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Por André Borges

(Folhapress) – No interior de Minas Gerais, próximo à divisa com São Paulo, a cidade de Poços de Caldas também lida com a disseminação de listas de comércios distribuídas pelo WhatsApp pedindo o boicote a locais que teriam como donos eleitores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), reeleito no domingo (25).

A lista traz dezenas de nomes de comércios de todos os tipos e diz que os estabelecimentos são propriedade de pessoas que são eleitoras de Lula. “Se você é patriota, não compre nada nestes comércios todos petistas! Amplie a lista se souber”, diz a mensagem.

Como mostrou a Folha, o fenômeno foi observado nas capitais e em cidades do interior e se somou à campanha “demita um petista” que tem circulado nas redes sociais.

A divulgação de listas de boicote por motivação política pode configurar crime de perseguição, previsto no Código Penal, quando integra uma campanha reiterada que ameaça a integridade física ou psicológica das vítimas ou invade ou perturba sua liberdade ou privacidade. A pena prevista é de seis meses a dois anos de reclusão, além de multa.

A lista de Poços de Caldas causou reação de comerciantes como Gustavo Pupila, que foi às redes expor sua indignação.

“Isso aí é crime, é coisa feia. Eu vou descobrir cada um desses bandidos que pôs meu nome lá. Esses criminosos vão pagar. Não aceitaram perder e estão querendo mexer com a minha vida. Eu vou mexer com a sua vida, agora. Eu irei te achar”, disse.

A Folha conversou com donos de dois estabelecimentos incluídos na lista. A proprietária de um deles disse que isso já ocorreu em 2022, quando Jair Bolsonaro (PL) foi derrotado por Lula.

“Naquela eleição foi difícil para mim, eu tive medo, cheguei a ser hostilizada. Mas a realidade é que isso dura pouco. O que vejo hoje é que esse tipo de agressão mais une a gente do que desune. As pessoas de bom senso, equilibradas, não entram nisso, não tratam os outros assim”, disse a comerciante.

Outro comerciante que atua há décadas em Poços de Caldas conta que também foi hostilizado em 2022 e que chegou a perder parte do movimento em suas lojas, mas que foi algo temporário e que a situação voltou ao normal.

A agressividade, disse ele, não se limita ao comércio. O empresário afirma também que foi expulso da academia que frequentava por dizer à proprietária que ela estava disseminando fake news nas redes do estabelecimento.

Com 173 mil habitantes, Poços de Caldas somou 90,5 mil votos no segundo turno. Diferentemente do que ocorreu no estado de Minas Gerais, que deu 50,4% de votos para Lula e 49,6% para Flávio Bolsonaro no segundo turno, o candidato do PL teve 55,8% de votos, ante 44,2% de Lula.

Os vereadores Tiago Mafra e Diney Lenon, ambos do PT e eleitos em 2024, levaram a denúncia à Polícia Civil.

“Além de ser inadmissível moralmente, é crime. Está no código penal. Esse tipo de prática é idêntico à dos nazistas, que marcavam as casas onde os judeus moravam. Nós não vamos aceitar. Estamos aqui buscando todos os caminhos para tomar medidas contra essas pessoas”, disse Lenon, ao divulgar a denúncia.

A Folha tentou contato com Marcelo Bertolucci, presidente da Associação de Comerciantes de Poços de Caldas. Ele respondeu dizendo apenas que estava ocupado.

O Ministério do Trabalho e Emprego possui uma página para denúncias de assédio eleitoral no ambiente de trabalho. Perseguir ou demitir trabalhadores por suas escolhas políticas é considerado crime. A pessoa que sofreu ou conhece alguém que sofre esse tipo de perseguição pode fazer a denúncia no canal.

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