiano na viagem, embora não permita confirmar, isoladamente, qual passaporte ele apresentou às autoridades migratórias.

Flávio e Eduardo Bolsonaro – Foto: Reprodução

Filhos de Bolsonaro conseguiram cidadania enquanto milhares aguardavam na fila

Na interpelação apresentada nesta quarta-feira, Bonelli recupera informações fornecidas pelo próprio governo italiano em respostas anteriores ao Parlamento.

Flávio e Eduardo solicitaram a inclusão na lista de espera da Embaixada da Itália em Brasília em 2020. Em 2023, ambos já haviam obtido a cidadania. Carlos concluiu o procedimento em 2024, mas o governo italiano nunca informou quando ele apresentou sua solicitação.

A rapidez dos processos é o centro do questionamento.

Segundo a interpelação, a embaixada italiana em Brasília suspendeu as convocações para reconhecimento da cidadania em agosto de 2018, embora continuasse recebendo inscrições. Em novembro de 2022, ainda estavam sendo chamados requerentes cadastrados quatro anos antes.

Naquele mesmo mês, Flávio e Eduardo compareceram pessoalmente à embaixada para cobrar o andamento de seus pedidos. O encontro ocorreu em 8 de novembro, apenas nove dias depois da derrota eleitoral de Jair Bolsonaro.

Bonelli quer saber se a visita teve alguma influência na tramitação e se os irmãos receberam atendimento prioritário.

“É necessário verificar se os filhos do ex-presidente Bolsonaro foram convocados respeitando a ordem cronológica da lista de espera ou se receberam tratamento preferencial em relação aos demais requerentes”, afirma a interpelação.

O deputado lembra que, já em 2018, havia mais de 112 mil solicitações de cidadania pendentes no Brasil. Em diversas repartições consulares, os requerentes enfrentavam esperas superiores a dez anos.

O documento exige que o governo informe as datas exatas de inscrição, convocação, entrega dos documentos e reconhecimento da cidadania dos três irmãos. Também solicita a identificação de quantas pessoas inscritas anteriormente continuavam aguardando atendimento quando os filhos de Bolsonaro foram convocados.

Em outro trecho, Bonelli questiona se houve “convocação prioritária ou em desrespeito à ordem cronológica” e, caso isso tenha ocorrido, quem autorizou o procedimento e com base em qual regra.

Deputado italiano Angelo Bonelli
Deputado italiano Angelo Bonelli do Partido Europa Verde. Foto: Reprodução/ Redes Sociais

Fuga e investigações brasileiras entram no debate italiano

A preocupação manifestada por Bonelli não se limita à eventual quebra da ordem de atendimento consular. O deputado também relaciona a concessão da cidadania à situação judicial de Flávio Bolsonaro e ao risco de utilização de documentos europeus para escapar de investigações no Brasil.

A interpelação menciona dois inquéritos sob supervisão do Supremo Tribunal Federal. O primeiro, relatado pelo ministro Alexandre de Moraes, envolve suspeitas de lavagem de dinheiro relacionadas a empresas de apostas e plataformas de pagamento associadas ao advogado Willer Tomaz.

O segundo, sob relatoria do ministro André Mendonça, envolve suspeitas relacionadas ao financiamento do filme Dark Horse pelo banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master.

Bonelli também recupera a antiga acusação contra Flávio por peculato, organização criminosa e lavagem de dinheiro no caso dos assessores de seu gabinete na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. O processo foi interrompido após o Superior Tribunal de Justiça anular provas da investigação, sem julgamento do mérito das acusações.

O parlamentar cita ainda o episódio envolvendo a ex-deputada Carla Zambelli, que deixou o Brasil após condenação judicial e invocou sua cidadania italiana.

“A Itália não pode se tornar um refúgio para aqueles que devem responder à Justiça de seu próprio país”, afirmou Bonelli.

A declaração sintetiza a preocupação do deputado com as consequências internacionais da situação judicial de integrantes do bolsonarismo. A cidadania italiana assegura direitos de residência e circulação na União Europeia, mas não impede, por si só, medidas de cooperação judicial ou processos de extradição.

Legenda: Flávio (à esq), Paulo (centro) e Eduardo (à dir) durante visita ao presidente Donald Trump - Crédito: Reprodução Instagram Paulo Figueiredo
Legenda: Flávio (à esq), Paulo (centro) e Eduardo (à dir) durante visita ao presidente Donald Trump – Crédito: Reprodução Instagram Paulo Figueiredo

Deputado cobra fiscalização e critica tratamento dado aos Bolsonaro

Bonelli também questiona o contraste entre a rapidez da concessão da cidadania aos filhos do ex-presidente e as restrições adotadas pelo governo italiano em março de 2025.

As mudanças limitaram o reconhecimento da cidadania por descendência e afetaram brasileiros que aguardavam havia anos pelo andamento dos pedidos.

“Há, então, uma hipocrisia insuportável”, declarou o deputado. “Com o decreto de março de 2025, o governo italiano fechou a porta da cidadania para milhares de descendentes de italianos que estavam na fila há anos.”

Bonelli também criticou as relações políticas do bolsonarismo com integrantes da Liga, partido da direita italiana. A interpelação, porém, não apresenta provas de que representantes da legenda tenham interferido na tramitação dos processos.

Além de exigir explicações sobre a fila, o parlamentar solicita que os ministros avaliem a abertura de uma fiscalização administrativa para verificar a regularidade dos procedimentos adotados pela embaixada em Brasília.

O documento pede expressamente uma “verificação de inspeção sobre a regularidade dos procedimentos adotados para os filhos do ex-presidente Bolsonaro, como garantia da igualdade de tratamento entre todos os requerentes”.

A iniciativa não significa que uma investigação já tenha sido instaurada. Até o momento, também não há comprovação de que Flávio, Eduardo ou Carlos tenham recebido tratamento privilegiado.

O governo italiano deverá esclarecer se houve alguma exceção às regras consulares, quem eventualmente a autorizou e por que os três irmãos conseguiram concluir seus processos enquanto outros descendentes de italianos permaneciam na fila.

“A lei deve ser igual para todos: para os pobres coitados que esperam há dez anos e para os filhos dos poderosos”, concluiu Bonelli.

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