Por Cleber Lourenço
Bancos e fundos de investimento concentram aproximadamente R$ 3,37 trilhões em títulos da dívida pública brasileira remunerados pela taxa básica de juros, a Selic. O valor representa quase 70% dos papéis dessa modalidade, segundo levantamento feito a partir de dados do Tesouro Nacional referentes a setembro de 2026.
A concentração ocorre em um momento de forte crescimento da dívida pública, que chegou a R$ 9,383 trilhões em setembro. Nos nove primeiros meses do ano, os juros incorporados à dívida somaram R$ 784,4 bilhões. Isso significa que, enquanto o governo acumula obrigações financeiras, os detentores dos títulos têm seus investimentos remunerados.
Veja quem detém os títulos da dívida pública federal interna:
- Instituições financeiras: 31,33%
- Fundos de investimento: 22,93%
- Fundos de pensão: 22,41%
- Investidores estrangeiros: 9,58%
- Demais investidores: 13,76%
Os percentuais consideram todos os títulos da dívida pública federal interna, incluindo aqueles com diferentes formas de remuneração. Bancos e fundos de investimento, juntos, concentram 54,26% desse mercado.
Quando considerados apenas os papéis cuja remuneração acompanha a Selic, a concentração é ainda maior. As instituições financeiras detêm aproximadamente R$ 1,81 trilhão, enquanto os fundos de investimento administram outros R$ 1,56 trilhão.
Na prática, esses títulos funcionam como empréstimos ao governo. O investidor entrega dinheiro ao Tesouro e recebe uma remuneração em troca. Quanto maior a Selic, maior tende a ser o rendimento dos títulos vinculados a essa taxa e, consequentemente, o custo dessa parcela da dívida para os cofres públicos.
Isso não significa que todo o rendimento fique com os bancos. Parte dos recursos é administrada por fundos que pertencem a investidores individuais, empresas e entidades de previdência. Já os títulos mantidos nas carteiras próprias das instituições financeiras geram receitas diretamente para elas.
Investidores milionários ampliam aplicações em renda fixa
O movimento também aparece entre os brasileiros de maior patrimônio. Dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (ANBIMA) mostram que investidores com mais de R$ 5 milhões aplicados ampliaram significativamente seus investimentos em renda fixa.
Em julho de 2026, os clientes desse segmento, conhecido como private, mantinham R$ 1,28 trilhão nessas aplicações, o equivalente a 45,9% de suas carteiras. Cinco anos antes, a participação era de 20,8%, com R$ 360,6 bilhões investidos.
Somente no primeiro semestre de 2026, as aplicações diretas em títulos públicos desses investidores cresceram 56,9%. Entre os clientes do varejo tradicional, o avanço foi de 27,4%.
Embora a renda fixa também inclua aplicações privadas, os números mostram o aumento da procura por investimentos dessa categoria entre pessoas de elevado patrimônio.
O peso dos juros sobre as contas públicas fica ainda mais evidente quando se observa a evolução da dívida. Entre janeiro e setembro, o Tesouro resgatou R$ 36,5 bilhões a mais em títulos do que emitiu. Mesmo assim, o endividamento cresceu aproximadamente R$ 748 bilhões, impulsionado pelos juros acumulados.
Uma conta ajuda a dimensionar esse mecanismo: considerando os R$ 4,84 trilhões em títulos vinculados à Selic, cada ponto percentual adicional de juros representa aproximadamente R$ 48,4 bilhões em remuneração anualizada, caso o estoque permaneça constante. É uma estimativa matemática, não uma projeção oficial.
Os R$ 784,4 bilhões registrados pelo Tesouro correspondem aos juros incorporados à dívida, e não necessariamente ao dinheiro pago aos investidores durante o período. Parte desses valores será desembolsada conforme o vencimento dos títulos.
Proposta de Lara Resende provoca reação no mercado financeiro
A concentração dos títulos ajuda a compreender os interesses econômicos envolvidos no debate provocado por André Lara Resende, um dos formuladores do Plano Real. Com trajetória em instituições financeiras e reconhecido por sua participação na estabilização da economia brasileira, o economista passou a enfrentar resistência de gestores ao defender uma mudança na política de juros.
Lara Resende sustenta que os juros elevados são uma das principais causas do crescimento da dívida pública, contrariando a interpretação predominante no mercado financeiro de que o desequilíbrio decorre sobretudo dos gastos governamentais. Sua proposta prevê reduzir gradualmente a Selic dos atuais 13,75% para aproximadamente 7,5% em 12 meses, dentro de um novo modelo de coordenação das políticas fiscal e monetária.
A possibilidade de adoção da proposta provocou apreensão entre investidores. Nesta terça-feira (3), por volta das 15h, o dólar era negociado perto de R$ 5,49, enquanto a Bolsa brasileira recuava aproximadamente 1,5%. Os juros futuros de longo prazo também avançavam. O movimento ocorreu em meio a outras incertezas econômicas e internacionais, não sendo possível atribuí-lo exclusivamente ao plano do economista.
A resistência também tem uma dimensão distributiva: juros menores reduziriam, nas mesmas condições, a remuneração futura dos títulos vinculados à Selic, hoje concentrados em instituições financeiras e fundos. Isso explica a justificativa do mercado financeiro de que a mudança poderia provocar fuga de capitais, desvalorização do real e pressão inflacionária. Lara Resende defende uma transição gradual e o uso das reservas internacionais para conter eventuais oscilações cambiais.
Apesar da repercussão, a proposta ainda não foi adotada pelo governo. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou nesta terça-feira (03) que o plano não está em análise e que não existe reunião agendada entre Lula e Lara Resende.