Uma semana depois de fugir do Brasil para os Estados Unidos com a mulher, Fernanda, e as duas filhas adolescentes, o candidato derrotado à presidência pelo PL, o senador Flávio Bolsonaro, ainda não esclareceu como deixou o país, quem o ajudou e, principalmente, quanto custou e quem pagou pela fuga. Nos bastidores, avalia-se a possibilidade do custo da viagem ter ultrapassado R$ 2 milhões.
Vários indícios sugerem que a saída foi preparada antes da PF pedir a retenção dos passaportes de Flávio e não como reação à decisão do ministro Alexandre de Moraes, do STF. A PF pediu a apreensão dos passaportes às 21h16 de 25 de outubro, sete minutos depois de confirmada a vitória de Lula. O pedido citava uma fala de Eduardo Bolsonaro defendendo que o irmão deixasse o país se perdesse, mas interlocutores de Flávio falaram à coluna que há semanas, além de Eduardo, o advogado Frederick Wassef também defendia a fuga.
Duas investigações apuram o caso. Uma no Brasil e outra na Argentina. A Polícia Federal brasileira afirma que não há registro oficial da saída do parlamentar pelos postos brasileiros e as lacunas começam por aí: como Flávio chegou na Argentina.
O trecho final da viagem, da Argentina para os EUA, é o único confirmado por registros oficiais. Segundo a Direção Nacional de Migrações da Argentina, o senador cruzou a Ponte Internacional Tancredo Neves, entre Foz do Iguaçu (PR) e Puerto Iguazú, por volta das 22h50 da terça-feira, 27 de outubro. Meia hora depois, a família embarcou num jato Gulfstream G400 da empresa Baires Fly, que fez escala em Guayaquil, no Equador, e pousou no aeroporto executivo de Opa-locka, em Miami, na manhã do dia 28.
Como Flávio saiu do Brasil?
Duas versões foram publicadas na imprensa nos últimos dias. A primeira foi apontada pelo Fantástico, da TV Globo, e indica que o senador saiu de Brasília às 5h05 num jato Cessna Citation Excel, prefixo PR-AAA, rumo a San Fernando, na região de Buenos Aires. Segundo a Anac, a aeronave pertence à Jet Line Locações e Serviços Aéreos, que tem como sócias a irmã e a mulher do advogado Willer Tomaz, investigado com Flávio no inquérito de lavagem de dinheiro. Uma vez em solo argentino, Flávio teria seguido em outro voo privado até Puerto Iguazú e esperado, por horas, a família dentro do jato. Fernanda e as filhas do casal teriam ido em outro voo privado até Cascavel e, de lá, por terra até a Argentina. Por nota, a assessoria de Tomaz negou que aviões dele ou de empresas da família tenham sido usados.
O jornal argentino Clarín descreveu outro percurso. Seis veículos teriam saído em fila da residência da família em Brasília, para despistar, e o grupo teria percorrido cerca de 1,6 mil km por terra até Foz do Iguaçu. Segundo o jornal, o plano original era um voo fretado de Brasília até a fronteira, cancelado pelo dono da aeronave depois que a ordem de Moraes se tornou pública.
Três registros em 40 minutos
Os próprios registros argentinos aprofundam a dúvida sobre o momento em que Flávio e a família entraram na Argentina. Documentos do sistema de imigração obtidos pelo Fantástico mostram três entradas de Flávio na mesma noite, todas associadas a uma van: às 22h37, com passaporte italiano; às 22h40, com carteira de motorista; e às 23h11, com passaporte brasileiro. O sistema depois cancelou os dois registros com documentos brasileiros e manteve apenas o do passaporte italiano.
Nenhum dos três horários coincide com o informado oficialmente pela Migrações: 22h50. Caso a rota apresentada pelo Fantástico estiver certa, Flávio já aguardava dentro do jato e não está claro quem apresentou os documentos dele na ponte. Também não se sabe quem anulou os dois registros, nem o motivo.
Na manhã de 27 de outubro, o governo de Javier Milei negou que Flávio tivesse entrado no país. A confirmação só veio às 2h01 do dia seguinte, horas depois que o avião já tinha decolado de Puerto Iguazu.
Quem pagou?
O único valor supostamente conhecido é o do trecho internacional. Luis Grande, dono da Baires Fly, disse à agência AFP que o fretamento custou US$ 150 mil, cerca de R$ 800 mil, pagos por um intermediário que mora nos Estados Unidos e que ele conhece há dez anos. Grande não revelou o nome do intermediário à AFP e afirmou desconhecer quem fez o pedido original. Segundo ele, o voo foi pedido inicialmente para segunda-feira, 26, e depois adiado para a tarde de terça.
Os jornais The New York Times e The Wall Street Journal publicaram que o avião teria sido providenciado por Jason Miller, assessor de Donald Trump. A Casa Branca não comentou. Se Flávio e Fernanda saíram do Brasil com voos privados, ainda não se sabe quem pagou estas despesas e nem o custo destes deslocamentos.
Outra peça sem explicação é o israelense Menachem Booky Halevy, apontado como ex-agente do Mossad. Segundo o Fantástico, ele estava numa van que cruzou a fronteira sete minutos antes do veículo associado a Flávio, acompanhado do advogado Roberto Jorge Alexandre, que já atuou na defesa de Jair Bolsonaro. O motorista, Neri Luiz Dala Corte, disse ter sido contratado para levar dois homens de um posto de gasolina em Foz ao aeroporto de Puerto Iguazú.
Halevy entrou no Brasil em 19 de outubro, seis dias antes do segundo turno. Em 29 de outubro, foi abordado pela PF no aeroporto de Guarulhos quando ia embarcar para a Colômbia, prestou depoimento e foi liberado. Não se sabe o que declarou, quem o contratou nem qual era seu papel. A empresa dona das vans, a Dallas Turismo, nega ter transportado o senador.
O papel dos Estados Unidos
O secretário de Estado americano, Marco Rubio, negou que Washington tenha participado “diretamente” dos arranjos. Ele disse que Flávio já tinha visto e que a única decisão de Trump foi autorizar a entrada temporária. O qualificador “diretamente” não foi explicado. Registros da agência de fronteiras americana (CBP) associam a entrada de Flávio ao passaporte diplomático que a Justiça brasileira já havia cancelado. A autorização é temporária, do tipo parole, válida até outubro de 2027. Não há confirmação de que as autoridades americanas soubessem do cancelamento.
