Eleições na Alemanha: crises e pauta anti-imigração puxam a política para a extrema-direita

No próximo dia 23 o país decide novo parlamento e chanceler. Partidos conservadores lideram pesquisas
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No momento em que escrevo essa coluna, no dia 19 de fevereiro, as pesquisas de intenção de votos para as eleições alemãs, adiantadas para o próximo dia 23 , mostram um cenário preocupante.

O partido conservador CDU, que recentemente chocou o país ao romper o cordão sanitário e aceitar o apoio da AfD – partido de extrema direita com conexões neonazistas – para uma proposição no parlamento aparece em primeiro, com 29% das intenções de voto.

Mas o que está arrepiando os alemães mais progressistas e a comunidade internacional nesse inverno frio é que a AfD, em um episódio inédito desde a criação do partido em 2013, está em segundo lugar, com 21% das intenções de votos.

Quem acompanha a coluna já sabia dessa ascensão. Há meses estamos falando de como o partido de extrema-direita vem ganhando espaço no imaginário popular, seja como voto de protesto, legitimação de um pensamento racista e xenófobo ou como uma “alternativa” para a crise financeira que leva o país ao segundo ano de recessão.

A fórmula, replicada pela extrema direita do mundo todo e que ficou ainda mais evidente com o governo Trump, é simples: tornar o imigrante no grande inimigo, culpado de todos os problemas do país. Do aumento da criminalidade ao desemprego, da perda da cultura e identidade locais até o “enfeiamento” das cidades, como ouvi um padre alemão sugerir em um congresso conservador em Bruxelas.

Em entrevista à coluna “Extrema direita avança na Alemanha impulsionada por votos jovens”, o sociólogo alemão Börries Nehe definiu: “Existe uma série de fatores para o crescimento da extrema direita, globais e locais. Existe a crise da hegemonia do neoliberalismo, um sentimento geral de insegurança e instabilidade geradas pelo capitalismo e a extrema direita aparece oferecendo falsas soluções, isso é algo que a gente vê no mundo todo”.

E acrescentou “Na Alemanha isso se soma a um desencantamento com o governo atual de Scholz e mesmo com o governo anterior de Angela Merkel. Mas acho que o ponto central é mesmo o racismo e um consenso anti-imigração”.

Esse consenso anti-imigração estaria, segundo Börries, tomando aos poucos outros partidos, o que estaria puxando a régua política para a extrema direita, na tentativa de disputar os votos da AfD.

É nesse sentido que a possível eleição do candidato da CDU Friedrich Merz preocupa. Porque além de o partido ter propostas para endurecer as políticas de imigração, o provável novo chanceler tem flertado com a AfD.

Uma das eleições mais significativas da história

As eleições alemãs são consideradas uma das mais significativas da história recente, não só para o país mas para toda a União Europeia (UE).

O resultado não só marcará o fim de uma era política de mais de uma década iniciada por Angela Merkel, como também determinará o rumo econômico e político da maior economia da UE.

O processo eleitoral na Alemanha é diferente do Brasil. Explicando resumidamente, os eleitores maiores de 18 anos têm dois votos: um para um candidato de seu distrito e um para um partido político.

O primeiro voto determina quem será o representante de cada distrito eleitoral. O segundo define quantos assentos cada partido receberá no Bundestag com base na sua porcentagem de votos.

É um sistema híbrido, que combina a representação proporcional com mandatos diretos.

Já o chanceler é eleito de forma indireta pelo Bundestag (parlamento) e precisa de maioria absoluta para assumir o cargo. Sem essa maioria, os partidos precisam fazer coalizões, que é o que geralmente acontece.

O atual chanceler Olaf Scholz do partido SPD, por exemplo, tem coalizão com os Verdes e os Liberais do FDP, mas essa aliança se desfez em novembro de 2024 após disputas internas, incluindo uma crise no orçamento do governo.

O fracasso dessa coalizão levou à convocação das eleições antecipadas, que vão ocorrer sete meses antes do previsto.

O Impacto para a União Europeia
A Alemanha, sendo o maior país da UE em termos de população e economia, exerce uma influência decisiva sobre os rumos do bloco. Qualquer mudança política significativa no país reverbera por toda a União Europeia.

Se o CDU/CSU de Merz assumir o governo, isso pode resultar em uma política mais conservadora em relação a questões como imigração, a abordagem sobre o clima e até mesmo a economia, o que pode alterar a dinâmica dentro da UE. O crescimento do AfD também coloca em xeque o futuro da União Europeia, dado seu posicionamento contra a integração europeia e suas críticas à política migratória do bloco.

O Que Está em Jogo?
As eleições de 2025 são mais do que uma simples troca de poder; elas representam um ponto de inflexão para a Alemanha e para a União Europeia. Com um cenário econômico frágil, desafios políticos internos e o crescente extremismo – incentivado pelo governo Trump e Elon Musk, vale sempre lembrar – o país enfrenta um futuro incerto.

A política de migração, uma questão central nas campanhas, é apenas a ponta do iceberg. O modo como a Alemanha escolherá lidar com suas crises internas e com as questões da UE, como a recuperação econômica pós-pandemia e a resposta ao aquecimento global, será fundamental para determinar o rumo não apenas do país, mas de toda a Europa.

Além disso, com mais assentos no parlamento, o cordão de isolamento à extrema direita, fundamental para a democracia alemã, fica cada vez mais frágil.

Há também o significado simbólico de tudo isso. Nós vimos como o gesto nazista feito por Musk e Bannon há algumas semanas foram repetidos em todo o mundo, inclusive no Brasil.  E isso mostra que a naturalização do fascismo e do nazismo são um dos maiores perigos de nossos tempos.

Por tudo isso, as eleições de fevereiro de 2025 são cruciais para entender os próximos passos não apenas da Alemanha, mas da União Europeia e desse bloco de extrema direita no mundo todo.

O que acontece em Berlim não fica em Berlim, como a história já mostrou. E aí vou ter que citar Marx: “A história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa”.

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