Por Cleber Lourenço
A Crédito & Mercado, consultoria que entrou na mira da Polícia Federal por suspeitas relacionadas aos investimentos da previdência dos servidores de Maceió no Banco Master, assessorou ao menos sete regimes próprios de previdência que aplicaram, juntos, cerca de R$ 232 milhões em letras financeiras do banco.
O cruzamento feito pelo ICL Notícias mostra que a atuação da empresa alcançou fundos municipais de Alagoas, São Paulo e Mato Grosso do Sul. Além de Maceió, aparecem São Roque, Araras, Santo Antônio de Posse, São Gabriel do Oeste, Angélica e Campo Grande.
A conexão ganhou novo peso após a operação autorizada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF) na ultima quarta-feira (12). No caso de Maceió, a PF suspeita que a Crédito & Mercado tenha ultrapassado os limites de uma assessoria técnica e participado da preparação de documentos e procedimentos que deram suporte aos investimentos no Master.
A investigação levou agentes à sede da consultoria, em São Paulo. A decisão autorizou a apreensão de relatórios internos, contratos, notas fiscais, critérios de remuneração, relação de clientes, comunicações com representantes do Master e diferentes versões de documentos produzidos pela empresa.
A Crédito & Mercado nega interferência nas decisões dos fundos. A empresa afirma que sua atividade se restringe à elaboração de análises técnicas, de caráter opinativo e não vinculante, e que cabe exclusivamente aos gestores dos regimes próprios decidir onde aplicar os recursos.
Alcance da atuação e padrões de investimento
Os sete fundos identificados pelo levantamento representam uma parcela relevante dos 18 regimes próprios que compraram letras financeiras do Master. Ao todo, esses 18 fundos investiram cerca de R$ 1,87 bilhão nesse tipo de papel.
Maceió responde pela maior fatia entre os clientes identificados da consultoria, com R$ 97 milhões. Depois aparecem São Roque, com R$ 93,15 milhões; Araras, com R$ 29 milhões; Santo Antônio de Posse, com R$ 7 milhões; São Gabriel do Oeste, com R$ 3 milhões; Angélica, com R$ 2 milhões; e Campo Grande, com R$ 1,2 milhão.
As letras financeiras são títulos emitidos por bancos para captar recursos por prazos mais longos. Diferentemente de produtos como CDBs dentro dos limites previstos pelo sistema, esses papéis não contam com a proteção do Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Por isso, a liquidação do Master deixou os fundos públicos expostos diretamente ao processo de recuperação dos valores.
Documentos públicos mostram que, em alguns municípios, a atuação da Crédito & Mercado ocorreu diretamente no ambiente técnico que antecedeu ou acompanhou os investimentos.
Em Araras, a consultoria produziu em fevereiro de 2024 um parecer sobre letras financeiras do Master. O documento destacava características positivas do banco. Ao longo daquele ano, o regime próprio realizou aplicações que somaram R$ 29 milhões.
São Roque colocou ainda mais dinheiro no banco. Foram R$ 93,15 milhões, montante que posteriormente levou a Câmara Municipal a instalar uma CPI. Documentos do Legislativo registram que a Crédito & Mercado participava da assessoria técnica relacionada à carteira de investimentos do instituto. A própria comissão chegou a convocar representante da consultoria para prestar depoimento.
O caso de São Gabriel do Oeste ajuda a mostrar como essa relação funcionava na prática.
Em 30 de julho de 2024, a Crédito & Mercado elaborou análise para o instituto municipal comparando letras financeiras de diferentes bancos. Entre elas estava a do Master, com prazo de dez anos, remuneração de IPCA mais 7,15%, ausência de garantia e classificação de risco BBB.
No fechamento da carteira do dia seguinte, o regime próprio já registrava R$ 3 milhões aplicados em letra financeira do Master. A documentação disponível não permite afirmar que a ordem de aplicação ocorreu exatamente no dia seguinte ao parecer, mas estabelece uma proximidade temporal entre a análise técnica e a presença do papel na carteira. O próprio portal do instituto mantém a série de pareceres produzidos sobre o investimento.
Em Angélica, também em Mato Grosso do Sul, relatórios de investimentos elaborados pela Crédito & Mercado registram a presença do Master na carteira do instituto. Em agosto de 2025, o banco representava 4,8% dos ativos, com saldo superior a R$ 2,27 milhões.
Os casos ampliam o alcance da investigação aberta a partir de Maceió. A suspeita da PF sobre a participação da consultoria na construção dos documentos usados para respaldar os investimentos torna relevante saber se procedimentos semelhantes foram adotados em outros fundos atendidos pela empresa.
Há sinais de que o universo pode ser ainda maior. Em Mato Grosso do Sul, Fátima do Sul também contratou a Crédito & Mercado e investiu R$ 7 milhões no Master. O parecer técnico da consultoria é de 18 de junho de 2024 e a aplicação foi realizada uma semana depois, em 25 de junho. Registros públicos mostram que o instituto pagou R$ 25,6 mil à empresa em 2025.
Jateí, outro município do estado, aplicou R$ 2,5 milhões no banco e também aparece em registros públicos relacionados à atuação da consultoria. Esses casos ainda precisam ser separados do grupo inicial porque a natureza e o período exato da relação contratual com a empresa precisam ser confirmados.
A investigação autorizada por Mendonça pode ajudar a preencher justamente essas lacunas. Ao determinar a apreensão da base de clientes, contratos, comunicações e versões de documentos da Crédito & Mercado, a PF passa a ter condições de verificar se o episódio de Maceió foi isolado ou se procedimentos semelhantes apareceram em outros regimes próprios que direcionaram dinheiro dos servidores públicos ao Banco Master.