Quem é malandro não pode correr

No campo simbólico da malandragem, entre sambas e pontos de macumba, quem faz estardalhaço e sai correndo é sempre o otário.
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Durante um dos debates da campanha eleitoral recém-terminada, o presidente Lula afirmou que o oponente era um mentiroso contumaz e arrematou com a acusação: é um malandro carioca.

A passagem gerou alguma controvérsia. Para alguns, reforçou um estereotipo um tanto batido; para outros, o presidente apenas quis ressaltar as fanfarronices de um candidato boquirroto. Para mim, é uma bola levantada para lembrar que o imaginário da malandragem e da figura do malandro é um campo em disputa.  Explico resumidamente.

Existe um malandro que podemos definir como personagem da história. Grosso modo, ele seria uma figura típica do pós-abolição da escravatura. Não inserido no mercado formal de trabalho, circulando em uma zona difusa entre a formalidade e a informalidade, a legalidade e o delito, a ordem e a desordem, a violência e a negociação, se adaptando a circunstâncias diversas normalmente marcadas pela escassez material, esse personagem suscita até hoje debates entre quem o estuda.

Para alguns, a malandragem como fenômeno histórico é resultado direto de um contexto de exclusão social da maioria negra no início da República. Para outros, como alertava o meu mestre Joel Rufino dos Santos, o malandro não é apenas o excluído, mas também aquele que adere à informalidade como recusa aos novos cativeiros, em um país que desqualificou o mundo do trabalho ao vinculá-lo aos sentidos materiais e simbólicos da escravidão. O debate é bom.

Encruzilhado ao personagem histórico, há um malandro encantado, de trajetória lendária, vivendo a saga das ruas, entre rasgos de valentia e decepções amorosas. Driblando inclusive a própria morte, é o malandro que vira trabalhador nas giras de umbanda, subverte o tempo desencantado da disciplina do trabalho em um tempo redefinido pela permanência garantida, paradoxalmente, pela morte. Nos terreiros, as malandras e malandros são curadores de almas e libertadores de corpos.

Há ainda diversas representações da malandragem e seus personagens na literatura e na música popular (em especial no samba). Os transbordamentos da indumentária do malandro para a cultura pop, o mundo da moda, o cotidiano das ruas, são marcas também da construção de uma simbologia da malandragem presente no processo de invenção de certa identidade que definiria, sobretudo, o carioca.

É necessário lembrar que toda identidade que se pretende fixa é ilusória, confortável e historicamente construída. Longe de ser a decantada cidade “maravilhosa” e longe de ser a experiência mais próxima que alguém pode ter do inferno na terra, a cidade do Rio de Janeiro é complexa, violenta, afável e brutal ao mesmo tempo, fugidia, aberta, solar, obscura, embriagadora, nauseante e incapturável por estereótipos diversos. Como a malandragem, talvez?

No meio de tudo isso, há ainda uma semântica do malandro que define o personagem a partir de uma vastidão de sentidos, englobando no mesmo pacote o bandido, o sujeito versado nas entranhas do crime, o safado que quer se dar bem, o falastrão que conta vantagem, o pusilânime, o picareta de marca maior.

Como me parece que o presidente Lula não viu no adversário um personagem oriundo de um contexto de exclusão social, naquele primeiro sentido da malandragem, e muito menos um candidato a virar entidade encantada que curas as mazelas da vida pela alegria, o sentido empregado na fala (talvez descuidada) foi mesmo o exposto no parágrafo acima.

De minha parte, ressalto apenas que a malandragem é, dentre outras coisas, um campo de estudos fascinante e necessário para a compreensão dos dilemas da cidade e do país. E não resisto a citar uma pérola de um samba de malandro (autoria de Silas de Oliveira e parceiros) que virou ponto de Seu Zé Pelintra:

Se a rádio patrulha chegasse aqui agora / seria uma grande vitória / ninguém poderia correr / Agora que eu quero ver / Quem é malandro não pode correr.

No campo simbólico da malandragem, entre sambas e pontos de macumba, quem faz estardalhaço e sai correndo é sempre o otário.

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